COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

JANELA PARA GUARDIOLA

Foi lançado nesta semana na Espanha um livro desses que, de tão interessantes, duram pouco tempo em nossas mãos. “Herr Pep”, do escritor catalão Martí Perarnau, é um diário do primeiro ano de Pep Guardiola no Bayern de Munique, resultado de um acesso sem precedentes ao reservado treinador.

Guardiola, como se sabe, não concede entrevistas exclusivas e não expõe seu ambiente de trabalho a pessoas estranhas ao círculo formado a seu redor. O relacionamento de confiança com Perarnau (59 anos, ex-atleta olímpico de salto em altura, jornalista e publicitário), no entanto, permitiu um acordo no qual a única exigência do técnico era que nada fosse publicado durante a temporada 2013/14.

Perarnau passou duzentos dias na Alemanha, conversando com Guardiola e com as pessoas que fazem parte de seu dia a dia dentro e fora do Bayern. O livro – sem lançamento previsto no Brasil, mas disponível em versão eletrônica em espanhol – é uma visita ao cérebro de um técnico obcecado por seus conceitos de futebol e uma pessoa constantemente preocupada com a própria evolução.

O primeiro capítulo já revela um Guardiola em busca das respostas para o processo que o obrigou a deixar o Barcelona, após quatro anos de conquistas seriais e a exibição de um tipo de futebol que provavelmente não será repetido. Em um jantar com Garry Kasparov em Nova York, Guardiola ouviu o lendário enxadrista russo fazer um comentário sobre um jovem norueguês que surgia como um fenômeno do xadrez: “Eu poderia vencê-lo, mas é impossível”, disse. A imediata relação com a impossibilidade de seguir vencendo com o Barcelona fascinou o catalão, que não descansou enquanto não interrogou Kasparov sobre o enigma.

“Herr Pep” também é uma aula sobre o funcionamento de um time como o Bayern e as exigências que se apresentam a quem precisa alimentá-lo com vitórias. A mente tática de Guardiola oferece diversas lições sobre o jogo, como por exemplo a concepção da ideia de utilizar os laterais avançados em uma linha de quatro jogadores no meio de campo, uma das inovações que marcaram o jeito de jogar do Bayern na temporada passada. A possibilidade estava arquivada por Guardiola desde seus dias no Barcelona, quando cogitou formar, em caso de necessidade, uma dupla de volantes com o lateral esquerdo próximo a Busquets.

No Bayern, o avanço de Rafinha e Alaba até o meio de campo foi um mecanismo para aumentar a objetividade da circulação da bola. Guardiola percebeu que o time trabalhava de Robben a Ribéry, passando pelos laterais e zagueiros, sem necessariamente agredir o rival. A ideia se concretizou não apenas com o lateral esquerdo, mas também com o direito, em linha com dois meio-campistas à frente do volante. De acordo com um membro da comissão técnica, a formação transformou o brasileiro Rafinha no jogador “mais importante” do time, por permitir que Lahm jogasse como organizador.

“Herr Pep” só tem uma falha: inevitavelmente chega ao fim. Ainda não inventaram uma solução para esse problema.

EM MIAMI…

Brasil e Colômbia fizeram um jogo bruto na Copa do Mundo, com domínio autoritário brasileiro no primeiro tempo via rodízio de faltas em James Rodríguez. No segundo, a temperatura aumentou ainda mais por causa do crescimento colombiano na busca do empate. A arbitragem permissiva foi responsável pelo ambiente que culminou com o lance que tirou Neymar do Mundial. Eis que, no reencontro das duas seleções, os organizadores do amistoso entregaram a situação a um árbitro incapaz de comandá-lo. Neymar apanhou desde o início, por vezes com níveis de violência que assustariam os executivos do Barcelona se o jogo acontecesse em um horário razoável na Europa. Ramires, Willian e Oscar, colegas no Chelsea, deram volume ao time no primeiro tempo. Mas o Brasil não conseguiu envolver a Colômbia nem depois que Cuadrado foi expulso. Linda cobrança de falta de Neymar, no gol da vitória.



  • Nelson Luis Bertoni

    Só espero que algumas MULAS treinadoras o leiam e principalmente algum Dirigente. Abraços

    • Nilton

      Nelson, infelizmente acredito dos 40 principais técnicos do Brasil em atividades (os da Serie A e B) pouco teriam condição de ler em Espanhol, e principalmente de entender o que esta escrito.
      Mas a esperança é a ultima que morre.

  • Emerson Cruz

    Deve ser interessante poder entrar e conhecer a mente futebolística do treinador mais revolucionário dos últimos tempos.

  • Gilson Oliveira

    Valeu pela dica literária

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