COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

PLUMAS

Aconteceu um lance no clássico paulista de domingo passado que não recebeu a atenção merecida. O fato de você não se lembrar dele – ou porque lhe passou batido ou porque os resumos do jogo não o incluíram (pelo que a edição de segunda-feira desta coluna se penitencia) – é precisamente o problema central. Um pecado de nossa maneira de ver e debater futebol.

Foi um passe de Ganso para Kaká, nos primeiros minutos do segundo tempo. Ganso recebeu a bola na meia direita, cerca de três metros adiante do grande círculo. Ao ajeitar para o pé esquerdo, viu o companheiro entre os zagueiros palmeirenses. O lançamento passou sobre um deles e encontrou Kaká, já dentro da área, criando a oportunidade para um chute de primeira. Este é exatamente o detalhe que deveria ter sido valorizado: após quicar no gramado, a bola praticamente parou diante de Kaká.

Durante algum tempo, elogios a Ganso foram vistos como insistência de românticos que se recusam a ver o óbvio, ou, pior, defeito de análise de quem não conhece do que fala. Mas depois que o oráculo Tostão escreveu verdades incômodas (aos críticos) a respeito do meia são-paulino, é novamente permitido louvar seu talento sem correr risco de apedrejamento.

O passe para Kaká no Pacaembu não está sozinho. Não foi um evento efêmero. Houve o lançamento para Pato e a assistência para Kardec no empate em 1 x 1 com o Criciúma, exemplos recentes. E a concepção do gol de Luis Fabiano contra o Corinthians, em maio, lance que está na conversa – em igualdade de condições com qualquer outro – sobre o grande passe para gol neste ano no país. Ganso é o único meia brasileiro capaz desse tipo de jogada.

A semana teve outras duas demonstrações fantásticas, no futebol europeu. Uma oferenda de Iniesta para Neymar, no troféu Joan Gamper, e um presente de Fàbregas para Schurrle, na estreia do Chelsea na temporada inglesa. Amostras de que o passe perfeito depende da escolha correta entre pausa e aceleração, o tal controle dos tempos que separa uma tentativa infrutífera de uma bola que chega ao receptor exatamente da maneira que ele necessita. Do lado certo, na altura certa, na velocidade certa. Nem mais, nem menos. Ganso domina todos esses conceitos, mas se assemelha a um pregador em um deserto de ideias associativas.

Se a nova comissão técnica da Seleção Brasileira pretende construir um time que dê as cartas em campo, algo está errado com a convocação anunciada na terça-feira. Entre Luiz Gustavo, Fernandinho, Everton Ribeiro, Philippe Coutinho, Elias, Ramires, Oscar e Willian não há nenhum armador. São todos ótimos em seus papéis, mas falta um jogador de gestão, que saiba identificar o momento do passe vertical. Nenhum time que se organiza por intermédio da posse pode viver sem um.

De formas diferentes, as duas últimas Copas do Mundo mostraram que a circulação da bola é a ferramenta mais eficiente para dominar o jogo e desorganizar o adversário. Jogadores que transformam pedras em plumas, como Ganso, são necessários a este modelo de futebol.

EMBLEMA

Independentemente do motivo e das pessoas envolvidas, um jogador que se comporta como um delinquente em redes sociais deve ser punido por seu clube e obrigado a se retratar. Não é uma questão de correção política ou cultura de desculpas vazias. Jogadores não têm obrigação de ser modelos para ninguém, mas devem saber que representam os clubes pelos quais atuam quando se manifestam publicamente. Além disso, seria interessante que conseguissem dizer o que pensam com um mínimo de argumentação.

SOZINHOS

Por falar em delinquentes, não falta uma vírgula ao texto que Fred publicou a respeito dos “torcedores” do Fluminense que agiram como arruaceiros no desembarque dos jogadores no Rio de Janeiro. O que falta são dirigentes de clubes com coragem para enfrentá-los. Os jogadores já perceberam que estão sozinhos na defesa da própria integridade.



  • Juliano

    AK, as qualidades ressaltadas sobre PHG já são conhecidas, pelo menos, desde 2010. E se é assim, conforme descreve o texto, ele deveria estar presente na seleção desde sempre (claro, desde que saudável), correto? Porque ele é isso mesmo, esses passes brilhantes o tornam diferente. Mas são poucos passes, por mais que sempre capazes de fazer a diferença no placar do jogo, e aí vemos a real importância dele. E quando o passe não sair? E quando os companheiros não se movimentarem de acordo para tal? Foi assim que ele brilhou no Santos: Neymar, Robinho, Wesley… André um pouco mais parado, Arouca pra segurar a barra… time leve, movimentação constante. Se o modelo não for esse, dificilmente vai funcionar. E se não funcionar, é 1 jogador a menos em campo. Porque diferente de Iniesta e Fábregas, ele pouco participa do jogo como um todo.

    Não sei se exatamente PHG é necessário, mas seu estilo de jogo sim. Jogadores equivalentes, porém mais completos. E infelizmente, não é o que temos, e sim, a convocação do Dunga preocupa justamente por não ter armadores. Vejo pouca saída no momento.

