COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

SURPRESA

“O contragolpe é como o amor, se encontra. Não é possível planejá-lo. Planejar o contragolpe é uma bobagem, porque o contragolpe aparece, surge, não se prevê”.

O conceito é um presente de César Luis Menotti, dono de um cérebro privilegiado a quem o futebol bem jogado deve esta e muitas outras reuniões de palavras. O pensamento acima nos ajuda a compreender um dos mistérios do Campeonato Brasileiro de 2014: o time que é capaz de vencer o líder e, três dias depois, perder para o lanterna.

Além da vitória sobre o Cruzeiro e da derrota para o Botafogo, outros dados exemplificam a campanha bipolar do Corinthians. O desempenho contra rivais tradicionais e adversários que habitam a mesma região da tabela é indicativo de uma equipe que não se incomoda com os chamados “jogos grandes”. Mas o inventário de encontros com os piores times da tabela é constrangedor: nenhuma vitória em oito jogos contra Botafogo, Criciúma, Bahia, Coritiba, Vitória e Atlético Paranaense.

A subjetividade de argumentos como o da motivação distinta para enfrentar seus semelhantes não explica o que o Corinthians deixa de fazer contra equipes menores e piores. Difícil crer que um time que tem objetivos e vive sob pressão escolha jogos para se empenhar em um campeonato em que todas as rodadas têm o mesmo valor. Seria, antes de qualquer outra consideração, um sinal de falta de inteligência.

É mais provável encontrar a resposta ao procurar os tipos de jogo com que o Corinthians se depara em cada situação. A dificuldade para iniciar, desenvolver e concluir movimentos ofensivos é evidente contra equipes que recuam para proteger a própria área. Assim como o apetite para aproveitar espaços e erros de adversários que correm riscos ao atacar. Nada no futebol acontece por um motivo apenas, mas parece claro que o Corinthians assumiu o caráter contragolpeador em que se sente mais confortável e se mostra mais competitivo. Talvez não tenha sido uma escolha, mas uma contingência. Em qualquer caso, o preço a pagar é o mesmo.

Times que “optam” pelo contra-ataque dependem de que o contrário lhes ofereça campo. Quando a oferta não é feita espontaneamente, a única maneira de encontrar o espaço é obrigar o oponente a alterar sua postura. E a única forma de fazer isso é marcar um gol. O dilema do Corinthians está justamente aí: como fazer o gol que deixará o jogo à sua feição. É indiscutível o problema de confiabilidade do time nesta questão, intimamente ligada aos pontos deixados em campo em jogos que deveria vencer.

O mais curioso é que há um mistério dentro do mistério. O clássico contra o São Paulo, no mês passado, não é consistente com os padrões de atuação do Corinthians no campeonato. O time igualou o marcador duas vezes, fazendo-se protagonista até mesmo quando o rival recuou em vantagem. E venceu com um lance construído contra uma defesa posicionada. Acaso ou semente?

Voltando a Menotti: “Em qualquer jogo, é fundamental a surpresa, o engano. E o contragolpe é isso: surpresa. Um time apenas contragolpeador não existe”.

TEM CAMPEONATO?

A manchete da rodada não é apenas a goleada que o Flamengo aplicou no líder do BR-14. Pela primeira vez no campeonato, o Cruzeiro deixou de vencer o jogo seguinte a uma derrota. A recuperação imediata após resultados ruins era uma das marcas da campanha do atual campeão. Agora, com o Internacional a seis pontos (e o São Paulo a sete) e uma visita ao Vitória no próximo fim de semana, veremos como o Cruzeiro lida com o tipo de situação contra a qual parecia ter imunidade. Tanto Inter (Corinthians) quanto São Paulo (Bahia) jogarão em casa na jornada 29.

SORRISO FÁCIL

O Brasil venceu a Argentina, que tinha goleado a Alemanha no início de setembro. Foi o suficiente para o pachequismo enterrar o 1 x 7 e declarar a recuperação do prestígio da Seleção Brasileira. Por um lado, é confortante perceber como há quem se contente com tão pouco.



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