DIAS 11, 12 e 13 – SÃO PAULO



(Nota pessoal: tenho mais um agradecimento a fazer à seleção espanhola. A eliminação precoce me permitiu passar os últimos quatro dias em casa. Um bônus inesperado no meio de uma Copa que prometia um mês e meio viajando. Gracias.)

As entrevistas coletivas de Louis Van Gaal têm estabelecido um ambiente de tensão respeitosa entre o técnico holandês e os jornalistas de seu país. Devo confessar meu interesse particular no tema.

Van Gaal, um casca grossa de fama mundial, aproveita suas aparições para estocar aqueles que criticam seu trabalho. E como seus alvos são numerosos e estão presentes, cada entrevista é o cenário para interações em que o embate fica evidente.

A questão é a forma como a Holanda joga esta Copa. O sistema preferencialmente utilizado, um 5-3-2 que se converte em 3-5-2 durante as partidas, é considerado defensivo demais para as tradições do país que se orgulha de ser uma das escolas que mais contribuíram para o desenvolvimento do futebol de ataque.

Setores da mídia holandesa reclamam das escolhas de Van Gaal, que rebate com os resultados até agora obtidos e com pesadas doses de sarcasmo. No meio do “conflito”, os jogadores – obviamente em posição difícil para comentar – tentam responder perguntas sem se comprometer.

O que chama a atenção é que o debate não se personaliza e não se rebaixa ao território do bate boca. As perguntas são duras, as respostas idem, e o jogo segue. Em comparação com o que nos acostumamos a ver no Brasil (em que a mesma narrativa estilo x resultado é comum), percebe-se um clima mais civilizado, em que inimizades não afloram e momentos constrangedores são evitados.

Na véspera do jogo contra o Chile, LVG estava contrariado pelo fato de seu treino fechado para a imprensa, realizado no Pacaembu, ter sido espionado por alguns fotógrafos. Informações sobre a possível escalação do time foram publicadas em jornais e sites holandeses, o que o técnico enxergou como “fogo amigo”. Um jornalista abriu a coletiva na Arena Corinthians com “pelo que pudemos apurar sobre o treino de ontem…”, senha para a alteração no semblante do técnico.

Van Gaal, por equívoco, e como a enorme maioria de seus colegas no mundo todo, entende que a imprensa holandesa tem o dever de ajudar a seleção. Ou, pelo menos, não atrapalhar. “Deveríamos estar na mesma página, mas pelo jeito não conseguimos”, reclamou. O elogio de um jornalista estrangeiro à campanha da Holanda na Copa lhe devolveu o sorriso, acompanhado de um golpe de ironia: “obrigado, mas ainda tenho de convencer a imprensa de meu país de que estamos jogando bem”.

O principal argumento de LVG é o melhor aproveitamento do grupo que tem em mãos. Ele tem dito repetidas vezes que o sistema é resultado das características dos jogadores, não o contrário. A posição pode estar correta, em teoria, mas perde de vista o que é óbvio: foi Van Gaal quem escolheu os nomes. Uma coisa é um técnico assumir um clube com elenco formado por outro profissional e dizer que faz o melhor com o que está disponível. Outra é usar a mesma linha de posicionamento em relação ao próprio time.

Os críticos respondem com o currículo holandês em copas, que não tem títulos mas tem jogo. A participação laranja na África do Sul, onde, excluindo a final, a Holanda venceu jogando bem, tem sido lembrada com frequência. Van Gaal está vencendo e os vencedores, até que as coisas mudem, têm sempre a última palavra.

Van Gaal também tem uma conspiração cósmica a favor de seu sistema, comprovada pelo número de gols que a Holanda marcou nas três vitórias na fase de grupos da Copa: 5-3-2.

Ontem, contra os chilenos, o primeiro gol praticamente decidiu a ordem dos classificados no grupo B, já que à Holanda bastava o empate para ficar em primeiro lugar. O gol de Fer foi produto de um erro defensivo dos chilenos, provocado por uma substituição feita na seleção holandesa.

O cabeceio para a rede foi apenas o segundo toque de Fer na bola. Ele tinha acabado de entrar no jogo, em substituição a Sneijder, que era o jogador que o Chile não precisava marcar em lances de bola parada, exatamente por ser o cobrador de faltas e escanteios.

Sem Sneijder em campo, a defesa chilena cometeu um lapso mental ao não notar a presença de um homem a mais na área. O escanteio rapidamente foi cobrado para trás e o cruzamento achou Fer com toda a liberdade. Os chilenos deixaram o estádio lamentando a falha decisiva em um jogo que, até então, estava trancado por uma batalha tática entre LVG e Jorge Sampaoli.

O clima entre Van Gaal e os jornalistas holandeses não melhorou após mais uma vitória.

Pouso autorizado. Desligar equipamentos eletrônicos. No Rio de Janeiro, tempo bom com 27 graus celsius.



MaisRecentes

Anormal



Continue Lendo

Saída



Continue Lendo

Em controle



Continue Lendo