COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

TÉCNICO DO SIM

Levir Culpi. Se trocarmos os “i”s por “a”s, teremos “levar culpa”. É a sina dos técnicos, os primeiros na linha de comando e na linha de cobrança, as primeiras vítimas de ambientes em que o resultado tem mais valor do que o processo.

Johan Cruyff costuma dizer que existem técnicos de futebol e técnicos de títulos. É um conceito auto-explicativo que revela diferenças de visão de jogo e de mundo, distâncias entre os treinadores que experimentam e treinadores que exploram, métodos baseados na coragem e no receio. Para compreender o conceito, é necessário identificar a linha que separa vencer e jogar bem.

Em que grupo incluímos Levir? No grupo dos técnicos que nem sempre conseguiram, mas sempre tentaram, incutir em seus times a necessidade de jogar, aspecto anterior à importância de ganhar. O futebol é um jogo temperamental, indomável, que nem sempre contempla aqueles que investem na construção de uma equipe. Os técnicos que o fazem sorrindo, como Levir, estão mais expostos às intempéries do que os que os cuidam primeiro da própria sobrevivência.

Levir Culpi é um bem humorado em um mundo ranzinza, o que o converte em teimoso. Em seu livro, se proclama “burro com sorte”, característica dos que não se levam tão a sério e não supervalorizam o que não podem controlar. Suas entrevistas ao longo desta temporada conseguiram simplificar a rotina de comandar um clube grande no futebol brasileiro, por intermédio de declarações honestas e ausência de presunção. Aplauso obrigatório, apenas por isso.

Levir foi sincero até ao falar sobre o encontro que produziu o Atlético Mineiro campeão da Copa do Brasil. Em vez de subir no palanque e propagar variações táticas visionárias, ele confessou não saber explicar o casamento com os jogadores, a criação de um ambiente virtuoso e a aparição de um time exuberante. É evidente a responsabilidade de um técnico quando essa reunião acontece e dá frutos. Levir Culpi apenas não se enxerga como o autor de uma obra fantástica, inalcançável para os menos dotados. Mais aplausos, por favor.

Se o Atlético Mineiro não tivesse conquistado a Copa do Brasil, não deixaria de ser um time inovador no comportamento ofensivo, sua principal marca. Um time que agride o adversário com vários jogadores em constante troca de posição, e faz a bola circular com velocidade no campo contrário. Um time que corre riscos e não se furta a acionar sua reserva de confiança, alimentada a cada passo à frente, sejam quais forem as dificuldades. Não se vê o Atlético tratar um jogo de futebol como se fosse um filme desinteressante.

O mérito de Levir Culpi é não ter medo de levar a culpa, postura de quem trabalha como vive. Seus interlocutores dizem que ele menciona ideias diferentes quando fala sobre projetos profissionais. Quer ser treinador em países onde o futebol ainda precisa se desenvolver, ou comentarista em um canal de televisão. Fica a esperança de que não se mexa, aqui é onde mais faz falta.

HEGEMÔNICO

Assim como a política, o futebol é um campo fértil para declarações desavergonhadas. Marco Polo Del Nero concebeu mais uma durante a semana. “Não podemos mudar. O nosso futebol é o melhor do mundo. (…) Nós continuamos com a hegemonia do futebol no mundo”, disse o futuro presidente da CBF, em um evento da confederação no Rio de Janeiro. Não é necessário raciocinar muito para descobrir por que Del Nero pinta um quadro surrealista sobre o futebol brasileiro, ou por que insiste em manter as coisas como elas são e estão. O que espanta é a falta de contestação, esse ambiente que permite que o futebol brasileiro tenha donos. Quantos presidentes de clubes concordam com a visão de Del Nero? Quantos estão interessados em levar o futebol no Brasil ao patamar de organização que ele merece?



  • João

    “Em vez de subir no palanque e propagar variações táticas visionárias…”
    Foi uma crítica ao Tite? 🙂

    AK: ??? Não poderia estar mais longe disso.

