DIAS 7, 8 e 9 – RIO



Voo de volta para Curitiba atrasado. Momento propício para escrever.

Imagine como serão os próximos dias na concentração da seleção espanhola. Há uma partida a ser disputada na próxima segunda-feira (o encontro dos eliminados, com a Austrália), e alguns terão de treinar até lá para um amistoso de despedida.

E os que não estarão em campo, figuras importantes nos últimos anos, terão de encontrar uma forma de fazer o tempo passar.

A temporada acabou, a Copa do Mundo também. Quem diria?

Pelo que vimos, pelo que sabemos e pelo que os jogadores disseram, não é difícil entender o que se passou com a Espanha nesta Copa. Um time saciado pelas conquistas, com alguns jogadores que provavelmente não deveriam estar aqui, longe da forma ideal no aspecto mental.

Não se poderia esperar de Vicente Del Bosque a renovação que agora se impõe (talvez por outro treinador), pois o técnico sempre esteve em situação delicada no que diz respeito aos jogadores escolhidos.

Pense em uma convocação sem Xavi, Alonso, Casillas… Pense na eliminação de um time sem esses jogadores, que venceram tudo com a camisa da seleção. Parece lógico que Del Bosque tenha dado mais uma chance a quem esteve com ele nesta época frutífera que ontem chegou ao fim.

Quando o prazo de validade de grandes times expira, eles já foram vencidos pelos próprios males e pelo tempo, antes mesmo de serem expostos pelos oponentes. O futebol também tem seu processo de seleção natural. E quando o declínio é repentino, a última imagem é sempre feia, triste.

A quantidade de vezes que os jogadores espanhóis e o próprio Del Bosque declararam que “é muito difícil repetir um título mundial” mostra que a dúvida fazia parte do ambiente. Talvez a ideia de alcançar as semifinais significasse uma missão cumprida para este grupo, uma retirada honrada e digna de aplausos. Não chegou nem perto de ser possível.

Esse foi o principal lamento dos jogadores ao passar pela zona mista do Maracanã. Um sentimento de que este time não poderia ter ido embora envolto pela melancolia de uma semana de gols sofridos e sensações ruins.

A Espanha se foi. Desta Copa e de seu posto de honra no futebol mundial. Foram anos de troféus e lições, um apogeu inesquecível e uma imagem decepcionante no final. Como acontece com os grandes atores, as grandes bandas. Terminam como fantasmas do que foram um dia.

Pessoalmente, não lamento pelo fim do ciclo. Prefiro ser grato pelo que pude ver e, em alguns momentos, acompanhar de perto. Espero que a transição geracional seja feita sem questionar a maneira de entender e jogar este jogo. Há bravura e beleza ao perseguir o que ninguém faz, por ser mais difícil, mais trabalhoso, e, em certo aspecto, mais valioso. Há indícios de que as categorias de base espanholas poderão produzir times promissores, mas esse processo costuma levar tempo.

Que leve o tempo que precisar. Se a Espanha voltar a jogar como o time que gostaríamos de ter visto aqui no Brasil, a espera terá valido a pena.



  • David

    Gosto de enfatizar que pra mim, o estilo não acabou, mas esse elenco, como um todo, sim. Precisa se oxigenar, como clubes vencedores também o fazem.

    Compartilho da sua gratidão por ter visto esse reinado Espanhol, André.

    E além disso, acho justo também que se dê crédito aos espanhóis pela influência desse estilo posse de bola e organização de jogo por uma coleção de meias (e não necessariamente volantes) no meio campo, que se espalhou por diversos outros times, e hoje continua em outras versões, dominando o futebol vencedor do mundo.

    Acho também que temos que lamentar esse fim melancólico, e que isso poderia ter sido evitado, se outras decisões fossem tomadas em prol dessa oxigenação do elenco, ou time titular, ja pra essa copa, fazendo assim uma transição de gerações e adaptação de estilo, sem a necessidade de ser derrotato e desmoralizado frente ao mundo todo.

    Alguns jogadores com mais gana e intencidade de jogo, mesmo mantendo o estilo, trariam outro folego pra esse time. Isso fora o fato de que a ausência de alguém como o Thiago nesse meio campo foi muito mais sentida do que se esperava.

  • Li este texto e lembrei de você. Vale a leitura. Tenho certeza de que gostará. Xavi e a seleção espanhola.

    http://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2014/06/19/a-espanha-comecou-e-acabou-com-xavi-e-nunca-mais-sera-a-mesma.htm#comentarios

    Abs

    • Caio

      Po eu vim aqui justamente pra linkar esse texto!

      Sou muito grato por ter visto essa geração espanhola. Só não mais que cada torcedor do Barcelona, em cada fim de semana no Camp Nou.

