COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

CINCO DIAS

Foi por volta dos vinte minutos do segundo tempo que a sensação se instalou de vez: o Chile jogava mais do que o Brasil, contra o Brasil, no Brasil. Jogava mais em todos os sentidos. Gerava mais jogo no aspecto coletivo, era superior à Seleção Brasileira como equipe, estava mais próximo do gol que desempataria o encontro. A Copa do Mundo de 2014, a ponto de terminar para o dono da festa, na primeira partida eliminatória.

Pouco antes, Jorge Sampaoli havia feito uma alteração estranha a princípio. Trocou Vargas por Gutiérrez, o que diminuiu a força ofensiva dos chilenos e sugeriu cautela precoce. Mas o resultado da modificação se viu na maneira como o Chile se apoderou da região mais importante do gramado, consequentemente assumindo o controle do jogo. O “Mineirazo” foi evitado pelo travessão, na prorrogação, e por Neymar e Julio César na disputa de pênaltis. Passou assustadoramente perto.

O problema está evidente no meio de campo da Seleção Brasileira. Foi exposto, até para quem não presta atenção, pelo primeiro adversário que poderia ameaçar o Brasil nesta Copa. O setor que tem a tarefa de harmonizar um time de futebol faz o oposto na Seleção: divide a equipe em duas unidades que falam idiomas diferentes e se percebem obrigadas a se comunicar sem a ajuda de um intérprete. O time não joga da maneira a que se propõe e não tem segurança para manter a posse e criar o próprio caminho. São diversas as fontes da fragilidade emocional, algo que a Copa das Confederações não indicou.

De acordo com o departamento de análise de dados da ESPN, o Brasil completou 68% dos passes durante o tempo regulamentar no Mineirão. Foi o pior índice de aproveitamento do time em um jogo de Copa do Mundo nos últimos cinquenta anos. Grave sinal dos tempos e da descaracterização do futebol brasileiro naquilo que, um dia, foi motivo de admiração mundial e essência de uma ideia de jogo. O passe, pedra fundamental do futebol coletivo, transformou-se em um acessório do qual uns gostam, outros não.

Um ano depois, é preciso encarar o fato de que a formação que conquistou a Copa das Confederações não conquistará a Copa do Mundo. Talvez – como saltou aos olhos no sábado – nem se aproxime da oportunidade. O desempenho de vários jogadores caiu, a concorrência se tornou muito mais perigosa. Reconhecer um dilema tão sério e encontrar as soluções durante o torneio não é confortável, mas é uma obrigação que não pode ser ignorada. Felizmente para Luiz Felipe Scolari, os pênaltis no Mineirão compraram o tempo que Pinilla não fez expirar por um palmo.

A ausência de Luiz Gustavo impõe um novo desenho. O time pede mais gosto pela bola, mais diálogo entre aqueles que sabem tratar com ela, mais imaginação, mais jogo. A confiança que este Brasil não tem e não transmite não virá com resultados circunstanciais como o de sábado, mas com atuações e merecimento. Cinco dias de trabalho e conversa até sexta-feira e a Colômbia em Fortaleza.

MOCHILA

Eu estava na zona mista do estádio Nelson Mandela Bay, em Port Elizabeth, depois de Holanda 2 x 1 Brasil na Copa de 2010. A frase da qual mais me lembro é “essa derrota vai me machucar muito”, dita por Julio César, quase entrando no ônibus. Difícil acreditar que, ao longo de quatro anos, ninguém disse ao goleiro que ele não é o culpado pela eliminação na África do Sul. E não é mesmo. Mas quem tem de acreditar nisso é o próprio.

FANTASMAS

Não é a pressão para ganhar a Copa que pesa sobre os ombros dos jogadores da Seleção Brasileira. É assim a cada quatro anos, em todos os mundiais. O que os persegue é o pavor do rótulo de perdedores de uma Copa em casa. Pior ainda, o pavor de se sentir e ser considerado responsável. É natural e prejudicial. Sim, há muito a favor dos anfitriões de uma Copa, mas também há muito contra.



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