COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

VENTILADOR

Uma reportagem publicada na edição de ontem do jornal New York Daily News reverbera no submundo do esporte, em diferentes modalidades e fusos-horários. O americano Chuck Blazer, ex-manda-chuva da CONCACAF e ex-membro do Comitê Executivo da FIFA, trabalha desde 2011 como informante de uma investigação do FBI, a polícia federal dos Estados Unidos. Dirigentes esportivos que estiveram com Blazer durante os Jogos Olímpicos de 2012, em Londres, devem ter sentido a espinha congelar ao saber, agora, que as conversas foram registradas por um gravador disfarçado de chaveiro, que Blazer usou a mando dos agentes federais.

Chuck Blazer é um desses personagens que nos convencem que a arte imita a vida. Durante quinze anos como secretário-geral de Jack Warner, ex-presidente da CONCACAF, ele levou uma vida de extravagâncias bancada pela entidade, seja com dinheiro desviado em comissões por contratos de televisão e marketing, seja com “verbas de representação” usadas para despesas pessoais que não conheciam limites. De acordo com a reportagem do diário nova-iorquino, as faturas de um cartão de crédito usado por Blazer totalizaram 29 milhões de dólares em um período de sete anos. Parte do montante foi reembolsada pela CONCACAF. A confederação que controla o futebol na América Central e no Caribe também pagava o aluguel de 18 mil dólares mensais do apartamento em que Blazer morava, localizado na Quinta Avenida em Nova Iorque, anexo a um flat de 6 mil dólares por mês onde viviam seus gatos.

Morbidamente obeso, Blazer transitava por Manhattan guiando um desses carrinhos para pessoas desabilitadas. O Daily News conta que foi em um desses passeios que, ao entrar em um restaurante sofisticado em uma noite de novembro de 2011, ele foi abordado por agentes do FBI armados de documentos que comprovavam sonegação fiscal por mais de dez anos. Entre ir para a prisão ou colaborar com as autoridades, ele concordou em trabalhar como testemunha e delator em casos contra peixes maiores no ecossistema do futebol mundial, o que obviamente envolve a FIFA. Segundo a reportagem, Blazer entregou aos agentes uma lista com os nomes de quarenta e quatro dirigentes esportivos que o FBI deveria investigar, incluindo o cartola dos cartolas, Joseph Blatter.

O jogo da traição em nome da sobrevivência não é estranho para Chuck Blazer. Foi durante o escândalo de suborno que retirou o catarino Mohammed bin Hammam do mapa, em 2011, que a associação entre Blazer e Warner terminou. Com envelopes contendo 40 mil dólares, o ex-presidente da CONCACAF tentou comprar os votos de dirigentes caribenhos – para bin Hammam, então adversário de Blatter – na eleição para a presidência da FIFA. Um dos cartolas agraciados botou a boca no trombone. Blazer percebeu o ventilador ligado e denunciou seu chefe à FIFA, o que levou à desgraça de Warner e ao banimento de bin Hammam.

Aos 69 anos, pesando 204 quilos e em tratamento para um câncer de cólon, Chuck Blazer coleta provas para o FBI. Corruptos do futebol mundial não devem ter passado um fim de semana divertido.

PAPO

A reportagem do New York Daily News informa que Chuck Blazer convidou dirigentes de diversos países para reuniões em um hotel cinco estrelas em Londres, pago pelo FBI. Mas não revela com quem ele se encontrou durante os Jogos de 2012. Essa é uma das perguntas sobre a investigação.

GUIA

A vida de milionário glutão de Blazer é um exemplo de como é fácil enriquecer no comando de entidades esportivas, especialmente no futebol, que movimenta as cifras mais superlativas. Blazer e Warner – assim como os brasileiros João Havelange e Ricardo Teixeira – renunciaram a seus postos no Comitê Executivo da FIFA para evitar que fossem expulsos, o que nada altera em termos de reputação. Em seu perfil no site da FIFA, o americano revela idolatria por um ex-dirigente que conhecemos bem: “um símbolo majestoso de elegância em nosso esporte, Dr. João Havelange”.



  • Cleibsom Carlos

    Já que você está falando de corrupção mundial no futebol quero me ater à corrupção futebolística nesse Brasilzão velho de guerra: está correndo por aí uma entrevista com o atual presidente da Lusa em que ele admite que a escalação do Héverton foi proposital para benefício de terceiros, inclusive está correndo em sigilo lá pelos lados do Canindé um processo administrativo para que o ex-presidente da Portuguesa, sr. Manuel de Lupa, seja BANIDO do clube. O cara não quis entrar em detalhes por medo de processos mas o grosso ela já falou! E agora? Como ficam aqueles jornalistas que defenderam a lusinha ardentemente, ou seja, 99% da classe? Será que se desculparão ou irão ignorar não apenas as evidências mas também os fatos? O que me impressiona é o silêncio que paira sobre o assunto e me parece que muitos dos peixes grandes do futebol brasileiro, ou quase todos, querem que a verdade não apareça…

  • Rafael Travassos

    André,

    Muito legal essa sua coluna, acho que é a mais bombástica que já vi por aqui, e olha que já te acompanho há um bom tempo. Li a reportagem no Daily News para me informar um pouco mais.
    Alguns questionamentos:
    – A “grande mídia” não soltou uma nota em relação à notícia. Nem em site. Pesquisando rapidamente, somente o Terra noticiou algo a respeito. Por que será?
    – Os números apresentados são absurdos, surreais. Qual o lastro de toda essa grana? De onde vem? Pra onde vai?
    – Esses caras não têm limites? São números astronômicos e não se contentam nunca? Por que tanto dinheiro (tanto tanto tanto)? É uma patologia?
    Parabéns e estou ansioso para ler sobre o desfecho desse assunto.

    Rafael

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