COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

ANTIQUÁRIO

Um trecho da entrevista coletiva de anteontem na sede da CBF impressionou pelo potencial aflitivo. José Maria Marin, um dos presidentes da entidade, entrou em um loop de longos minutos para dizer apenas que seu respeito por Felipe Scolari (ele ignora o “Luiz”) tinha aumentado durante a Copa do Mundo. Até o ex-técnico da Seleção Brasileira deve ter se incomodado.

É preciso respeitar Marin e reconhecer um inegável feito: jamais um dirigente personificou tão perfeitamente o futebol de seu país. Ver Marin remete ao alemão Cornelius Gurlitt, o colecionador que mantinha em seu apartamento em Munique um tesouro secreto de obras de arte adquiridas durante a Segunda Guerra Mundial. Gurlitt nunca trabalhou, se comunicava por cartas escritas com canetas-tinteiro e foi ao cinema pela última vez nos anos setenta. Além da nacionalidade, há uma diferença clara entre eles: Gurlitt morreu em maio passado, aos 81 anos.

O futebol brasileiro precisa ser recuperado e a Seleção, atualizada. São processos diferentes, interligados por decisões políticas, mudanças estruturais e um planejamento de longo prazo que exige novos métodos e ideias. É obrigação da CBF estar à frente dessa reforma. Um cenário absolutamente impossível enquanto a tomada de decisões estiver nas mãos de Marin. Ou nas de Marco Polo Del Nero, cuja postura taciturna se assemelha à da aranha que usa a sombra de sua vítima para se proteger do calor.

A única preocupação deles é manter a caixa registradora faturando. Enquanto a Seleção Brasileira for tratada como garota de programas da CBF, nenhuma goleada será suficientemente humilhante (lembre-se que a eleição na confederação foi antecipada, para que a Copa não atrapalhasse o projeto de poder). Mais botox, implantes maiores, saias menores e, lógico, celular sempre ligado. A revolução que poderia fazer com que nos recordássemos do dia 8 de julho de 2014 como um início não lhes passa pela cabeça. Steve Jobs não conseguiria marcar uma reunião com essas figuras, se fosse vivo.

A apresentação de Gilmar Rinaldi simula eficiência e exime os dirigentes de suas responsabilidades. A posição de coordenador de seleções demanda proximidade do jogo, do campo, para diferenciar o que é moderno do que já passou. Noção que não se adquire com turnês pelos melhores CTs de clubes europeus ou assistindo a treinos de técnicos de vanguarda. Todos os treinadores da Seleção Brasileira viajam, vão a jogos, conversam. Nem o discurso é novo.

Mas como seria novo, com quem está no comando? O doloroso loop de Marin para falar de seu respeito por Scolari preocupou pela repetição e provocou alívio quando terminou. Mais ou menos como a surra que a Seleção Brasileira levou da Alemanha em Belo Horizonte. Entre os que não entram em campo, todos os envolvidos na eterna tragédia já não estão mais por perto. Mas Marin continua decidindo e falando nas “cinco estrelas da nossa camisa”, enquanto vê as horas em um relógio de bolso e pede uma ligação para a telefonista.

RISCO

É ruim, sim, o fato de Gilmar Rinaldi passar de agente de jogadores a coordenador de seleções. O anúncio de que a carreira anterior se encerrou no momento em que ele aceitou o convite da CBF não é nada mais do que uma obrigação. Mas ao mesmo tempo em que não há razões para suspeitar da idoneidade de Rinaldi, há que se ponderar que o risco do conflito evidente deveria ser evitado. Se Rinaldi fosse o único profissional no Brasil capacitado para exercer a função, com trabalhos conhecidos e aplaudidos na área, seu currículo talvez justificasse a escolha. Mas o ex-agente é uma interrogação como coordenador, e ainda carregará a bagagem dos negócios do futebol para uma posição que exige credibilidade.

