COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!, obviamente antes do último impasse entre os dirigentes, que voltaram a considerar o absurdo da torcida única)

IR E VER

Faz uma década que um dos maiores jogos de futebol do mundo foi vetado para os torcedores do time visitante. Políticos, autoridades e dirigentes argentinos confessaram-se incompetentes para organizar o principal evento esportivo do país em 2004, quando Boca Juniors e River Plate se encontraram nas semifinais da Copa Libertadores da América. Em nome da segurança que são incapazes de oferecer, os responsáveis decidiram eliminar uma parte do espetáculo.

Naquele ano, nenhum torcedor do Boca Juniors pôde ver o gol de Tevez ou a defesa de Abbondanzieri nas cobranças de pênaltis no Monumental de Nuñez. E se viu, estava infiltrado entre “inimigos” e não pôde celebrar, o que obviamente corrompe a experiência de torcer. Não fosse a televisão, a comemoração que gerou a expulsão de Tevez por imitar o bater de asas de uma galinha (em alusão pejorativa à torcida do River) seria uma lenda alimentada por fotografias e pelas versões, nem sempre coincidentes, de quem estava no estádio.

Buenos Aires voltará a ver dois superclássicos nos próximos dias 20 e 27, pelas semifinais da Copa Sul-Americana, e a única afirmação que se pode fazer de antemão é que os jogos terão apenas público local. Não se pense, porém, que serão noites sonolentas para as forças de segurança. Efetivos de mais de dois mil policiais têm sido frequentes nos encontros entre Boca e River nos últimos anos, mostra do aparato que se tem de montar para garantir que tudo corra bem mesmo sem a presença de torcedores visitantes.

É animador saber que as finais da Copa do Brasil não seguirão o (mau) exemplo do futebol argentino, e, ao contrário do que temos acompanhado recentemente nos clássicos entre Cruzeiro e Atlético Mineiro, torcedores de ambos os times poderão ir ao Independência e ao Mineirão. Mesmo que a decisão tenha sido tomada em um ambiente de pouco entendimento entre os dirigentes dos clubes de Belo Horizonte, muito pior teria sido permitir que partidas históricas – provavelmente as maiores entre esses rivais, em todos os tempos – fossem realizadas com restrição de público. O futebol é um jogo entre dois times que só existem por causa das pessoas que os sustentam.

Acostumamo-nos no Brasil a clássicos disputados em estádios neutros e cargas de ingressos divididas. Uma configuração “democrática”, que já nos proporcionou ambientes espetaculares, mas que não se aplica a situações como a que discutimos aqui: jogos de ida e volta em estádios diferentes. É preciso respeitar os interesses esportivos e econômicos que fazem com que um clube queira jogar em sua casa, mesmo que isso signifique que menos pessoas terão acesso ao evento. É assim em todos os lugares onde o futebol é importante. O que não se pode aceitar é torcida única, um passo perigoso na direção do impensável: o futebol sem público.

É ótimo que atleticanos e cruzeirenses possam acompanhar seus times nos estádios rivais, um direito que torcedores do Boca Juniors e do River Plate perderam há dez anos.

ENTENDAM-SE

A fundação de uma liga de clubes é urgente não apenas para tirar o futebol brasileiro das mãos anacrônicas da CBF ou organizar o calendário com um mínimo de razoabilidade. É necessário que dirigentes de clubes façam parte de um organismo que exija de todos a mesma conduta. Só esse tipo de estrutura seria capaz de governar desavenças, desde picuinhas infantis a questões sérias como o acesso do público a decisões como a da Copa do Brasil. A partir disso, talvez um dia cartolas brasileiros percebam que estão do mesmo lado da mesa, até quando se enfrentam por um título.

PEQUENO SUSPENSE

Até os treze minutos do segundo tempo no Mineirão, a possibilidade de que o Campeonato Brasileiro tivesse um novo líder No próximo fim de semana era real. Mas não se poderia imaginar uma derrota do Cruzeiro, em casa, para o Criciúma. Olho nas próximas duas rodadas.



  • Com certeza a “torcida única” é uma medida que tira o brilho do espetáculo. Garantir a segurança é uma obrigação de autoridades e dirigentes. Mas não apenas deles. O torcedor é o principal motivo do espetáculo, e também o maior responsável pela segurança. Se vai lá para torcer, ótimo. Os que vão para tumultuar, brigar, esses deveriam ficar em casa. Mesmo sendo minoria, são como uma laranja podre capaz de contaminar muitos outros. E no calor dos jogos, acaba ficando sério. A responsabilidade é de todos, dirigentes, autoridades, e de cada pessoa que comparece ao estádio. No mais, esperamos grandes jogos nesta final, o Atlético vem mostrando uma vontade e superação incríveis, enquanto o Cruzeiro, meio cansado, continua sendo um ótimo time.

    • RENATO77

      Perfeito xará.
      Entendo que adotar jogos de “torcida única” não represente a “incapacidade dos organizadores em oferecer segurança”, mas a falência da nossa sociedade no que diz respeito à tolerância em relação as diferenças de ideias e preferências distintas uma das outras.
      Como vc bem disse: “o torcedor é também o maior responsável pela segurança.” Não há como deter milhares de pessoas querendo agredir umas á outras.
      O que vimos durante o recente embate eleitoral nas redes sociais e nas ruas foi uma boa amostra dessa intolerância.
      É questionável também o tanto que esses eventos acabam por ocupar o efetivo da policia militar, que tem outras tantas obrigações além de evitar que torcedores delinquentes matem uns aos outros.
      Eu deixaria essa questão unicamente nas mãos da polícia militar, se eles entendem que jogo com uma torcida só dá menos trabalho, que assim seja.
      Abraço.

