COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

FUTEBOL DE ALUGUEL

É sempre arriscado fazer elogios a um dirigente esportivo brasileiro. Para usar uma expressão educada, digamos que a classe é carente de credibilidade. A taxa de conversão de boas intenções – quando existem – em práticas abomináveis é alta, o que transforma o aplauso em ingenuidade na melhor das hipóteses. Na pior, em cumplicidade imperdoável.

Para não pisar nesse território pantanoso, e também não cometer a injustiça de permitir que uma declaração importante fique sem a devida repercussão, o caminho seguro é elogiar a mensagem. Pois: o presidente do Vitória, Carlos Falcão, concedeu uma entrevista exemplar à ESPN na última quinta-feira. Em poucos minutos, solicitou o retorno dos clássicos regionais às últimas rodadas do Campeonato Brasileiro e, com firmeza, abordou o recorrente tema das malas brancas.

“Enquanto eu for presidente do Esporte Clube Vitória, isso não vai acontecer. Nem aceitaria e puniria jogadores do meu clube que aceitassem. Os jogadores do Vitória têm que jogar pelo Vitória. Têm que receber premiações que sejam combinadas com o Vitória”, disse Falcão, acrescentando ter conhecimento de que o incentivo financeiro de clubes interessados está disseminado no futebol. A posição do dirigente baiano não dá margens a dúvidas: ele condena e repudia a promiscuidade entre clubes. Se foi uma simulação de postura, uma embalagem sem conteúdo, há registro com vídeo e áudio.

O assunto ressurge nas rodadas finais de campeonatos, acompanhado de toda sorte de defesas e subterfúgios. Há quem ceda ao desespero de relativizações que acalmam a alma e relacione a mala branca à gorjeta, ou seja, uma bonificação para alguém que fez bem o próprio trabalho. Infantilidade que não resiste a trinta segundos de argumentação: além da relação ser diferente, alguém já ofereceu gorjeta para que um garçom servisse outra mesa? O exemplo da gratificação por serviço prestado existe no futebol na forma do “bicho”, o prêmio por vitória ou por objetivos alcançados, pago pelo clube aos jogadores como uma remuneração adicional, além do salário previsto em contrato. O envolvimento de terceiros é imoral e ilegal.

Em que outra área de atividade se aceita que um funcionário receba dinheiro de um concorrente? Excetuando os casos de jogadores emprestados que têm salários, ou parte deles, pagos pelo clube proprietário de seus direitos (situação incluída nas negociações de atletas entre instituições, algo inerente ao esporte profissional), esse tipo de prática corrompe a forma como clubes e jogadores de futebol devem se relacionar. Alguém dirá que o vestiário pode não ser informado sobre a origem do “incentivo”, o que, além de ingênuo, não é solução para o problema central.

Quem aceita dinheiro de terceiros para vencer um jogo não está muito distante de, um dia, quem sabe, dependendo da situação, aceitar dinheiro para empatar. Não vai prejudicar ninguém, vai? E se for para perder? É difícil encontrar as linhas que determinam a conduta dos que se comportam como mercenários. E o fato de algo ser frequente não significa que seja certo.

EDUCAÇÃO

Programar clássicos para as últimas rodadas é uma medida que ao menos diminui a possibilidade de atuações manchadas. Estabelecer punições para malas voadoras, como a CBF fez constar em seu regulamento de competições para 2015, é o mínimo que se espera de quem pretende organizar campeonatos sérios. A origem do problema, que nenhuma regra esportiva tem a capacidade de evitar, é a índole de quem se envolve em tramas inconfessáveis por dinheiro. Muitas vezes por ausência de princípios, algumas por ausência de coragem. Cada aparição de um jogador na televisão, sorrindo e dizendo que não vê nenhum problema em receber dinheiro de outro clube, deveria ser sucedida por atitudes internas de companheiros e superiores no sentido de esclarecer o assunto e apontar o equívoco. Há muito de falta de educação nesse tipo de discurso.



  • Joao

    Uma curiosidade que eu tenho: esse conceito de mala branca existe no futebol europeu? Já existiu?

    AK: Você fala do termo ou da prática? A prática está disseminada lá, também.

  • Eddie The Head

    Concordo que.dentro do contexto do futebol,a “mala branca” é imoral,pois ela premia alguém que já recebe normalmente (ou pelo menos deveria receber,em alguns casos) para fazer exatamente aquilo que justifica o pagamento extra. Mas muito longe de ser ilegal. Senão seria também ilegal dar gorjetas. Foge à ética do futebol,mas não concordo que seja ilegal.