  • André, a questão dos dirigentes é lamentável. Nada explica a eternização no poder, as eleições que não tem nada de democráticas, sempre de cartas marcadas, o verdadeiro corporativismo que vemos em nosso futebol. Como você disse, nenhum dirigente se insurge, todos aplaudem, todos contribuem para essa continuidade nociva. O caso Fluminense/Portuguesa do ano passado acabou em “pizza”. E continuamos na mesma. A Rebeldia que resultou no clube dos 13 em 1987 acabou em nada, girou, girou, e voltamos à estaca zero. Infelizmente, em termos de dirigentes de futebol (para citar o esporte que acompanho), seguimos na mesma linha da política brasileira. É corrupção disseminada no meio do povo, nas entranhas, de tal forma que fica difícil combater. Como vamos nos livrar da corrupção se grande parte do nosso povo apóia e faz questão do “jeitinho brasileiro”. Até na fila do banco dá-se um jeitinho, desrespeitando aqueles que aguardam a vez. Assim como na política, no futebol temos corrupção “de cima para baixo e de baixo para cima”. Mas vamos em frente, quem sabe um dia…

  • Eddie The Head

    Depois de ver a entrevista que Fred deu à Globo ontem,após o jogo contra o Corinthians,gostaria de saber o que ele pensa sobre a afirmação do presidente da CBF.

    • Julio

      Qual a relação?

  • Rafael

    Como se pode quebrar essa estrutura de poder de federações que ampara a CBF? Votos unitários resultam nisso ai. A federação do Amazonas tem o tem o mesmo numero de votos da de São Paulo e o voto do Madureira vale o mesmo que o do Flamengo.
    Talvez a tal liga de clubes seria um começo. Ja tentaram isso em 87 e não deu lá tao certo.

    • Rodrigo – CPQ

      Rafael, concordo contigo. O problema é que, se criada, muito provavelmente a liga daqui vai seguir os preceitos da Liga Espanhola, onde não há divisão igualitária dos direitos de TV. Não acho que um time tenha que receber mais que os outros porque tem mais jogos transmitidos. A diferença ele tem que cobrar de seu patrocinador de camisa, pela maior exposição na mídia. Cobrar da fornecedora de materiais esportivos, pois seu logo vai aparecer mais que os outros, e por aí vai.
      É utópico, eu sei, mas imagine uma liga nos mesmos moldes da Premier League! Claro que nunca chegaremos perto, pois apanhamos muito em (má) gestão. Mas seria lindo ver estádios como Majestoso, Ressacada e tantos outros lotados, com jogos de primeira ou segunda divisão.
      Bom, deixa eu voltar pra realidade…

      • José Henrique

        Rodrigo. Me parece que há um equivoco aí. Os patrocinadores de camisa, salvo melhor juizo, já compram esse espaço, pagando mais para os clubes com maior exposição.
        A questão que você ignora, é que, a Televisão, vende anúncios (e recebe muito bem por isso), e, esses anunciantes pagam “mais”, para que seus anúncios sejam exibidos nos melhores horários, e nos programas com mais audiência.
        Isso é o capitalismo, felizmente.
        Dessa forma, seria irracional que uma marca famosa, aceitasse pagar a TV, o mesmo valor pela exibição de seu produto, em um evento esportivo sem espectadores.
        Portanto, nada é mais justo, JUSTIÇA, do que a TV, repassar aos clubes com maior audiência a parte que lhes cabe por emprestar os seus artistas, e principalmente, por deter maior número de espectadores torcedores que prestigiam a transmissão.
        Portanto, antes de cobrar da fornecedora de material esportivo (coisa que eles já fazem, de acordo com seu poder de exposição), deveriam cobrar os seus torcedores para que assistam mais aos jogos de seu time.
        Infelizmente, quando um jogo de Libertadores, perde em audiência para um simples amistoso de um outro clube, ou para a reprise de um filme, acho que errado estão os profissionais de marketing dessas equipes, que não podem querer desfrutar de uma bolsa família social nos direitos de TV.