      E acho que essa geração começou a morrer ainda naquele jogo contra o Bayern, na semifinal da champions da temporada passada. Você já tinha falado isso por aqui, André. A seleção espanhola sempre foi reflexo do Barcelona inacreditável de Messi, Xavi e Iniesta.
      Essa grife eu não vou esquecer jamais: o Barcelona de Messi, Xavi e Iniesta!

      Não sei se eu verei isso de novo. Uma supremacia tão gigantesca de um grupo de jogadores, como time e como seleção.

      E o Barcelona é tão abençoado que teve a sorte de o Messi não ser espanhol!

      Valeu muito, muito mesmo.
      Valeu demais!

  • José Henrique

    Não gostei da eliminação da Espanha, embora reconheça que mereceu sair, mas foi muito bom apreciar o futebol dessa seleção enquanto durou.
    Não sei se o “tic-tac” poderá ressurgir, pois exige muita qualidade técnica de todas as peças, o que é difícil de viabilizar, principalmente no futebol espanhol que produziu uma boa safra, mas é um mercado importador.
    Mas vai entrar para a história, assim como o Brasil de 70 e 82, e da Holanda em 74, como um dos grandes times de futebol.
    Torço para que o futebol que apresentou ressurja, mesmo em outras equipes, porque realmente o toque de bola encantou a mim, e a muitos com certeza.

  • Juliano

    Brilhante a forma que fecha o texto, AK. Mais triste que ser eliminada na primeira fase, foi a maneira. Inapelável, sem reação. Uma pena mesmo. Assim sendo, mesmo que as oitavas não estejam definidas, tens idéia de qual seleção deverá acompanhar a partir da segunda fase do torneio?

    Triste também a Inglaterra. Muito bravos, tanto contra a Itália como quanto o Uruguai. Feliz apenas por Rooney ter conquistado seu gol, nenhum atleta merece este estigma.

    Chile elimina Espanha, Uruguai praticamente elimina Inglaterra, Colômbia fazendo boa Copa. Muito legal para o povo deste continente mais sofrido. Falta agora a seleção do Brasil fazer uma boa partida.

    AK, estou estranhando os gramados ruins (pelo menos visto pela TV). A grama aparenta estar queimada, morta, em algumas arenas que nem jogos vinham tendo. Para ser justo, os que parecem sim estar em ótima condição (de novo, pela TV), são o de Brasília e o de São Paulo.

    Abraço!!

  • Fabio

    Qualquer semelhança com o Corinthians de Tite não é mera coincidência, tanto na gratidão pelos momentos vividos como na consciência que a queda era inevitável. Mérito aos dois técnicos que “morreram abraçados” a seus comandados e seus ideais.

    Além disso, interessante notar que os 3×0 da final da Copa das Confederações que na época foram tratados como um “acidente de pecurso” foram na verdade o princípio do fim de uma era

  • Lucas

    Logico que nao quero aqui justificar a eliminacao da Espanha que foi muito mal. Mas os grupos nessa Copa estao muito desnivelados entre si. Alguns grupos bem fortes – ja sao 2 campeoes mundiais elimindados – e outros ridiculos. O grupo da Argentina e’ risivel. Bem como o da Colombia e da Franca.
    Culpa dos criterios. Ao eleger o ranking da FIFA como parametro para cabecas de chave se criou essa distorcao. Nao da pra justificar a Colombia ser cabeca de chave.
    Quem deu sorte foi a Argentina que esta com um caminha facil demais. Ja a colocaria nas quartas…
    Que seja revisto para a proxima. Cabecas de chave devem ser os campeoes Mundiais.

  • A Espanha realmente apresentou um futebol bonito, campeão europeu (bi) e do mundo. Mas na copa das confederações deu mostras do desgaste do time e do estilo, não foi apenas vencida pelo Brasil, foi dominada durante o jogo. Na copa passada, não apresentou seu grande futebol, mas venceu a copa, ganhando de 1×0 até na final. Tá de bom tamanho o que conquistaram.

  • Matheus Brito

    Lamento que a última copa do Xavi tenha sido assim. Uma tragédia anunciada para uma seleção que me encantou. Sempre vejo meu pai falar dos times de 70, 82 e da Holanda de 74. Esses times marcaram época porque influenciaram o mundo do futebol de uma forma ou de outra. No caso dessa Espanha, fica aqui o meu muito obrigado. Eu vi, não vou apenas ouvir alguém falar. Da mesma forma que vi o Barça de Messi, Xavi e Iniesta. Ninguém me contou. Eu vi, e um dia serei eu a contar o que vi e vivi.

  • Alan Bezerra

    Independente do que a Espanha vier a apresentar no futebol em seu futuro – que deve ser bom – ficará para mim a imagem da supremacia absoluta durante 4 anos (08-12).

    O tiki-taka pode ter sido superado, mas os jogos em que ele foi executado com maestria são inesquecíveis. Espero que no futuro possa ver outro estilo de jogo que seja tão encantador quanto foi esse do Barça e da Espanha de Xavi.

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