    AK: Não é uma questão de opinião. É proibido, por isso é feito escondido. E por favor não insista na fantasia da gorjeta. É nonsense.

    • Eddie The Head

      Rapaz,não creio que seja nonsense,nem fantasia. Acho que é uma realidade,é um costume que já faz parte da rotina de certos ramos. Claro que é uma mera comparação o serviço prestado por um garçom ou similar com um jogo de futebol.

      Procurei a respeito sobre o assunto,e o link abaixo mostra a OPINIÃO do autor,mas não há artigo específico. Se observarmos a frase com que o autor encerra o texto podemos notar que é uma questão imoral,não ilegal.

      http://globoesporte.globo.com/platb/esportelegal/2010/11/12/mala-preta-mala-branca-e-os-limites-da-legalidade/

      AK: Leia o texto. A comparação com a gorjeta não existe. E para finalizar, porque cansa repetir: mala branca é uma prática proibida, o que encerra a questão. Menos para quem insiste em não compreender as coisas.

      • Esio

        André, fica fácil saber porque seus posts praticamente não recebem comentários. Você é muito grosseiro com seus raros leitores. Já percebi isto diversas vezes.
        Aproveitando: porquê você não fez comentários a respeito dos jogos do Inter e do seu Corinthians? O teu time teve confirmado um gol em impedimento e o Criciúma teve um gol mal anulado. E quanto a troca do local do jogo do Inter que seria em Chapecó. O inter havia conseguido voo para Chapecó e já haviam sido vendidos milhares de ingressos. Prejuízo financeiro para o Figueirense e para o empresário que havia comprado os direitos da organização. Sem falar no prejuízo aos torcedores. Em outra rodada, o teu Corinthians não teve problema para levar um jogo para um local onde teria a maioria dos torcedores.
        Eu já não estava lendo seus posts com regularidade, a partir de agora pode contabilizar um leitor a menos. Abs.

        AK: Deixa eu te explicar como esse negócio funciona: o número que interessa na internet é o de visitas à página, no que este blog vai muito bem, obrigado. Quanto a comentários, a coisa ficou tão pobre que vários sites têm eliminado o espaço para discussão. O seu comentário é um exemplo dessa situação. Finalmente, quanto a deixar de ser um leitor: quem você pretende enganar?

        • José Henrique

          Isso é verdade. Leitura obrigatória, diária: seu blog, a coluna de Prima do lance (a melhor de todas na minha opinião) e o campeão G1.

          • Esio

            HAHAHAHA. Confirmado: você é realmente prepotente. Passei aqui só para ver sua resposta fugaz. Como era de se esperar, nem teceu comentários a respeito da troca do local do jogo do Inter x Figueirense.
            Ah!! José Henrique, certamente você deve ser frequentador da residência do Sr. A.K.
            Até nunca mais.

            AK: Vejam que patético: eis o sujeito que disse que não voltaria. Repetindo a pergunta: quem você pretende enganar?

            • Teobaldo

              Enganação é convidar apenas o José Henrique para frequentar a sua casa, pô! E eu, que o acompanho desde os primórdios, nem um cafezinho no boteco da esquina… Quanta ingratidão!!!!!!!

          • Esio

            Esqueci de comentar: Você disse que o que interessa é o número de visitas à página. Não se iluda meu caro.
            Então, agora deixa eu te explicar como esse negócio funciona para muitas pessoas: Eu, assim como muitos amigos, visito a página de seu pai, Sr. Juca Kfouri (aliás, você deveria se espelhar no exemplo dele e aprender a interpretar os fatos). A partir dali, acesso sua página para usar de ATALHO para o PVC e Mauro Beting. Estes sim, vale a pena ler. Raramente leio seus posts e ao final sempre me arrependo.
            Tomei uma decisão: chega de arrependimento. Se é que me entende (já que você é fraco em interpretação dos fatos).

            AK: Einstein, o número de pageviews é registrado independentemente da maneira como as pessoas chegam à página. Eu sei quando você vem, quantas vezes e onde estava antes de vir. Sei também que este é o segundo comentário que você escreve DEPOIS de dizer que não voltaria. Por que tanta dificuldade em cumprir sua palavra? Uma vez mais: quem você pretende enganar?

