COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

100 DIAS…

… Entre o inferno e as nuvens. Que Amyr Klink nos perdoe pela adaptação do título do formidável livro que relata sua travessia do Atlântico em um barco a remo. Porque estamos falando de outra viagem. Uma viagem em que não há heroísmo ou mesmo coragem: a trajetória da Seleção Brasileira de futebol, de Belo Horizonte a Pequim. Do Mineirão ao Ninho de Pássaro. Do purgatório imposto pelos alemães ao oxigênio contaminado imposto pelos chineses.

E os argentinos? Bem, obviamente este texto foi escrito antes do jogo deste sábado, portanto não há aqui uma tentativa de prever o futuro. E com o máximo respeito ao que disseram os jogadores brasileiros nos últimos dias, qual é a diferença entre vencer, empatar – e ganhar ou perder nos pênaltis – ou perder o “Superclássico das Américas”? Dependendo do seu regime de despertar aos sábados, que pelo menos o Brasil tenha jogado bem. Ou esteja jogando bem. Ou jogue bem.

Convenhamos, a chance não é generosa. Além das dificuldades de sempre (poucos treinos, pouco entrosamento, etc…), eis que esta edição chinesa do “Superclássico” oferece outros perigos ao bom futebol. O fuso-horário é cruel, a qualidade do ar é imprópria até para baratas, o gramado é grosseiro e o caráter competitivo do encontro só permite três substituições. Condições que elevam o “resultadismo” à máxima potência e evocam as raízes mais profundas do “futebol moderno”, seja lá o que isso for.

É uma das expressões prediletas de Dunga, repetida ontem em sua entrevista coletiva pré-jogo. Seria menos preocupante se fosse apenas um problema de vocabulário, mas, como sabemos, é muito mais grave. É uma maneira de ver o futebol que não detecta o vasto território entre vitória e derrota e confunde o que as pessoas que gostam do jogo querem ver. “Se eu quisesse agradar a vocês, diria que vou pra cima”, disse o técnico, na mesma entrevista. Quantos enganos em uma frase curta.

Dunga faz parte de um coletivo de treinadores que criou a meia-verdade de que a Copa do Mundo não apresentou nada de novo. A porção verídica do conceito não exige visão tática além do alcance: realmente não presenciamos uma revolução. Mas os 50% mentirosos pretendem convencê-lo de que os times mais elogiados apenas fizeram bem aquilo que é configuração padrão. Como se a Alemanha não tivesse se notabilizado por um jogo de posse, passe e movimentação constante. A receita não é nova, mas é resultado de uma escolha que poucos fizeram.

Insistir na inexistência dessa escolha é o expediente dos que não querem ser cobrados pelas próprias. Porque é fácil se explicar por intermédio do deserto de ideias que se apoderou do “futebol moderno”. Se faço o que todo mundo faz, não posso estar errado. O insucesso se deverá à falta de sorte, aos mistérios do futebol, ou, na pior das hipóteses, ao “apagão”. Enquanto isso, investiremos nas jogadas de bola parada e na noção de que “não estamos aqui para dar espetáculo ou show, mas para vencer”, como avisou Neymar.

ANIVERSÁRIO

Antes que você aponte o equívoco nas contas: os cem dias do epitáfio do Mineirão só se completarão no dia 16. E, sim, ainda haverá um amistoso contra o Japão – terça-feira, em Cingapura – antes disso. Mas a transcendência de um Brasil x Argentina justifica a antecipação da data comemorativa relativa à pior derrota da história do futebol no Brasil. Uma gigantesca oportunidade perdida para tratar do que somos e do que queremos ser. Quem toma decisões está satisfeito.

FÓRMULA

Além do próprio desempenho, o Cruzeiro caminha para o bicampeonato brasileiro também porque nenhum concorrente se estabeleceu. As ameaças, se é que podemos chamá-las assim, surgiram em um rodízio de perseguidores que não sustentaram o ritmo. O Cruzeiro pode ser dar ao luxo de sofrer derrotas esporádicas, característica dos times que conquistam campeonatos.



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