CONTRA

A porta fechada a um treinador estrangeiro, logo de saída, já é um gol contra de Gilmar Rinaldi. Na pesquisa sobre nova metodologia, técnicos de fora deveriam ser considerados.



  • Paulo Pinheiro

    André,

    Até compreendo que ao representar a Confederação Brasileira de Futebol o discurso possa ser o protecionismo do técnico brasileiro de futebol.

    No entanto a mesma frase-feita “futebol é momento” que sempre se aplica a jogadores de futebol também se aplica a treinadores.
    O curriculum de Wanderley Luxemburgo, por exemplo, merece alto grau de respeito, mas o momento dele é péssimo. O mesmo pode se dizer do próprio Felipão.

    Não vejo absolutamente nenhum treinador de clube brasileiro que esteja no nível de Sampaoli, por exemplo (que dirá do Guardiola…). Nenhum mesmo! Nem Tite, nem Muricy, nem o Marcelo Oliveira (cujo Cruzeiro está impressionando novamente).

    A opção pela volta de Dunga só deixa mais claro que Seleção Brasileira é balcão de negócios mesmo. Quem aceitar a “política interna” fica. Quem não aceita, sai.

    Mas não deixa de impressionar que nem mesmo os fatos recentes tenham feito os nobres srs. Del Nero e Marin colocarem as barbas de molho.

    Paralisia facial na cara-de-pau, ou apenas a aplicação da “lógica tiririca”?

    • Rafael

      Esses senhores não se preocupam se estão matando o futebol. Querem ganhos imediatos. Farinha pouca, meu pirão primeiro e’ a mentalidade.
      Mal comparando e’ o que se faz com o meio ambiente. Não se admite uma reestruturação energética mundial para q o planeta dure por muitas gerações.
      O mesmo na CBF. Eles não vão modificar nada justo na hora deles aproveitarem. Deixa pro próximo. E assim vai se matando o futebol Brasileiro.

      Só para lembrar. Em relação a Rússia. Não temos ninguém promissor para as seguintes posições: LD, LE, meia armador, meia atacante e centroavante. São 5 posições; meio time!! Periga a gente não se classificar.

  • Paulo Pinheiro

    Tem mais um detalhe aí..

    O técnico pós-Copa é sempre o boi-de-piranha a ser usado no pré-olímpico e – talvez – na Olimpíada.

    Não vale a pena queimar um treinador bom neste caso, vale?

  • José Henrique

    João Carlos de Freitas, disse na Cbn hoje, que Rinaldi e Dunga foram colocados ali, para que as criticas se concentrem nós dois, tirando, ou desviando o foco da discussão sobre Marin,Del Nero .
    Também estou achando a mesma coisa.

  • sergio

    André gosto muito da ESPN mas em relação a Copa ela dançou apesar de ter sido a mais assistida..As criticas que se ouviam dos apresentadores eram as mesmas que s e ouviam em botequins .Sem as mínimas provas.Ou quando o Lucio arranjava provas ninguem entendia nada.
    Mas hoje podemos dizer que a ESPN estava certa.Querem acabar com o futebol brasileiro com a construção de tantas arenas.Terça feira será anunciado que :
    as Dungosas e os dungosos CEBEFENIANOS salvarão as baleias,os Marlins.e Nero o Imperador ROMANO destruidor de países e de esportes.

    • claudio

      Hã?!

  • Nilton

    André,
    De todos os técnicos estrangeiros o que eu mais gostaria para o Brasil seria o “Louco” Bielsi, é o que poderia trazer melhor resultado para a Seleção, já que tem trabalhos por seleções e não somente por times. Treinar seleções sempre é diferente de treinar times.

  • José Henrique

    Um dos melhores dirigentes, capaz de revolucionar a CBF, infelizmente é rejeitado por grande parte da crítica, apenas por picuinhas clubísticas.
    Lamentável e equivocado maniqueísmo.

    • RENATO77

      Infelizmente é fato.