            • Esio

              Voltei pra ver se você comentaria algo a respeito da troca do local do jogo, mas nada ainda. Eu não quero enganar ninguém, mas você é que está se iludindo ao achar que tem tantos leitores assim. Isto sim é patético. Cara, obrigado. Vou acessar os blogs de gente decente e que entende do riscado por outros meios. Fique com sua arrogância e prepotência.

              AK: MAS DE NOVO?! O que está acontecendo? É mais forte do que você? Eu posso ajudá-lo bloqueando seus comentários. De acordo? (e Einstein: eu não “acho” nada a respeito do número de leitores, eu “sei” quantos são).

              • Esio

                Realmente você tem dificuldade em interpretar textos, não é meu caro? Vou explicar novamente, mas vai ser a última vez. Quando alguém acessa sua página, não quer dizer que ele leu seu post. Eu, por exemplo, (já expliquei isto antes) uso sua página como ATALHO para acessar outros blogs. Raríssimas vezes paro para ler sue post. E, como já disse anteriormente também, quase sempre me arrependo. Então meu caro, não se iluda com o número de acessos à sua página. Ele pode não representar a realidade.
                Ah!! Não precisa bloquear meus comentários. Vamos findar este bate-papo agora.
                De qualquer forma, deixo um abraço e meu respeito ao ser humano A.K.

                AK: DE VOLTA?!! Mas essa é a ÚLTIMA VEZ, né? Você está parecendo aquele sujeito que diz que não bebe, não fuma e não lê este blog. Só mente um pouquinho… Seja sempre bem-vindo.

                • Nilton

                  Esio, tem uma ferramenta muito interessante no teu navegador que se chama “Favoritos”, assim você não vai mais precisar usar a pagina do A.K. como atalho, já que a mesma não interessa a tua leitura.

  • José Henrique

    Não sei como pode ter gente que aprova “mala branca”. Porém, para quem viu estádios lotados com placas de “ENTREGA”, não chega a ser surpresa nenhuma essa posição.
    Lamentável essa decisão de desmarcarem os clássicos para a última rodada.
    Por muito pouco, não tivemos neste ano, espetáculos deprimentes das tais “entregas”.
    Times recorrendo a justiça, contra patrocínio de outro, recursos estapafúrdios ao STJD, como terceiros interessados, tudo em nome, de um caso no passado, onde tinha pretensões desonestas de que, jogos confessadamente manipulados, por interessados em jogatina de apostas, podemos esperar mais o que?
    E, argumento tipo, “não é ilegal, pode ser imoral” para justificar é o fim da picada.
    Imoral pode! Nosso pais precisa escutar João Ubaldo Ribeiro:”Precisa-se de Matéria Prima para construir um País”

  • Márcio

    Clássicos na última rodada não acabarão com o entrega-entrega, pois as supostas entregadas também ocorrem nas rodadas anteriores. Além disso, se algum Estado tiver um número ímpar de times na Série A (como o Rio de Janeiro, que tem 3 times este ano e terá 3 no próximo), será impossível marcar clássicos para todos eles.

    A solução é definir as vagas nas competições internacionais (Libertadores e Copa Sul-Americana) pela média de pontos em duas temporadas. Nenhum time vai entregar jogo no final de 2015, se souber que a derrota poderá tirá-lo da Libertadores de 2017.

    • Celso

      Concordo Márcio, acho que clássicos até facilitam o corporativismo estadual. Em 2011 o Galo estava voando e perdeu de 6×1 para o Cruzeiro, que se não ganhasse cairia para a segundona. Afirmar que é armação é ilação, mas que é estranho é. Clássicos regionais também não solucionam o problema.

  • Caio

    Pois é André, é triste perceber que há quem entenda como normal receber um incentivo financeiro p fazer o que é obrigação, compromisso profissional.

    Só essa discussão já mostra o tamanho da confusão de valores em que vivemos.

    Defender o óbvio cansa, cara, cansa demais…

    AK: Exato. Um abraço.

    • Teobaldo

      Essa historia de receber de terceiros por “fazer algo certo” que já é pago por seu empregador fez-me lembrar o ex-ministro Antônio Rogério Magri que recebeu (e, pasmem, admitiu em rede nacional) 30 mil dólares para assinar um despacho que, apesar de legal, beneficiava determinada empresa. Como bem disse o Caio, uma confusão de valores… ou de falta de valores!