      • José Henrique

        Concordo. Os saudosistas precisam entender que os tempos hoje são outras. Estão acontecendo coisas na nossa sociedade, absolutamente inimagináveis tempos atrás.
        Eu frequentei estádios, com amigos, cada um com sua camisa, no Pacaembu.
        Também gostaria, mas ver um jogo com 1.500 policiais impotentes para conter uma “turba”, é absurdamente irracional.
        Sem contar que, o policiamento (que teve os custos triplicados) é sustentado pelos clubes mandantes, sem contar as depredações ao patrimônio.
        Eu também gostaria de voltar a “essência”, mas infelizmente André, não dá.
        Sem contar que, brigas em estádios, implicam em perda de mando e receitas, para o mandante.
        Aliás, essa punição “burra”, precisa ser revista, pois é inócua, e ninguém se dá conta, ou se omite.

  • Douglas Sena Simões

    André, respeito sua opinião, mas discordo muito dela. Sou cruzeirense e como todos sempre achei que a melhor decisão seria os jogos no Mineirão com torcida dividida. 10% no Mineirão para a torcida do Atlético é completamente diferente do que 10% pra torcida do Cruzeiro no Horto. Te explico o motivo. No Mineirão a PM da toda a proteção para a torcida atletica, deixando a mesma ficar fora do estádio. No Mineirão eles podem ficar nos arredores do estádio com toda a proteção da PM, lá podem fazer churrasco e toda a festa que quiserem, já no Independência, a torcida do Cruzeiro é obrigada a chegar junta ao estádio e não se pode ficar fora do estádio. Nos é cerceada a liberdade por questões de segurança. Enfim, o tratamento que a torcida do Cruzeiro recebe no Horto é tosco, enquanto os atleticanos são tratados pela PM a pão de ló no entorno.

    Sem contar O Estatuto do Torcedor EXIGE 48h no MÍNIMO para a venda de ingressos. Estamos a 34h do clássico e NADA ainda.

    O Cruzeiro não deve aceitar essas condições. A torcida do Cruzeiro quer torcida única e a culpa é do boçal do Kalil.

    AK: É lamentável que você se alimente da rivalidade para construir um argumento a favor da torcida única. A “diferença de tratamento” dever ser um motivo para que essa questão seja revista e melhorada, mas jamais para sustentar a antítese do futebol e a consagração da preguiça e da incompetência.

  • Ricardo Trevisan

    Estou com o mestre Tostão, “um grande clássico ter apenas uma torcida é um atestado de falência da sociedade, aterrorizada com tanta violência, e dos governos, incapazes de combater a violência urbana, no futebol e fora dele.”

  • Eddie The Head

    Nobre,mesmo sendo off topic gostaria de saber sua opinião sobre o assunto.

    http://www.lancenet.com.br/futebol/MP-Portuguesa-escalou-Heverton-dinheiro_0_1246675577.html

    Você acha que pode ser verdade?

    Eu sempre achei que sim.

    • Marcio

      Eu nunca acreditei em acidente. Por isso até que não concordava com a tese de o que vale e’ o resultado “do campo”. Até estatisticamente, e’ muito improvavel que 2 clubes cometam o mesmo erro na mesma rodada ( e isso não quer dizer que um esteja ligado ao outro).
      Sou Tricolor e quero que isso tudo seja muito bem esclarecido. E se o meu time for o culpado que rume a serie D pra cumprir sua penitencia. Agora, se não for, que a verdade apareça… Todos são inocentes até prova em contrario. Vamos esperar a investigação e torcer pra que seja honesta.
      A Portuguesa já está cumprindo sua pena.
      Falta condenar o outro.

      • Eddie The Head

        Nobre Márcio,sempre achei muito óbvio que a coisa toda foi orquestrada. Nenhum clube,por mais extremamente incompetente que seja,vai mandar para o jogo um jogador que está suspenso. Existe um departamento de futebol que cuida disso,tem a comissão técnica,e o próprio jogador sabe quantos cartões tem. Evidente que por o Fluminense ter sido o maior beneficiado de tudo o que aconteceu supõe-se que esteja envolvido. Mas isso é mais uma daquelas coisas que acabam em pizza no Brasil,e muito provavelmente mais ninguém será punido. O que eu daria um dedo para saber é quem foi que pagou e quem recebeu.

        • Marcio

          Amigo Eddie,
          Eu daria uma mão inteira. Entendo as suposições. Não acho que há santinho em se falando de dirigentes Brasileiros. Acho que todos ele poderiam fazer qualquer tipo de falcatrua, dependendo da oportunidade e necessidade.
          Acho que o Fluminense está limpo nesses casos por algumas razões: comprar a Portuguesa não seria suficiente. O Fluminense precisaria de uma combinação de resultados. Se o Vasco ganhasse, por exemplo, o Flu teria caido com Lusa. O Presidente do Fluminese é um banana. Não vejo aquele homem com culhão pra fazer uma operação desse tipo. A Unimed está desde aquele época sem capital de giro por algumas questões internas e nao teria essa grana que estao falando.

          Mas quem sabe? Somos um dos suspeitos. Junto com Flamengo, Vasco, Coritiba, Adidas, Globo, FERJ.

          Mas o que esperar? Ate o promotor Senise esteve enrolado com denuncias de receber propina pra arquivar processos… Esperemos que a verdade apareça!!
          Abracos!!

  • José Henrique

    E neste campeonato brasileiro, onde a interferência técnica é visível, além de torcida única, estamos assistindo a um festival de venda de mando de campo, favorecendo equipes em disputa de vagas e pontos importantes.
    Simplesmente indecoroso. A venda de mando de jogos, prejudica outras equipes interessadas.
    André/ Não mereceria um post esse assunto?

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