        • Rafael

          Claro que o time mais popular sempre vai ganhar mais. Mas não pode ser asfixiante para o resto.
          A liga, se for realmente uma liga, será admnistrada para promover os interesses da liga, entre eles, um certo equilíbrio para que o produto (liga) seja interessante,
          A premier League faz isso muito bem, assim como a NFL. A liga espanhola fazia muito mal. Razão pela qual aquele campeonato é chato. Mas já vai mudar também.mos clubes espanhóis vão mudar a divisão. Acho que a partir do ano que vem..
          Isso é capitalismo. NFL não é socialista né?

          • José Henrique

            Desde que os clubes para terem o equilíbrio, tenham os mesmos artistas com os mesmos salários.
            Um show com Trancoso x Trancado, não pode ser remunerado da mesma forma que um outro com Zezé Di Camargo e Luciano.
            E, você não vai conseguir achar argumentos para que um cliente da TV, concorde em ter o seu produto exposto pelo mesmo preço, nos dois shows.
            Não se esqueça que estamos tratando de “share”, e TV.
            E quem remunera os clubes, são os anunciantes da TV.
            Pretender que uma Nestlé, pague a publicidade de um jogo, Botafogo de Rib.Preto x Guarani, o mesmo valor de um Corinthians x Qualquer outro, é pura inveja. Nada mais do que isso.

            • Rodrigo – CPQ

              José Henrique e Rafael, se o nível de conversa de uma negociação de nova Liga (ou coisa do tipo) fosse esse, estaríamos bem. Por isso que gosto desse blog: jornalista qualificado, audiência qualificada.
              Com relação ao assunto em si: quando falo das cotas de TV, imagino que quem as compra está patrocinando o campeonato, o espetáculo. Quanto maior a igualdade de condições, melhor será o campeonato. Não se trata de socializar o futebol, muito longe disso. Mas a ideia central é fortalecer o torneio. Deixar os clubes menores com melhores condições de fazer bons times. Deixar o calendário mais decente. Não entendo, por exemplo, o por quê de não termos uma Libertadores e uma Sulamericana simultâneas, como ocorre na Europa. Acabaria a patifaria de time que se classificar na Copa do Brasil fica fora da Sulamericana. Enfim, como diz a música, “acho melhor começar tudo de novo do que acabar pela primeira vez”.

              Em tempo: sou Corinthiano e, na minha opinião, o Socialismo é um troço falido.

            • Rafael

              Concordo.
              E por isso mesmo, para assegurar que tenham jogadores de niveis compativeis e’ que a liga deve estabelecer criterios, inclusive tecnicos, para uma divisao de cotas mais niveladas.
              Abs!

              • José Henrique

                Concordo que a divisão das quotas de TV, poderia considerar além do “share” , critérios técnicos, como por exemplo classificação nos campeonatos.
                Porém, convenhamos, com o sistema atual, onde empresários “investidores”, detém carteira de jogadores, e estão mais ricos do que clubes, estes falindo literalmente, a prioridade a meu ver seria primeiro fortalecer economicamente os clubes.
                Clubes não estão falindo por culpa da TV, aliás não fosse ela, talvez já estivessem quebrados.
                Um absurdo é ver os negócios de transferências estar totalmente na mão de pessoas físicas, supermercados, e bancos, e os clubes onerados com obrigações trabalhistas, fiscais, ações indenizatórias absurdas, meras barrigas de aluguel, e os primeiros ficando com os lucros, sem riscos.
                Falarmos em equilíbrio, apenas criticando a TV, me parece um equívoco sem tamanho, diante dessas aberrações produzidas por essa lei de direitos econômicos que ai está a serviço de especuladores.

                • Rafael

                  De acordo.
                  Isso precisa ser mudado de alguma forma. Os clubes estão todos quebrados, Estou curioso pra ver como os “empresários” vai se adaptar às novas regras da FIFA.

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