  • edison_jr

    não é porque é algo comum que é correto, é como a corrupção, existe desde de sempre… mas nem por isso não deve ser combatida

  • Eddie The Head

    Só para que conste : A despeito de algumas opiniões,em momento algum eu disse que concordo com a “mala branca”. Disse,e reafirmo,que não acho ilegal,pois não há,mesmo entre os que dizem que é absurdo,um artigo que a defina como ilegal. Repito: Na minha opinião é imoral,mas,por não ter nada que a caracterize como crime,não é ilegal.

  • Felipe Lupianhez

    Gosto do seu trabalho atuando na Espn e como colunista!!! Mas também o achei estupido e prepotente em suas respostas… Gde Abraço

    AK: Obrigado pelo comentário carinhoso. Um abraço.

  • Lippi

    André, nas ligas americanas existe (ou já existiu) alguma conversa desse tipo? Ok, não existe rebaixamento, mas a situação poderia acontecer numa disputa de classificação para playoffs

    AK: Não duvido, mas nunca ouvi falar. Um abraço.

  • Charles

    Lógico que mala branca/preta/azul… tenha que ser extirpada, pois jogadores são pagos para defender o clube.
    Mas não concordo com clássicos nas últimas rodadas, pois em 2011, publico e renda cairam muito, pois a maioria dos classicos não valiam mais nada.
    E ainda Vasco teve que jogar dois classicos seguidos, enquanto o time campeão jogou apenas 1 classico.
    Foi uma injustiça.

  • Joao CWB

    Caro André, o que você tem a dizer sobre alguns jornalistas que anunciaramm aos 4 ventos que o Atlético-PR entregaria o jogo?

    Nunca vi um time disposto a entregar o jogo atacar tanto quanto o Furacão atacou. E se estava disposto a entregar o jogo, que time ruim esse do Palmeiras hein? Nem assim para ganhar.

    Abraço.

  • Marcelinho

    André,

    Nesse fim de semana assisti uma entrevista do Petkovic em um programa esportivo nacional, e ele disse que o Brasil é um dos poucos países que felizmente ele não tem notícia de armação de resultados, talvez pelo fato de aqui as apostas não serem costumes do povo como é lá fora.

    Antes dessa última rodada do Brasileirão muito se falou da possível “entrega” de alguns clubes para favorecimento de outros, talvez mais pela rivalidade do que pela chamada “mala branca” ou “mala preta”.

    Acho que nós torcedores, e a imprensa em geral, criticamos sempre até quando não nos deparamos com essa situação, o que de certa forma está correto. Mas você não acha que mais correto ainda é também elogiar: Criciuma, Figueira, Atletico-PR, Coritiba e Santos pelo que fizeram no fds?

    AK: Não vi essa declaração, mas os fatos a desmentem. Já tivemos esquemas de armação de resultados denunciados, com provas, no futebol brasileiro. É óbvio que isso não autoriza as acusações levianas ou mesmo a dúvida constante. Quem jogou seriamente na última rodada, mesmo sem objetivos, merece o elogio. Mas, fazendo uma SUPOSIÇÃO: se amanhã soubermos que esses times foram turbinados por malas voadoras, você retirará o elogio? Um abraço.

    • Rafael

      Se isso for verdade, deve ser porque no Brasil se apura menos esse crime do que em outros paises, e nao porque as competicoes tem mais lisura..

  • Fabio

    Ainda sobre malas brancas e afins: fui só eu que achou a reação dos jogadores do Figueirense desproporcional? OK, perder o jogo no último lance é algo duro de engolir, mas para eles além do orgulho de vencer (empatar neste caso) nada mais deveria estar em jogo

    • José Henrique

      Pois é. E você nem suspeita porque não informaram que o Figueirense disputava uma vaga na Sulamericana né? Prefere-se apontar o dedo para onde o nariz indica não é?
      Incrível como gostam de atirar b…. na geny. Depois reclamam nos Dvds da vida.

    • José Henrique

      Completando. Informação como essa, não interessava mesmo. Só no próprio clube, onde os jogadores se “empenharam desproporcionalmente”, e são maldosamente colocados sob suspeição, apenas por rivalidades. Porque não escreve logo que o Corinthians deu mala branca, sem “sugerir”.?
      http://www.figueirense.com.br/noticia/figueirense-inicia-busca-por-vaga-na-copa-sul-americana/

  • Marcos Nowosad

    André, você sabe qual foi a justificativa oficial para o fim do hábito (saudável) de programar clássicos regionais na última rodada do Brasileirão?

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