COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

OS CARTOLIZADOS

O torcedor de dirigente é um soldado que se alistou sem ter sido convocado. Considera-se um defensor da instituição e se crê um entre milhões que “pensam” da mesma forma, apesar de não haver traço de reflexão em suas manifestações. Enxerga o cartola como um ser superior, um ídolo sem defeitos, alguém que personifica a paixão como ele faria se tivesse a honra. Comporta-se como um devoto.

O torcedor de dirigente é desprovido de espírito crítico. Alguns até são capazes de exercê-lo em relação a outros temas, mas o desativam quando o assunto é seu time ou seu líder. A enorme maioria ignora como analisar a conduta do dirigente favorito com qualquer prisma que não seja o balanço de vitórias e derrotas. Mas há até os fundamentalistas que não abandonam as virgens de cartola mesmo quando o time, o clube e a história vão para o buraco, como vimos neste ano no caso do Botafogo. Os torcedores de Maurício Assumpção – sim, eles existem – conseguem ver aspectos positivos na catástrofe.

Quando o repórter Bernardo Itri, da Folha de S. Paulo, revelou nesta semana a existência de um contrato no São Paulo que beneficia namorada de Carlos Miguel Aidar, torcedores do presidente tricolor não detectaram qualquer problema. Argumentaram que a comissão de 20% é praxe nesse tipo de negócio, fechando olhos e ouvidos para a real anomalia, o conflito de interesses. Provavelmente não sabem do que se trata, e nem querem saber, pois se é “bom para o clube” é bom para eles. Inocentes.

O torcedor de dirigente aceita, aplaudindo, tudo o que o oráculo diz. Não há possibilidade de contraditório. De modo que não foi a esses robôs que o presidente do Internacional, Vitorio Piffero, dirigiu tanto nonsense sobre suas desventuras com treinadores, em entrevista coletiva na terça-feira. Os torcedores de Piffero receberiam em êxtase o que quer que ele declarasse, até mesmo que o Inter seria dirigido pelo comendador da novela em 2015. As tentativas frustradas de convencer alguém de que o clube não procurou nem Tite e nem Vanderelei Luxemburgo foram, portanto, endereçadas a quem não bate palmas automaticamente. Por quê?

Ao se reapresentar ao Corinthians, Tite confirmou que conversou com o Internacional. Sobre o convite a Luxemburgo não existe apenas o comunicado divulgado pelo treinador (informando que permaneceria no Flamengo), mas a informação de quem fez a abordagem. Piffero poderia ter dito a verdade ou utilizado a sempre conveniente saída do “assunto interno, sem comentários”. Preferiu iludir, ludibriar. É feio, mas é mais fácil do que admitir que as duas negativas colocaram o Inter em posição desagradável, obrigado, talvez, a tentar as pazes com Abel Braga se ele quiser conversar. Para o torcedor de dirigente, não existem contextos.

O maior problema do torcedor de dirigente é seu caráter autoritário, alimentado pela fantasia de poder que sua imaginação criou. Essa missão ficcional o leva a se voltar justamente contra aqueles que podem ajudá-lo a ver. Assim o sonho continua com ele a postos, à espera de novas ordens, orgulhoso.

ATUALIZAÇÃO, segunda-feira 22/12, 11h00 – O Internacional contratou hoje o técnico uruguaio Diego Aguirre.



MaisRecentes

Plano B?



Continue Lendo

Pendurado



Continue Lendo

Porte



Continue Lendo