    Não li nesta coluna, porque é sensata, mas ouvi durante a semana que PHG deveria ter sido lembrado na lista de Dunga, porque, “vejam ele aparecendo na área e fazendo gol, é isso que faltava para ele”. Sim, aparece na área e marca um gol de rebote. Lembrando que qualquer jogador chega na área, volantes, zagueiros, até goleiros em situações específicas. Não é por aí. Se de fato ele merece estar na lista, é por aumentar sua participação no jogo e entregar mais passes como oportunidades de gol. Aguardemos. Ainda é eterna promessa, ou é isso que ele jogou até aqui e ponto. E veja que sou muito fã dele por motivos óbvios…

    Abraço!!

  • Carregadores de piano sao necessarios,mas sem artistas nao ha concertos,concordo plenmente com sua opiniao.

  • Gustavo Xavier de Almeida

    Passes como os citados são colirio nesse tempo seco e escasso de boa visão de jogo…você escreveu que o passe de Ganso para Pato fazer o gol foi tão simples (pra ele) que um milésimo de segundo a mais com a bola nos pés, Pato estaria impedido!
    Sobre Fred e Fluminense, você concorda que a diretoria do Cruzeiro ficou ao lado de jogadores e técnicos contra a “torcida organizada” e hoje colhe os frutos com titulos e casa “quase” sempre cheia?
    P.S – mandei algumas perguntas á você para minha entrevista, você recebeu?
    abraço

  • Rafael

    Gosto quando o Tostão escreve que o Ganso não precisa entrar na area. Que não e’ essa sua função, apesar dos insistentes pedidos do Muricy e de outros tecnicos. O Brasil esqueceu o que e’ o armador. Deley, Giovane, Andrade faziam isso nos anos 80 no Rio (futebol que eu acompanhava) por Flu, Fla, e Vasco. Cada time tinha um. Agora, só temos um no país e o cara e’ contestado o tempo todo.
    Tomara que seja experimentado na Seleção logo.
    Abraços

  • Clayton

    E hoje ele foi o melhor em campo novamente. Fez gol, deu assistências, ajudou na marcação. Vem jogando muito. E acho que o fator Kaká contribuiu pra isso.

  • Frederico

    Caro André Kfouri, sempre muito preciso em seus comentários. Mas o Philippe Coutinho tem exatamente as mesma características PH Ganso. Uma pena que não tenha o visto jogar desde as categorias de base. #foradunga

    AK: Equívoco seu. Philippe Coutinho joga mais adiantado. Um abraço.

    • Rafael

      Olha aí um belo meio de campo: Luis Gustavo, Ganso, Coutinho e Oscar. Com todos marcando. Dava pra fazer, mas o Dunga não vai abrir mão de 2 cabeças de área.

  • Joao

    Eu o pedia na seleção para a Copa. Diziam que estava mal em 2013. Mas o Maestro nao consegue fazer uma apresentação digna sem bons musicos. O Sao Paulo estava mal em 2013. Claro que se ele fosse preparado na seleção demonstraria ser o jogador que é. Scolari não deu oportunidade alguma a ele e essa teimosia do ultrapassado tecnico com a sua “familia scolari” sem dar chances a novos jogadores, foi um dos grandes motivos do fracasso. Eu imagino um ataque com Ganso , Neymar e Lucas Moura, e impossivel nao sonhar com atuações de gala. São 3 craques. Mas vamos de Hulk, Oscar, Willian, Fred… etc.. só pragmatismo.

    Abraço,

  • silas

    Caro André,

    Emblemático! (Fato de grande significado social e histórico; Fato que de tão original na descrição, serve de exemplo a diversas outras situações)
    Infelizmente o fato expressa uma triste realidade no Brasil. Não são os jogadores de futebol (brasileiros ou chilenos) os únicos a usarem a mídia como meio de externarem a pouca ou nenhuma educação que têm.
    Não concordo que os jogadores não tenham a obrigação de ser modelos para a sociedade.
    Qualquer cidadão de bem tem sim o dever de ser modelo, para seus filhos, para seus colegas, para seus vizinhos, para a comunidade em geral. Neles estão inclusos os jogadores de futebol, apresentadores de TV, redatores de artigos nos jornais e até mesmo aquele simples torcedor de futebol.
    Embora a maioria dos brasileiros tenha alguma dificuldade para expor o que pensa com um mínimo de argumentação, é a minoria que se expressa da forma chula, deselegante e deseducada como a que nos presentearam o aludido jogador e o(s) apresentador(es) em casos recentes.
    Interessante registrar que os mesmos não padecem da falta de recursos financeiros que lhes pudessem financiar a educação (ainda que tardia).
    Pena que a imensa maioria dos brasileiros comuns não tem a mesma felicidade.
    Abraço

  • Gustavo

    Muito bom o texto, André, parabéns.

  • Paulo Pinheiro

    Pra mim PHG não é craque, mas é um bom jogador e às vezes tira um coelho da cartola. Não é pouco pra se confiar no sujeito?

    O que acontece, André, é que suas boas atuações quinzenais são sempre exaltadas e faz-se silêncio no interregno. Avalie como um todo. Sim, ultimamente ele emplacou uma boa série. Tomara que seja consistente e me cale.

    O que acho estranho é a má-vontade de vários comentaristas com relação ao R10 que já fez VÁRIOS passes como o que você descreveu e não recebe os devidos créditos, enquanto a cada 2 semanas quando o Ganso faz uma das suas parece que encontraram o eldorado.

    Acho até ruim para o próprio Ganso que seja assim.

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