CAMISA 12



(publicada ontem, no Lance!)

O ÚLTIMO DOS ACAJUS

“Parecia um jantar do elenco do seriado Chapolin, com muita tinta acaju, pulseiras de prata, calças de tergal e sobrancelhas feitas com um risco em forma de meia-lua. Estava lá o octogenário Julio Grondona, jefe da Associação de Futebol Argentino. Ele é acusado de ter ganho 78 milhões de dólares para votar no Catar para sede da Copa de 2022.

Também apareceu Nicolás Leoz, um paraguaio de 82 anos que preside a Confederação Sul-Americana de Futebol, a Conmebol. Além de ter recebido suborno da ISL, diz-se que ele teria pedido um título de nobreza (…), em troca de seu voto pela Inglaterra. ‘Don Leoz, donde está su corona?’, gritou-lhe Teixeira, trazendo à baila o almejado título de sir. Leoz fez um bico de muxoxo e levantou os braços sobre a cabeça, fingindo estar sendo coroado, e todos gargalharam. ‘Se nos derem as Malvinas, eu voto em qualquer coisa!’, gritou Grondona, que usa um anel de ouro no mindinho com a expressão ‘todo pasa'”.

As linhas acima talvez sejam as mais significativas do icônico perfil assinado pela jornalista Daniela Pinheiro, para a revista Piauí, em julho de 2011. O artigo, entitulado “O Presidente”, expôs o ambiente de cartolas sul-americanos na FIFA, após acompanhar Ricardo Teixeira e seus pares durante dias de reuniões em Zurique.

Teixeira, 67, está exilado em Boca Raton ou no Rio de Janeiro após reinar por vinte e três anos na CBF. Leoz, 85, sentou-se no trono da CONMEBOL por vinte e sete anos. Em abril do ano passado, renunciou ao cargo alegando problemas de saúde e tomou o caminho para lugar nenhum. Ambos fugiram do Comitê Executivo da FIFA por causa do escândalo da ISL.

Grondona, 82, sustentou-se como monarca do futebol argentino por trinta e cinco anos. Confidente de Joseph Blatter, ostentava uma camada de teflon como vice-presidente senior da FIFA até a manhã de ontem, quando um aneurisma na aorta o matou. O último dos acajus se foi.

LEGADO

Escreveu Daniela Pinheiro, na Piauí: “No salão de chá do Baur au Lac, o argentino Julio Grondona estava esparramado numa poltrona, com o rosto afogueado. ‘Ah, fui ver os vitrais do Chagall, comi um risoto maravilhoso, bebi uma garrafa de Chianti e brindei à eleição da Fifa’, disse, caindo na gargalhada”. Como está grafado no anel que Don Julio usava, tudo passa.

FEUDAIS

O futebol não sentirá a falta de Grondona, como não sente a de Teixeira ou Leoz. Epítomes do anacronismo que tratavam o jogo como bem particular. As cadeiras que deixaram após décadas foram ocupadas por súditos que compartilham das mesmas práticas, servindo-se ao invés de servir. Don Julio, um abnegado, trabalhou até o último dia de sua vida.



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