COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

ATUALIZAÇÃO: Como você deve saber, muita coisa aconteceu desde a publicação do texto abaixo no jornal e, agora, no blog. Thiago Silva conversou com Dunga e Neymar, disse que foi mal interpretado “pela imprensa” e que sua consciência está tranquila.

Não foi a primeira vez que um jogador deu uma declaração que gerou manchetes, percebeu a repercussão e deu um passo atrás apelando a problemas de interpretação. É típico de quem se arrepende e prefere tentar desdizer o que disse ao invés de se desculpar. No domingo, as palavras de Thiago foram absolutamente claras quanto à mágoa por ter perdido a faixa de capitão sem uma conversa e sobre a sensação de terem lhe tomado algo que lhe pertencia. A volta atrás não fica bem para um ex-capitão da Seleção Brasileira.

Thiago disse ontem que “teve a humildade” de procurar Dunga e Neymar para esclarecer o assunto. Teve a iniciativa, portanto, de fazer exatamente aquilo que, um dia antes, afirmou que não cabia a ele. Parece mais um gesto de controle de danos do que propriamente de humildade, o que compromete sua posição de líder interna e externamente. Como se verá abaixo, a Copa do Mundo já havia oferecido motivos para questionar sua capacidade de liderança.

É sempre saudável quando uma declaração sincera surge neste mundo pasteurizado de posturas protocolares, inofensivas. Pelo mesmo motivo, é decepcionante quando a personalidade que sobrou no início da conversa, fraqueja na hora de sustentá-la.

Ao final, uma aproximação de Dunga teria resolvido a questão antes mesmo de seu nascimento. Antecipar situações dessa natureza faz parte do trabalho diário de qualquer administrador de pessoas, um aspecto essencial da rotina de um técnico. Só conversas honestas resolvem problemas e diferenças de visão, ainda que haja quem prefira o silêncio que esconde feridas, sem curá-las.

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FERIDA

Está aberta a primeira crise da nova administração da Seleção Brasileira. Três dias antes do último amistoso do ano, por causa da braçadeira de capitão. O problema que a precipitação do comando quase criou no episódio do corte de Maicon, em setembro, instalou-se agora com Thiago Silva, por mais uma demonstração de inabilidade da comissão técnica.

Com Maicon – que descumpriu regras internas, falha grave – bastava manter a discrição e não mais convocá-lo. O recado ao grupo seria o mesmo e todos os boatos maldosos gerados à época teriam sido evitados. Os danos foram mínimos porque o lateral veterano saiu calado e, por sua idade, não está incluído nos planos para o futuro. Thiago? Thiago pode chegar a mais uma Copa em alto nível e até outro dia tinha as palavras “melhor zagueiro do mundo” acopladas a seu nome. E o principal: o ex-capitão da Seleção tornou a situação pública, durante viagem à Europa.

Novamente, a questão não é a decisão tomada, mas como. A escolha do capitão de um time de futebol é prerrogativa do técnico, com base nas dinâmicas que observa e na hierarquia que pretende estabelecer. É por isso que as opções devem ficar claras para todos, principalmente para os envolvidos. Thiago Silva foi o capitão da Seleção Brasileira por três anos, incluindo uma Copa do Mundo em casa. Dunga não tem a menor obrigação de manter a faixa em seu braço, mas não há o que justifique fazer a mudança sem conversar com o zagueiro.

Dunga usou a braçadeira em duas Copas do Mundo, sabe exatamente o que o adereço significa. Mais: por seu conhecido perfil, sabemos como ele valoriza o papel de liderança que cabe ao capitão. Por essa ótica, as “falhas” de Thiago Silva durante o Mundial certamente incomodaram mais ao atual técnico da Seleção. Enquanto muitos observadores podem ter achado inapropriado o choro de Thiago antes da estreia, ou a recusa a bater e assistir aos pênaltis contra o Chile, Dunga enxergou tais atitudes como traições aos mandamentos da irmandade dos capitães.

Do ponto de vista estritamente técnico, Thiago Silva não fez uma Copa pior do que seu companheiro de zaga, David Luiz. Mas a imagem de um líder sentado na bola, de costas para a área em que o Brasil tentava evitar a eliminação precoce aparece mais rápido na busca. Ter ficado fora do jogo contra a Alemanha por um cartão amarelo tolo também não ajuda. É perfeitamente compreensível a preferência de Dunga por Neymar, cuja compostura sugere um jogador mais maduro e experiente do que a idade indica.

A exposição pública de um assunto de grupo agrava a posição do zagueiro do PSG no ambiente da Seleção. Thiago não nasceu ontem, sabe que não recuperará seu lugar no time ou a faixa de capitão pela via da reclamação externa. Ao contrário, o risco é perder ainda mais espaço. Mas sua reação poderia ter sido prevenida por Dunga com uma conversa rápida e explicativa.

Difícil entender por que a comissão técnica permitiu um problema como esse, no apagar do ano. A não ser que, assim como Maicon, Thiago Silva esteja descartado.

TRÊS TOQUES

FUTURO

Em esportes coletivos, quase tudo é uma questão de concorrência. Se a oferta na posição é pobre, até os maiores pecados podem ser perdoados.

FALTA POUCO

Xeque-mate no Campeonato Brasileiro. Balde de gelo na concorrência, gelo no chope da torcida do Cruzeiro. Demonstração de coragem e controle após a derrota no jogo de ida da Copa do Brasil e um primeiro tempo irreconhecível na Vila Belmiro. O desinteresse do Santos deve ser considerado, mas o líder não tem nada com isso. O bicampeonato passa a ser questão de dia e local.

RESGATE

O gol que preservou as chances de classificação do Corinthians à Copa Libertadores foi produto de um passe (de pé direito, o “ruim”) de Danilo e um cabeceio de Renato Augusto. No caso do primeiro, mais uma contribuição de técnica e visão. No caso do segundo, a celebração da sequência sem lesões. A reunião resgatou o time de um péssimo empate.



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