COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

AUGURI!

Na saída do Morumbi, ele sentiu o ar frio do início da madrugada bater em seu rosto. O desejo de estar em outro lugar, qualquer outro, desde que fosse longe dali, encontrou-se com a necessidade de descobrir como. O plano desenhado para aquela terça-feira era vê-la se transformar em quarta, reviver sem pressa as sensações que o jogo lhe havia proporcionado e, com a ajuda de alguma bebiba que pudesse acalmá-lo, comemorar a classificação inédita de seu time para a final da Copa Libertadores.

O que se colocou entre o sonho e a realidade foi uma força que ele não podia explicar. Ela havia se manifestado por intermédio de jogadores que, durante toda a noite, simplesmente se recusaram a aceitar um desfecho que não lhes servisse. Como se nada pudesse detê-los, vencê-los ou mesmo entendê-los. Se mil gols fossem necessários em apenas um minuto, eles fariam mil e um. E se houvesse um pênalti a ser defendido, no último instante, em cem noites seguidas, a mão direita de um goleiro enorme estaria sempre no lugar preciso. No canto direito baixo, fazendo a bola subir e desaparecer pela linha de fundo. Uma defesa eterna.

Ele era exatamente o passageiro que o taxista oportunista esperava. Alguém disposto a gastar o que fosse para sair dali. Disse para onde ia, não negociou o valor proposto, apenas entrou no banco de trás e torceu para as ruas estarem desertas. Não estavam. Torcedores do outro time preenchiam, a pé, os caminhos ao redor do estádio. Alimentados pelo orgulho que o futebol nos faz experimentar quando a camisa pela qual torcemos é vestida com honra. Energizados pela superação de um rival com os requintes mais saborosos.

Lembrou-se do lateral que correu o campo inteiro, não só o lado esquerdo que deveria ocupar, desarmando, criando, atormentando. Aplaudiu, ainda que lhe fosse doloroso, o meia de pé mágico e cérebro superior, arquiteto da virada que conduziu o jogo aos malditos pênaltis. O terceiro gol, marcado pelo volante que surgiu do nada e por pouco não se chocou perigosamente com a trave, talvez fosse a prova de que o destino é mesmo inevitável. Por isso o goleiro invencível saltou para o lado certo na última cobrança. Ele sabia. O futebol também é feito de vitórias que jamais se concretizam, por mais próximas que pareçam.

Lentamente, o táxi se afastou do Morumbi. Lances se repetiam em sua mente como um videotape sem fim. Procurou culpados em seu time, sem sucesso. Os culpados, entre aspas, estavam todos do outro lado. Culpados por excesso de determinação, de obstinação, de suor. Apesar das cicatrizes, até as derrotas mais marcantes podem ser compreendidas quando o adversário tem valores inegáveis, invejáveis. Ele sabia que chegaria ao dia em que poderia arquivar aquela noite e viver em paz. Poderia até perdoar os jogadores que lhe impuseram tristezas profundas.

Quatorze anos depois, as lembranças de uma noite fria de junho continuam intactas. Decoradas pela admiração sem a qual nenhuma rivalidade faz sentido. Longa vida, Palmeiras.



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