COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

AMBIENTE

Se a distinta que ofendeu Aranha na noite de quinta-feira o encontrasse na fila do cinema, certamente não o chamaria de macaco. Nem se ele tomasse o lugar dela na hora de entrar na sala. Racista que é, a moça morderia os lábios pela vontade contida de compará-lo a um primata, talvez até dissesse a palavra em baixo tom, mas não se permitiria ser ouvida.

Ela sabe que esse tipo de manifestação é errado, odioso, criminoso. Sabe que se portar dessa maneira pode garantir uma visita ao delegado mais próximo. Basta que alguém tome providências, como aconteceu com o aposentado que, em junho, fez com a atendente de um supermercado carioca exatamente a mesma coisa que a torcedora gremista fez com o goleiro do Santos. Diferentemente do que se viu na Arena do Grêmio, clientes do supermercado chamaram a polícia e o racista foi preso em flagrante.

Não há diferença entre os casos, assim como não há como relativizá-los. A funcionária do supermercado se enganou com um produto, Aranha era o adversário da noite. Ambos foram vítimas da mais abjeta falta de educação. O que separa os eventos é a forma como são vistos ou aceitos. O que produz indignação suficiente para discar 190 – um exemplo de cidadania – nas ruas ou em estabelecimentos, converte-se em cena corriqueira em estádios de futebol.

É o ambiente que permite o abuso, uma vez que imbecis não selecionam onde e quando se comportarão como tais. Imbecis se comportam como imbecis onde e quando esse comportamento é tolerado. Há motivos pelos quais pessoas agem como bestas em estádios. Um deles, provavelmente o principal, é a noção de que nada lhes acontecerá. A indústria do futebol precisa se mobilizar para que se entenda que um estádio não é diferente de uma sala de cinema ou um supermercado.

É preciso conter os imbecis utilizando todos os mecanismos existentes. As leis que regem nossa sociedade e as regras esportivas que preveem punições a clubes. Quando pessoas e instituições forem penalizadas, medidas eficientes serão tomadas para evitar que aconteça de novo. Campanhas no Facebook, camisetas e pulseirinhas podem render boas sensações e algum dinheiro, mas têm o efeito prático de placas de velocidade máxima em estradas sem radares.

Se a moça que chamou Aranha de macaco for responsabilizada pelo crime que cometeu, e a coletividade que frequenta a Arena do Grêmio se sentir prejudicada pelo episódio, comportamentos doentios – e frequentes – como os que vimos na noite de quinta-feira começarão a diminuir. O processo passa pela postura das pessoas que testemunharem esses abusos e pela atitude do clube no sentido de identificar os racistas e impedir que eles retornem. Só o exercício da indignação é capaz de transformar um ambiente permissivo.

O que você faria se, em um restaurante, um idiota na mesa ao lado chamasse o garçom de macaco? Você agiria de outra forma se o mesmo acontecesse com um jogador adversário no estádio em que você vai ver seu time?

AÇÃO

O jogo tem de ser paralisado, o episódio tem de constar na súmula, um boletim de ocorrência tem de ser feito, os meios de comunicação têm de divulgar, repercutir, investigar. Quem realmente quer mudanças não pode economizar em atitudes. E quem pode tomar as providências não tem o direito de fugir das responsabilidades.

OI?

Casos como o de Aranha se avolumam no futebol brasileiro, com os picos e as quedas de repercussão até o esquecimento conveniente. O que a CBF e o Ministério do Esporte fazem a respeito? A inércia revela total ausência de preocupação. Como se nada tivessem a ver com o problema.

UNIÃO

Os jogadores, mais organizados e mobilizados do que nunca em relação a vários temas, também poderiam tratar dessa questão de maneira mais atuante. Tanto no momento em que as ofensas acontecem quanto depois, na hora das declarações e dos repúdios.



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