COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

ATRASADOS

Um dos sintomas do atraso do futebol no Brasil estava estampado na tela da televisão na noite de quarta-feira. Os dois principais eventos do esporte no país, concorrendo pela audiência, exatamente no mesmo horário. E com um agravante que não pode ser desprezado: o controle remoto teve de escolher entre um jogo que poderia ter impacto na corrida pelo título do Campeonato Brasileiro e, simplesmente, a primeira partida da final da Copa do Brasil.

Os poderes constituídos parecem não compreender os danos causados ao que chamam de “produto”, provavelmente porque a nomenclatura, usada em tom mercadológico esnobe, se sobrepõe ao conhecimento. Os interesses imediatos estão à frente do cultivo do valor de atrações que não podem ser conflitantes. É claro que não surpreende, pois, afinal, falamos de um ambiente em que a Seleção Brasileira é um problema com o qual os clubes precisam lidar, situação comprovada pelo alívio do torcedor quando lê a convocação e não vê o nome de um jogador de seu time.

A concorrência entre Atlético Mineiro x Cruzeiro e São Paulo x Internacional se deu também no plano da repercussão de falhas da arbitragem em lances determinantes em ambos os jogos. O encontro no Horto “venceu”: Luan estava impedido no primeiro gol e houve um pênalti de Jemerson no segundo tempo. No Morumbi, o gol de Paulão para o Inter foi marcado em flagrante posição irregular. Mais do mesmo.

Resista à tentação de analisar as discrepâncias entre as jogadas, ou o peso que um gol irregular tem em um confronto de ida e volta que vale taça. Se o que se busca é a lisura do placar, qual é a diferença entre um impedimento de dez centímetros ou um metro? Há uma questão mais importante que precisa ser discutida urgentemente (e aqui o problema não é exclusivo do futebol brasileiro, claro): pede-se aos árbitros e assistentes que tomem decisões para as quais seres humanos não estão capacitados. O auxílio da tecnologia à arbitragem é a única – repetindo: única – forma de garantir que o resultado de uma partida refletirá o que aconteceu em campo. Os três lances ocorridos na quarta-feira foram imediatamente detectados pelas imagens da televisão. As marcações poderiam ter sido corrigidas de forma a proteger os jogos.

Sérgio Corrêa da Silva, presidente da Comissão de Arbitragem da CBF, é um enamorado confesso do erro humano no futebol. O presidente da UEFA, Michel Platini, também é. Eles devem ter arrancado cabelos quando um clássico recente do Campeonato Inglês teve um gol validado – corretamente, é óbvio – pela tecnologia e ninguém foi para casa reclamando. Seja por sobrevivência ou interesses, o avanço provoca calafrios em almas presas ao atraso.

Árbitros de futebol, até os mais competentes e íntegros, não são super-homens. Lances de gol devem ser revisados por vídeo. Técnicos devem ter direito a desafiar marcações do trio de arbitragem. Com a aplicação dessas medidas, os dois jogos da noite de quarta-feira teriam gerado apenas conversas sobre futebol.

LIMPEZA

A FIFA divulgou um relatório sobre a investigação da escolha da Rússia e do Catar como sedes das duas próximas Copas do Mundo. De acordo com o documento, não foram encontradas provas de suborno ou pactos para votos no processo, o que enterra a possibilidade de uma nova eleição. Mas o autor da investigação, Michael Garcia, declarou que o relatório divulgado contém “numerosas representações errôneas dos fatos e conclusões”. Garcia disse que pretende recorrer ao Comitê de Ética da FIFA, o equivalente a um ambulatório em uma casa funerária. Não se deve subestimar a capacidade da FIFA de rir de quem a leva a sério.

ROMÂNTICO

O “noticiário” sobre a vida amorosa do presidente da CBF comprova que enquanto houver gente disposta a se expor de maneira constrangedora, haverá espaço para esse tipo de exposição. E vice-versa. Ambos os lados deveriam ser mais cuidadosos.



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