COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

O PIOR DO FUTEBOL

Na sexta-feira, antevéspera do segundo turno das eleições, o prédio da Editora Abril em São Paulo experimentou um dia comum na vida das sedes de clubes de futebol brasileiros. Vandalismo, depredação e pixações foram os meios pelos quais “idealistas” expressaram descontentamento com a revista Veja, editada pela Abril. Qualquer semelhança com “Por amor ou por terror”, “acobou a paz” (sic) ou “diretoria safada” não é mera coincidência.

A campanha política de 2014 converteu-se em um jogo entre times rivais no qual se privilegiou o que há de pior no futebol. O que chamamos de sociedade revelou-se incapaz de valorizar a importância do processo democrático, revestindo-o de intolerância e ódio, tal qual nos acostumamos a ver não só entre torcidas organizadas, mas também entre gente que se tem como cidadãos esclarecidos e bem educados.

O nível rasteiro dos debates na televisão, nos quais a candidata e o candidato (eles não têm nome?) se especializaram em argumentar com versões de “o seu escândalo é mais cabeludo do que o meu”, remete às discussões entre dirigentes adversários que vez por outra acontecem e estimulam os confrontos dos bandos que matam e morrem por seus clubes. Exemplos da mais pura incapacidade de dialogar.

O jogo político também tem seus “bambis” e “gambás”, as turmas que não podem se encontrar e enxergam o “outro lado” como representante de tudo o que existe de errado. Uma generalização tacanha de parte a parte que transforma todos os eleitores de Dilma Rousseff em socialistas que gostariam de viver em Cuba; e todos os simpatizantes de Aécio Neves em defensores do retorno dos militares. Os analfabetos e os acadêmicos, os pobres engajados e os ricos alienados, “nós” e “eles”. Seria menos preocupante se fosse apenas preconceito.

Os rótulos colados no adversário somam-se a um nível de auto-engano que beira a alucinação. Pois o petista – até aquele que gostaria de ver uma república chavista no Brasil – se enxerga como um libertador da opressão das elites, enquanto o tucano – até aquele que votaria nos Bolsonaros – crê ser um catedrático em administração pública. É óbvio que há cabeças elevadas dos dois lados da arquibancada, mas elas foram sufocadas pelos bagrecéfalos que vão ao estádio para brigar.

Há uma impressão positiva de que nunca se falou tanto em política no Brasil, quando, de fato, o que se fez foi atacar e desqualificar quem pensa diferente. Se é um efeito colateral de uma democracia que ainda engatinha, é o caso de perguntar se existe chance para infância, adolescência e amadurecimento. O pós-eleição começa hoje e será caracterizado por um ambiente semelhante, estimulado pelo comportamento raivoso de quem não está no poder. Seria rigorosamente igual se os grupos estivessem em posições invertidas.

Houve um vencedor no jogo, mas o país perdeu as eleições. (em tempo: este colunista não votou nem em Dilma e nem em Aécio, por crer que nenhum deles merece ser depositário de confiança ou esperança.)

BEST SELLER

Algúem está escrevendo um livro sobre a temporada do Botafogo? Existe material para mais de um. A decência dos jogadores em meio à barbárie gerencial é o pano de fundo para uma história comovente. Tensão, intriga, vilões e heróis bem definididos. Claro que se o time escapar da Série B o final será mais agradável. Mas com ou sem rebaixamento, não se pode escapar da verdade. Tomara que a ideia esteja em curso, e que a trajetória de um grupo que teve a própria diretoria como oponente seja documentada.

BOLA INTELIGENTE

O chute de Danilo que empatou o clássico paulista não só sairia pela linha de fundo se não desviasse em Juninho, como encontrou a única fresta por onde passar, entre Fernando Prass e a trave. Algumas bolas têm olhos. Outras têm olhos, GPS embutido e sensores de obstáculos. É loucura responsabilizar Prass pelo gol.



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