COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

PLANTÃO

A fachada da Clínica e Maternidade Suizo Argentina, no centro de Buenos Aires, foi redecorada naqueles dias de abril de 2004. A parede da entrada principal transformou-se em um gigantesco mosaico de fotografias, desenhos e cartazes. Flores e velas adornavam as imagens, conferindo à obra um caráter fúnebre. À noite, o tom amarelado das chamas iluminava a vigília de quem não dava atenção a nenhum outro tema. No prédio em frente ao hospital, uma bandeira estirava-se para o lado externo da sacada: “Fuerza D10S”.

Diego Armando Maradona estava internado. Com o coração afetado por uma sobredose de cocaína, equilibrava-se entre a vida e a morte na unidade de terapia intensiva, fazendo um país temer por sua partida aos 43 anos. Havia gente de todas as idades e todas as partes da Argentina na calçada, o que obrigou a colocação de grades na avenida para evitar que o trânsito fosse bloqueado. A garoa e o frio não os incomodavam. Ao contrário, estimulavam-nos a cantar as músicas que homenagearam Maradona nos estádios onde ele jogou. No quarto andar da clínica, sedado e em estado crítico, Don Diego nada podia ouvir.

As informações do boletim médico traduziam desespero. Maradona havia sido entubado por apresentar insuficiência respiratória, era mantido vivo por um respirador mecânico. Cada hora era crucial. Na vigília, fãs se apegavam à mão de Deus. Jornalistas se concentravam ao lado da porta, no aguardo de notícias e esperando pelo pior. A Argentina se preparava para perder, velar e enterrar seu mais célebre esportista, idolatrado pela genialidade que o distanciou dos mortais e pelas fraquezas que o aproximaram de todos nós.

O plano era fazer uma reportagem sobre a morte iminente de Maradona. Visitar o estádio do Argentinos Juniors, origem de sua carreira no futebol, e o do Boca Juniors, onde a maior torcida da Argentina se apaixonou por ele. O roteiro também incluía o Luna Park, casa de espetáculos onde Maradona se casou em 1989 e provável local de seu velório, e o cemitério La Chacarita, descanso final de algumas das maiores personalidades do país. Entrevistas foram marcadas e gravadas com Quique Wolff e Roberto Perfumo, ambos preocupados, mas extremamente gentis para falar sobre Maradona, o ícone, e Diego Armando, o homem. Relatos que contribuíram para a compreensão da relação dos argentinos com um futebolista extraordinário, adoração que supera cores de camisas e falhas pessoais.

Dois dias depois da internação de emergência e dos prognósticos sombrios, boas notícias começaram a sair da Clínica Suizo Argentina. Maradona voltou a respirar com as próprias forças após cinco dias na UTI, e seguiu melhorando até deixar o hospital. A reportagem foi exibida, mas limitou-se a mostrar como os argentinos viveram aqueles dias de ansiedade. Obituários, homenagens e programas especiais preparados por meios de comunicação de todo o mundo estão, felizmente, arquivados desde então.

É possível que um jornalista estrangeiro tenha uma história parecida a contar sobre os últimos dias de plantão por causa de Pelé, internado em São Paulo. Ainda que os casos não sejam semelhantes em gravidade. Longa vida aos gênios do futebol, sempre.

EM CASA

No dia em que dispensou quatro jogadores do Botafogo, o ex-presidente Maurício Assumpção disse que assumia a responsabilidade pela decisão pessoal que tomou. Nunca saberemos se, com os dispensados em campo, o time conseguiria evitar o rebaixamento que se confirmou ontem. Há pessoas que vivem o dia a dia do Botafogo que entendem que sim. O que sabemos é que, felizmente para o clube e seus torcedores, Assumpção não está mais em posição de prejudicar o Botafogo. Mas a obra de sua gestão ficou completa neste domingo, e a responsabilidade que ele afirmou assumir jamais lhe será cobrada.

AGENDA

Problema a ser resolvido: a última rodada do Campeonato Brasileiro prevê Corinthians e Palmeiras jogando no mesmo dia e no mesmo horário, em São Paulo. Partidas relevantes, que devem mobilizar as duas torcidas. Riscos anunciados que devem ser evitados.

ATUALIZAÇÃO: Como se sabe, decidiu-se ontem à tarde que Corinthians x Criciúma será no sábado.



  • José Henrique

    Sutil a comparação do comportamento dos torcedores em relação aos ídolos.
    Não só de torcedores. Olha esse comentário de uma leitora, no blog do Juca, em 2009, para se ter uma idéia como tratam, aqui, os ídolos brasileiros.
    30/03/2009 13:59:31
    Juca, assisto o Linha de Passe toda segunda, gosto muito do programa, e sempre ouço o Calazans falando dos “brucutus do Futebol” e concordo com ele, ontem ouvindo ao programa da Gazeta, ouvi o Flavio Prado dizendo que os zagueiros precisam chegar junto no Ronaldo, não acreditei no que eu estava ouvindo, ele quer que quebrem o Ronaldo pelo jeito, cada vez que assisto esses programas chego a conclusão que só devo assistir a ESPN e SPORTV mesmo. Abçs

  • Havendo uma organização prévia, que já deveria estar planejada, os riscos de “encontros” das torcidas podem ser minimizados. Já se sabe a data, hora e local dos jogos. Também são conhecidos os principais pontos de concentração. Espero que os responsáveis pela segurança pública possam prevenir ao máximo os conflitos. E espero que os torcedores saiam para torcer, “não para matar e morrer”.
    Pelé, dizer o que? “vida longa ao Rei”.

  • Robert

    Andre, um off: sobre as finanças dos clubes cariocas, acho q a volta do engenhao será um fato novo no cenário do futebol do Rj. Os clubes terão uma ótima alternativa às taxas absurdas cobradas pelo consórcio maracanã, inclusive p/ realização de clássicos o engenhao é muito bom, como ficou provado nos anos q o maracanã esteve em obras p/ a copa. Este fato poderá ajudar a sanear as contas dos clubes cariocas, deixando o maraca para poucos e grandes jogos.

  • Eddie The Head

    Sobredose de cocaína? Devemos,então,supor que exista uma dosagem aceitável?

    AK: Talvez você já tenha ouvido falar em overdose.

    • Eddie The Head

      Se existe sobredose,qual a dose correta?

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