CAMISA 12



(publicada hoje, no Lance!)

SETE PALMOS

O instante simbólico do epitáfio do mineirão não foi um gol, ou sete. Não foi um drible humilhante, uma atuação vergonhosa ou mesmo os contornos catastróficos de uma tarde que durará para sempre. Foi um lance aparentemente sem importância, quando o primeiro tempo marcava dezoito minutos e o placar mostrava um respeitável um a zero para os alemães.

Um desarme na lateral do campo, seguido por nove passes que levaram a Alemanha da defesa ao ataque. Uma série de associações que fizeram a Seleção Brasileira parecer um time primitivo.

Belo Horizonte viu um choque entre eras no futebol. Passado e futuro no mesmo gramado. Um telefone celular inteligente de última geração contra um pombo-correio, velho, cansado, doente.

O jogo foi uma versão futebolística do filme “A Origem”, em que sonhos se avolumam dentro de outros sonhos, e só é possível acordar com a sensação de cair para trás. A diferença é que cada gol alemão foi um pesadelo mais assustador, e, apesar de tantas quedas, ninguém acordou.

A maior derrota da história centenária da Seleção Brasileira não poderia ser pior. Sete gols, em uma semifinal de Copa do Mundo, em casa.

Mas há, sim, algo ainda mais grave do que ser feito de bobo diante de uma plateia mundial. É virar as costas para a própria identidade e perder querendo ser como os outros.

Faz tempo que a Seleção Brasileira olha para a bola com desdém e enxerga o passe como um acessório supérfluo. Faz tempo que a Seleção Brasileira nega o que lhe valeu a admiração do mundo.

O epitáfio do Mineirão não seria tão infame se não fosse escrito por alguém que parece querer homenagear o futebol que um dia a Seleção Brasileira praticou. Um futebol que o Brasil decidiu deixar de jogar.

Que fim levou o futebol brasileiro? O que aconteceu com o DNA que leva crianças a sonhar com uma bola, trocar tudo por ela, até o travesseiro? Como fomos estúpidos a ponto de acreditar que deixar de jogar era a opção “inteligente”?

Sete gols. Sete palmos. Descanse em paz.

FIM

Não existe recuperação possível de uma tragédia dessa magnitude. Em termos históricos, é mais significativo do que o que se passou em 1950. O único caminho a tomar é recomeçar do zero. E a única utilidade de tamanha vergonha é convertê-la no ponto de partida para a reconstrução. Só que para isso é necessário entender o que aconteceu.

FINAL

Argentina e Alemanha na final da Copa do Mundo, pela terceira vez. Vinte e quatro anos depois da última decisão que disputaram, os argentinos reencontrarão o mesmo adversário que os derrotou na Itália e os eliminou das Copas de 2006 e 2010. A Alemanha tem mais nomes, mais time e mais gás. A Argentina tem Lionel Messi e o destino. Grande domingo no Maracanã.



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