COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

COPA DE MINAS

Há uma diferença fundamental entre ter esperança e ter fé. A esperança aceita a existência da dúvida; a fé, não. Para quem tem fé, acreditar não é torcer. É saber. Dizem que a fé é como a eletricidade. Você não pode vê-la, mas pode ver a luz. E se pode ver a luz, não precisa entender como a lâmpada acendeu. O processo deixa de ter importância diante do resultado que confirma aquilo em que se acredita. Aquilo que se sabe que acontecerá.

O Atlético Mineiro e os atleticanos nos ensinam a crer. O “eu acredito” é mais do que uma demonstração de confiança, é uma comprovação do mistério da fé. Não há conotação religiosa aqui, pelo menos não no sentido eclesiástico, ainda que seja comum as pessoas conferirem à relação com o time de futebol que escolheram um caráter espiritual, em que forças superiores estão em ação.

Quando essas pessoas testemunham eventos como as viradas que eliminaram Corinthians e Flamengo, elas não têm escolha a não ser se sentir parte de algo que está acima de todos nós. Contra o Corinthians, o gol que convenceu o Mineirão foi o terceiro, de Guilherme. Contra o Flamengo, a taxa de conversão era tão alta que o empate, autoria de Carlos, foi a gênese do efeito dominó. Ninguém se surpreendeu quando Maicosuel virou o jogo, e o que veio depois pareceu obedecer a uma ordem pré-estabelecida.

Também há uma diferença fundamental entre times que querem ser e times que são. É mais do que a questão proposta por Shakespeare, pois não se trata de um pensamento sobre o desconhecido, mas da distância que separa os campeões dos sonhadores. Times que querem ser muitas vezes parecem ter encontrado o caminho da consagração. Times que são o constroem.

O Cruzeiro é, e será, enquanto houver tempo para um gol decisivo, até que o último apito soe e determine a troca de guarda. A hierarquia do futebol determina que times como o Cruzeiro não podem ser descartados antes de estar enterrados e relegados ao passado. Enquanto o Cruzeiro estiver em campo e lutando, uma das leis não escritas do esporte deve ser respeitada: jamais subestime o coração de um campeão.

O segundo gol cruzeirense contra o Santos, na noite de quarta-feira, é um exemplo da diferença entre os campeões e os pretendentes. Não houve perdão para a bola que espirrou na defesa santista e se apresentou a Willian. Um gol que não poderia ser desperdiçado foi executado com a frieza de um legista. Três conferidas na posição de Aranha calibraram a conclusão calculista, no exiguo alvo entre o goleiro e a trave.

O Cruzeiro talvez seja o time mais extenuado do país. A maneira como vence demanda enorme despesa de energia. Mas a personalidade competitiva é notável, como se viu na Vila Belmiro. Perdendo por 3 x 1, fora de casa, o cenário estava pronto para uma despedida honrosa da Copa do Brasil. Seria até providencial para concentrar esforços na proteção da vantagem que pode valer o segundo título seguido no Campeonato Brasileiro. Mas os campeões de verdade não negociam oportunidades.

O time que duvida do impossível e o campeão que se recusa a ir embora, a caminho da mãe de todas as finais. Não poderia ser melhor.

TEMPLO

É fabuloso o currículo do novo Mineirão, estádio que recebeu Brasil x Chile, o “1 x 7” e os dois raios que o Atlético Mineiro providenciou na Copa do Brasil. O histórico provavelmente teria mais duas noites épicas se ambos os jogos finais acontecessem lá, mas o drama e a emoção na partida de volta estão assegurados.

CANSAÇO

Não se deveria esperar que os times chegassem ao final da temporada no esplendor físico, especialmente aqueles que disputam duas competições. Mas o número de lesões musculares que temos visto na reta decisiva revela um nível de desgaste que não é normal, algo que o planejamento do calendário deveria contemplar. É estranho que os responsáveis pela programação de competições do futebol brasileiro não percebam que o desempenho das equipes é seriamente afetado. Ou, se percebem, que nada façam a respeito.



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