COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

CLAREZA

Se estivesse preocupada com a lisura do Campeonato Brasileiro e o correto entendimento das decisões tomadas por seus árbitros em campo, a CBF teria agido durante esta semana. Com dois objetivos: reforçar as orientações aos apitadores no que diz respeito à polêmica do toque de mão na bola, e explicar à indústria do futebol brasileiro o que está certo e errado neste episódio.

O segundo objetivo é o mais simples. Bastaria que o chefe da arbitragem nacional, Sérgio Corrêa da Silva, convocasse uma entrevista coletiva para demonstrar o que mudou na interpretação desse tipo de lance (mais sobre isso adiante), quais são os novos conceitos que árbitros devem considerar, quais foram os erros e os acertos cometidos nas últimas rodadas.

O primeiro objetivo, mais importante e urgente, também é o mais complicado. Mas não faltam recursos e estrutura à CBF para organizar reuniões com os juízes envolvidos na rodada deste fim de semana. Os dez árbitros que estarão em ação hoje e amanhã deveriam ter sido chamados ao Rio de Janeiro e submetidos a um encontro com instrutores, para que as interpretações da regra fossem repassadas e todas as dúvidas, dirimidas. Tal providência, entre outros benefícios, faria descansar a suspeita de que nossos apitadores “não entenderam” as instruções da FIFA.

Que não reste dúvida: o seminário realizado em agosto, ministrado pelo ex-árbitro uruguaio Jorge Larrionda, apresentou novas orientações sobre o toque de mão na bola. Por conta da impressão de que “qualquer contato deve ser marcado” (um erro, sempre), deduziu-se que a nova leitura diminuiu o campo da interpretação, quando na verdade se deu o contrário. No “sistema novo” – usando as palavras de Corrêa da Silva –, os árbitros devem ponderar mais aspectos antes de decidir. Se o jogador de defesa quis ou não disputar a bola, se correu ou não o risco de tocá-la com o braço, ou se poderia ou não ter tirado o braço da trajetória são alguns dos pontos a ser observados. Quando a dificuldade aumenta, equívocos a acompanham.

O problema é que a CBF não está preocupada com os temas que convulsionaram o BR-14 nos últimos dias. Se muito, quer enterrá-los o quanto antes. A declaração de Corrêa da Silva responsabilizando “a mídia” por uma polêmica que pode produzir mais erros de arbitragem revela o nível de ficção com o qual temos de lidar. Não fosse o questionamento, não haveria necessidade de esclarecimentos. Do ponto de vista de quem prefere as coisas transparentes, lógico.

É certo que as medidas sugeridas aqui não foram nem mesmo ventiladas por quem deveria tomá-las. Aos árbitros que trabalharão neste fim de semana, a CBF apenas pediu firmeza na aplicação dos conceitos atuais sobre lances de toque de mão. A tradução feita por quem estará exposto uma vez mais é automática: falhem menos. A partir de agora, espere uma ocorrência maior de casos de pênaltis que acontecem e não são marcados. Esse tipo de erro é considerado menos grave do que o inverso.

NÃO PODE SER SÉRIO

Para adicionar insulto à infâmia, Sérgio Corrêa da Silva disse o seguinte ao SporTV (sobre a utilização do recurso de vídeo para auxiliar a arbitragem no futebol): “Vai acabar com a discussão e o futebol vai ficar muito chato. Vai tornar o futebol mais justo, mas vai perder a graça”. Uma barbaridade como essa deveria ser suficiente para demissão imediata.

TRANSFORMAÇÃO

A decisão da FIFA de que apenas clubes podem ser donos de direitos econômicos de jogadores de futebol, regra a ser aplicada após um período de “adaptação” de três ou quatro anos, deve ter um impacto transformador no futebol brasileiro. Se não permitir desvios, beneficiará a boa gestão ao impedir que empresários/investidores se tornem controladores de clubes mal administrados. Hoje, o futebol brasileiro é viciado nesse gênero de operação, em que os clubes, desesperados, se capitalizam ao ceder fatias de jogadores.



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