COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

SEMÂNTICA DO CALOTE

Na semana em que o Bom Senso Futebol Clube venceu o jogo em Brasília, ao impedir a votação apressada da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, descobrimos coisas interessantes a respeito de dois dirigentes que moldam o estereótipo do cartola brasileiro.

Pouco tempo após a Câmara dos Deputados decidir que a matéria será apreciada em outubro, Maurício Assumpção revelou, despreocupado, que optou por não pagar os impostos devidos pelo clube que preside, o Botafogo. A infâmia só não foi maior do que a de Andrés Sanchez, ex-presidente do Corinthians, réu de ação penal por sonegação de cerca de R$ 100 milhões em tributos.

Assumpção confessou que, em nome do Botafogo, se apropriou do dinheiro dos funcionários do clube. Sanchez – junto com outros três dirigentes do Corinthians – está sendo processado por ter feito o mesmo. Ambos, naturalmente, são favoráveis ao refinanciamento das dívidas que ajudaram a fermentar em troca de mecanismos frouxos de fiscalização, como constava do texto que poderia ter sido aprovado na última terça-feira. A derrota parcial da desvergonha também atingiu o ministro do esporte, Aldo Rebelo, que trabalhou nos telefones pela votação.

É obrigatório lembrar que Andrés Sanchez e Maurício Assumpção foram personagens centrais na demolição do Clube dos 13, durante a discussão dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro, em 2011. Sanchez sabotou a ideia de negociação em bloco por identificar a influência do São Paulo no processo conduzido por Ataíde Gil Guerreiro, então diretor-executivo da associação dos clubes. Assumpção formou uma espécie de grupo dissidente com os comandos dos outros três grandes do Rio de Janeiro.

O que poderia ser um marco na valorização do produto do qual os clubes são proprietários transformou-se em cada um por si para uns, salve-se quem puder para outros. Corinthians e Flamengo se distanciaram ainda mais em orçamento em relação aos concorrentes, fato que, para Assumpção, deveria ser tão importante quanto o aumento obtido em negociação individual com a televisão. A situação miserável do Botafogo não pode se dissociar da oportunidade que foi desperdiçada por seu presidente, que hoje lacrimeja em ameaças vazias de retirar o clube do Campeonato Brasileiro. Para Assumpção, o único alívio é, por enquanto, não ter a Justiça em seu encalço.

Sanchez e Assumpção qualificam como “opção administrativa” o ato criminoso de sonegar impostos, certos de que a União virá ao resgate com as benesses que garantem as práticas que deixaram os clubes com o pires na mão. A tarde de terça-feira serviu para colocar um pouco de dúvida na agenda da cartolagem, graças aos músculos de uma força que não existia em 2011: os jogadores mais atuantes e organizados da história do futebol no Brasil.

Tem dirigente dizendo que a televisão precisa salvar os clubes, como se ela já não fosse o aparelho que permite que eles respirem. É possível que, agora, ajoelhados, estejam todos dispostos a ficar do mesmo lado da mesa. É tarde.

ATÉ TU?

A crise administrativa é tamanha que até o São Paulo, visto como exemplo de gestão, deve salários e direitos de imagens a seu elenco. É evidente que o fato tem influência no desempenho do time, que joga menos do que pode e demonstra, por vezes, não se importar com isso. Nesse tipo de ambiente, geralmente quem paga é quem tem menos culpa.

SOFÁ

Nada pode ser mais apropriado do que o comando anacrônico da CBF falar na volta da lei do passe. Marco Polo Marin, o ex, atual e futuro presidente da confederação, redefine o significado da palavra “retrógrado” ao enxergar o mecanismo como medida para diminuir o poder dos empresários. Demagogia para desviar o debate sobre a incompetência de quem toma decisões. No aniversário de um mês do armageddon dos 7 x 1, a CBF dá mostras de que a terra continuará arrasada.



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