COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

VER-GO-NHA

Émerson Sheik está certo. O que o atacante do Botafogo disse diante de uma câmera de televisão, saindo do campo no Maracanã, corresponde à verdade. Não vamos nos ater aqui ao onde, ao quando, ao como ou ao por que, apenas ao o quê. E também não daremos mais atenção do que merece a declaração de Carlos Eugênio Lopes, diretor jurídico da CBF, que comentou – ao repórter Martín Fernandez, do globoesporte.com – as palavras de Sheik dizendo que “a vida dele não é exemplar”.

Escapismo e preconceito em níveis elevados no comentário de Lopes, a quem convém questionar: por que a vida de Émerson Sheik não é exemplar? A vida de Ricardo Teixeira, ex-chefe do advogado na CBF, é exemplar? A vida de Marco Polo Marin, figura atemporal a quem Lopes hoje obedece, é exemplar? É obrigatório ter uma “vida exemplar” para exercer o direito constitucional de se expressar?

De fato, a CBF é uma vergonha. Uma vergonha como mantenedora do futebol no Brasil, onde conta dinheiro diante dos pobres clubes – e aqui estamos falando dos mais “ricos”. Onde atua como célula principal do modelo feudal de gestão que é replicado pelas federações, um sistema que troca benesses por poder e tem como único objetivo mantê-lo por toda a eternidade, em detrimento do avanço do esporte no país.

Uma vergonha como organizadora do calendário de competições, que provoca e ignora o desemprego em massa de jogadores de futebol ditos profissionais, ao não permitir que a maioria dos clubes brasileiros mantenha-se em atividade durante toda a temporada. Que não se preocupa com a qualidade do jogo que é oferecido ao público que o consome. Que desvaloriza os próprios torneios ao fechar os olhos para o conflito entre eles e os compromissos da Seleção Brasileira, privando os clubes de seus principais jogadores em momentos importantes.

Uma vergonha como gestora da Seleção, ao tratá-la como garota propaganda caçadora de cachês, um time que se apresenta em qualquer lugar, contra qualquer adversário, desde que receba o depósito. Ao não investir na recuperação de uma maneira própria de jogar, única forma de resgatar o verdadeiro motivo de existência de algo que receba o nome de Seleção Brasileira de futebol. Ao entender o epitáfio do Mineirão como um acidente e não aproveitá-lo como origem de um processo que garanta que tragédia semelhante jamais se repetirá.

A CBF é uma vergonha até para fazer gentilezas, como comprova a farra dos relógios distribuídos para membros do Comitê Executivo da FIFA, proibidos de aceitar presentes de alto valor. De acordo com um comunicado da entidade máxima do futebol, a confederação brasileira informou que os relógios custaram US$ 8.750, 00 cada, mas o mercado revelou o triplo desse montante. Os dirigentes agraciados foram chamados a devolver as peças. A gafe não esconde um feito: a CBF fez a FIFA parecer uma entidade zelosa com a ética de seus membros.

Émerson Sheik está certo. A CBF é uma vergonha.

IMPECÁVEL

Exemplar, sem dúvida, foi a postura de Aranha em suas duas visitas à Arena do Grêmio. No que fez, no que disse e no que se recusou a fazer. O comportamento de quem o vaiou revela o preconceito indisfarçável e a lógica perversa dos iluminados que optam por culpar a vítima. Como se Aranha, ou as mulheres que sofrem violência sexual, escolhesse passar por esse tipo de situação. As vaias revelam, também, o sucesso da punição imposta pela Justiça Desportiva. Não fosse a pena recebida pelo Grêmio, o goleiro do Santos seria novamente alvo de ofensas racistas no mesmo local. Quanto a quem, por completa ausência de educação e princípios, insiste que Aranha provocou alguma situação, só há uma opção: manter sufocado o grito de macaco e lidar com a própria sujeira. É desanimador, mas uma sociedade que pretende avançar precisa enfrentar esse efeito colateral.



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