COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

ESCASSO

Não foi a primeira decisão de título mundial de clubes em que um dos times em campo não queria jogar. A ocasião costuma proporcionar encontros desequilibrados do ponto de vista técnico, em que as únicas chances do não-europeu residem em uma vitória casual ou nos pênaltis.

Mas foi a primeira decisão de um Mundial de Clubes da FIFA em que um dos times não apenas não queria jogar como também não queria que houvesse jogo. São coisas distintas. Dificultar a fluência dos movimentos de um adversário superior, apostando no erro e na surpresa, é uma entre tantas maneiras de competir. O estágio além desse expediente é o que se convencionou chamar de antijogo. Foi a escolha inicial do San Lorenzo contra um Real Madrid fabuloso, construído e operado por um vencedor silencioso chamado Carlo Ancelotti.

Relacionando um jogo de futebol a uma conversa, o estilo de defesa e contragolpe seria como interromper frequentemente os raciocíonios do interlocutor. Fazer perguntas sobre temas nos quais ele não está interessado, investir em uma dinâmica que o deixe desconfortável. O antifutebol é agredir, ofender, sentar no chão com as mãos tapando os ouvidos e gritar. Um comportamento que revela imaturidade e incapacidade de lidar com os próprios defeitos.

O antijogo não é permitido pelas regras do futebol. A obrigação de impedir que o espetáculo seja contaminado é da arbitragem. No sábado, em Marrakech, a estratégia dos campeões da Copa Libertadores teve a assistência do árbitro guatemalteco Walter Lopez, que tardou cerca de meia hora para estabelecer um mínimo de ordem no gramado. No período, o que se viu foi um jogo sem mediação, ambiente perigoso em que vale a lei do mais forte. O nível do apitador da decisão é algo que a FIFA precisa corrigir em edições futuras do Mundial de Clubes.

Tudo teria sido diferente se, no primeiro ataque espanhol, a bola roubada por Toni Kroos (formidável jogador alemão que terminaria a noite tendo conquistado três títulos mundiais em um intervalo de um ano) tivesse chegado a Karim Benzema diante do gol. O francês pareceu tropeçar no momento de concluir o passe de Cristiano Ronaldo, desperdiçando a chance que serviria como abridor de latas. O San Lorenzo veria seu plano ruir nos minutos iniciais e, talvez, trocasse a longa lista de preocupações pela atitude kamikaze que já levou tantas equipes menos cotadas a conquistas heróicas.

O gol de Sergio Ramos, próximo do final do primeiro tempo, convenceu os argentinos de que o melhor cenário possível seria o empate. E o gol de Bale, fruto de uma constrangedora falha do goleiro Torrico logo no recomeço, consolidou a dramática diferença técnica entre o melhor europeu e o equivalente sul-americano neste ano. O San Lorenzo passou a jogar para não sofrer mais, proposta plenamente aceita pelo Real Madrid, à exceção de Cristiano Ronaldo, ávido por um momento de destaque individual.

Ao final, entre ser ingênuo ou provocador, o melhor caminho é ter coragem e crer na generosidade do futebol. Nenhum time sul-americano jamais conquistou esse troféu sem jogar, nem que seja só um pouco.



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