CAMISA 12



(publicada ontem, no Lance!)

O SEGUNDO IMPACTO

A liga esportiva que mais lida com choques de cabeça no mundo, a NFL, estima que o tempo mínimo necessário para identificar um caso de concussão é de oito a doze minutos. Esse é o intervalo para que um especialista submeta um atleta ao teste que pode significar a diferença entre vida e morte.

Além de óbvios sintomas como perda de consciência, amnésia, letargia e confusão, o teste aplicado em jogadores de futebol americano procura alertas relativos a memória, concentração e equilíbrio. O exercício vai desde perguntas banais como “que dia é hoje?” e “onde estamos?” até sequências de palavras que o atleta tem de repetir sem erros ou tempo para pensar, e sequências de números que devem ser repetidos em ordem inversa.

A importância do diagnóstico é vital para evitar o que se chama de “segundo impacto”. Quando uma pessoa sofre uma concussão, o cérebro balança e pode se chocar com a estrutura óssea do crânio, danificando fibras nervosas. Em um período que vai de minutos a dias após o trauma, o cérebro fica vulnerável não em termos de estrutura, mas de funcionamento. É nessa janela de tempo que um segundo choque pode ter consequências gravíssimas.

O problema se torna ainda mais sério quando o acidente ocorre durante um jogo, como se viu em cinco ocasiões na Copa do Mundo de futebol. Na NFL, as regras de substituições de jogadores permitem o atendimento médico sem que equipes sejam prejudicadas numericamente. No futebol, times não podem perder um homem por oito minutos.

Os casos da Copa e o exemplo do são-paulino Álvaro Pereira, em partida do Campeonato Brasileiro no último sábado, indicam que jogadores de futebol não são avaliados corretamente após choques de cabeça em campo. É possível que todos tenham sido autorizados a retornar ao jogo vulneráveis ao perigoso “segundo impacto”, situação que se aproxima de uma roleta russa. Algo tem de ser feito.

CUIDADO

A NFL deverá gastar quase um bilhão de dólares em um acordo judicial com ex-jogadores que sofreram danos cerebrais em suas carreiras. O processo obrigou a liga a rever seu protocolo de concussões. Hoje, há um neurologista independente em cada lateral do campo, responsável pela aplicação do teste e pela decisão de permitir ou não o retorno do atleta ao jogo.

CAMINHO

Um atleta diagnosticado com uma concussão precisa completar um programa de recuperação composto de seis etapas, entre repouso total e retorno às competições. Cada etapa dura pelo menos um dia e, na ausência de sintomas, passa-se à fase seguinte. Se qualquer sintoma reaparecer, é obrigatório reiniciar o processo. Há casos de atletas que não se recuperam.



  • Anna

    Muito bom, André. Esse assunto precisa ser amplamente discutido. Bom final de semana, Anna.

  • Gustavo

    E quem se interessa por esse assunto?? Favor comentar sobre o retorno de Robinho ao maior time da via láctea desde a invenção da bola de gelo na era glacial….no aguardo abs

  • Felipe Mello

    Sempre lembro do “Shark” em “Um Domingo Qualquer” e dos médicos dando aval para que ele jogasse as finais. James Woods muito bem no papel de médico canalha!
    Acho que eles evoluíram de lá pra cá!
    Nós temos um longo caminho a percorrer!
    Abraço!

  • Emerson Cruz

    Jogadores podem estar correndo riscos desnecessários sem que saibam disso. É algo para ser pensado sem dúvidas.

  • Juliano

    Excelente!

    Mas a NFL só chegou a este protocolo depois de muitos casos de atletas com danos cerebrais que culminariam neste acordo judicial bilionário. Se algum dia o esporte bretão chegar a tão protocolo, infelizmente será às mesmas custas: a saúde de atletas e o bolso da cartolagem.

    Abraço!

  • Luiz Mello

    AK, parabéns pela iniciativa de trazer esse assunto para discussão. O mundo do futebol dá atenção zero ao problema, o que não é nada menos que criminoso, de parte das entidades que governam o esporte. Infelizmente, só farão alguma coisa quando doer no bolso, como foi o caso da NFL.

  • Gilson Oliveira

    André, também passei a pensar nisso no futebol quando vi um documentário na Sportv sobre as concussões. Eu também fico horrorizado como os jogadores passaram a usar os braços (cotovelos incluídos) nas disputas áreas e outras. O número de choques por partida é enorme. Pelo caminho que vai, ainda veremos os jogadores de futebol com aquele capacete acolchoado do rúgbi.

  • José Henrique

    Em documentário recente, descobriu-se que sequelas, mesmo tempos depois de encerradas as atividades dos atletas, comprovadamente eram originárias de pancadas, ou abalos no cérebro.

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