    • Teobaldo

      Com o nível da crise no oriente médio, lá pelos lados da terra dele, acho pouco provável que ele queira se ocsupar com algo mais complicado ainda, como a CBF, mas em todo caso, não custa nada continuarmos rezando. Quem sabe…

    • Matheus Brito

      Esse cara não seria o Andrés não né?

    • Juliano

      José, são picuinhas POLÍTICAS, não clubísticas. Extingua isso da sua mente.

      • José Henrique

        Sim. Picuinhas políticas por parte dos atuais dirigentes da CBF. Picuinhas clubisticas pode por na sua mente por dor de cotovelo.

  • Matheus Brito

    Boa noite,

    Não me surpreende as contratações de Gilmar e Dunga(não citado na coluna). Não esperava mais que isso. Não que imaginasse eles, mas gente como eles. Um cara que era agente de jogadores até o momento em que sentou na cadeira da CBF? isso não poderia ser sério.
    Mais do mesmo por mais quatro anos ou mais.

    AK, viu algo sobre o governo querer acabar com os direitos federativos do jogadores? Seria bom para os clubes, já para os jogadores nem tanto, mas para os empresários penso que seria um terror.

    AK: Creio que você se refere a direitos econômicos. Tema complicado. Um abraço.

    • Matheus Brito

      Isso, foi um lapso. Direitos econômicos. Li que o governo quer acabar com essa farra do jogador fatiado. Algumas coisas são interessantes nesse tema como o limite da divisão dos direitos deixando sempre o maior percentual com o clube e posteriormente deixar somente o clube como dono dos direitos. Uma faca de dois gumes. Os clubes ficariam mais protegidos contra a ação de empresários que oferecem benefícios aos pais de atletas ainda em formação para levá-los com mais facilidade depois. Por outro lado os jogadores voltariam a ser reféns dos clubes como em outros tempos. O maior benefício seria o “fim” da farra do jogador pizza. Contudo sempre irão existir clubes como Tombense, Barueri, Boa esporte… Clubes de empresários.

      • Rafael

        Clubes de empresários estes que não formam ninguém.
        O regime que temos de empresários hoje é uma aberração.
        Há que se dar maior participação aos clubes e exigir que os atletas na base estudem. De maneira seria, que frequentem as aulas. Nota mínima, essas coisas. Formar o cidadão deveria ser uma preocupação prioritária. O que acontece com os 99.99% de atletas que não viram jogadores de destaque e não tem um segundo grau decente?

      • José Henrique

        Qualquer medida no sentido de fortalecer os clubes de futebol será altamente salutar.
        Diminuir, ou restringir, talvez até tributando pesadamente os “donos” do direitos econômicos, hoje praticamente, nadando de braçadas nesse lucrativo negócio, seria fundamental para resgatar tudo o que essa malfadada lei Pelé tirou dos clubes.
        Essa de “escravo” dos clubes, é argumento usado sabemos por quem.
        Clubes fortalecidos, futebol forte.
        Direitos econômicos, em poder de pessoas jurídicas ou físicas que não clubes, deveriam ser taxados em 60%, no caso de venda de jogadores.
        Seria um bom começo para desestimular esse “comércio”.

  • silas

    Todos preocupados com Gilmar Rinaldi, Dunga…
    Seleção não é CBF e vice-versa, embora estejam intimamente ligadas.
    De há muito a CBF deveria ter sido mudada em sua estrutura, desde Havelange, Teixeira, Marin, Del Nero…
    De há muito o futebol brasileiro merecia melhores Homens, melhor organização, melhor capacitação, melhores intenções.
    O Dunga foi consequência, o Parreira, o Felipão, o Dunga novamente, todos.
    Nunca a estrutura do futebol brasileiro será mudada somente com a troca do técnico.
    A melhoria da seleção poderá, sim, ser conseguida, quando tivermos gente séria, bem intencionada e competente na CBF.
    Mas, antes disso, precisamos em mudar o país. A CBF é consequência da política que temos!

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