COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

GPS

O trabalho de jornalistas nos estádios de Copa do Mundo é sempre igual. As coletivas oficiais e os treinos, na véspera. No dia seguinte, o jogo, as entrevistas, a repercussão. O cenário acompanha a dinâmica. A FIFA não padroniza apenas a imagem que converte todos os gramados em um. Por dentro, os estádios também são iguais.

Não faz diferença se você está em Manaus, Berlim, Cidade do Cabo ou Saturno. No momento em que atravessa o detector de metal e sua credencial é conferida pelo código de barras, você entra em um território chamado Copa do Mundo. As aparências, os sons, o cheiro e as sensações são tão semelhantes que confundem até os observadores mais atentos. Some-se isto ao fato de não estarmos acostumados a um Mundial realizado no Brasil, e o que resulta é um estranho estado de desorientação.

Jornalistas brasileiros têm sido frequentemente abordados em outras línguas por voluntários que trabalham nos estádios. Situação curiosa. Se o voluntário não identifica logo um traço de brasilidade na pessoa que se aproxima com cara de interrogação, decide que é melhor falar em inglês. Os diálogos duram até os dois lados perceberem o engano, rirem da própria ingenuidade e recomeçarem a conversa em nossa língua mãe.

Aqueles que cobrem seleções que não a brasileira estão mais expostos ao fenômeno, imersos em ambientes dominados por outros idiomas. A cobertura da Espanha, concentrada em Curitiba, apresentou momentos de surrealismo na semana passada. Dois tradutores foram substituídos pela Real Federação Espanhola de Futebol por não fazer o que se pediu a eles. O primeiro não compreendia o que os jogadores diziam. A segunda não identificava termos futebolísticos. Durante uma entrevista de Diego Costa, o atacante nascido em Sergipe respondeu em português a um jornalista brasileiro e o tradutor não soube o que fazer. A sala, como se fosse uma embaixada do país ibérico, foi preenchida por risos nervosos.

Há relatos de colegas que, por conta das viagens constantes, esquecem de que estão no lugar em que vivem e, ao final do dia, se pegam pensando em como ir para o hotel. Efeitos da novidade representada por um evento que sempre aconteceu longe daqui, e que agora se desenrola em nossos estádios, nossas cidades, nosso país.

Um evento que está bonito dentro dos estádios, como se esperava, e ótimo dentro das quatro linhas. Há problemas, claro, como a ausência de comida nos bares da Fonte Nova (sem o devido aviso, o que pouparia a reação irritada de quem, após a longa fila, descobriu que só poderia contar com refigerantes para matar a fome) antes de Espanha x Holanda. Mas a exibição dos holandeses – os que estavam de azul, em campo, e os que coloriram o magnífico estádio baiano de laranja – saciou quem tinha desejo por bom futebol.

As imagens padrão FIFA da televisão enganam. Nossos estádios não parecem nossos. Mas são, e essa é a parte boa da história nos centros onde existe futebol para ocupá-los quando a festa acabar. Tudo está acontecendo aqui, por mais estranho que seja.

VIAGEM

Daley Blind para Robin Van Persie, contra a Espanha. Andrea Pirlo, sem tocar, para Claudio Marchisio, contra a Inglaterra. Dois lances majestosos, que evocam uma época em que o futebol reservava um lugar de honra para aqueles que também sabem jogá-lo com a cabeça. Dois momentos de brilho nesta Copa que se inicia.

MAESTRO

Sobre Pirlo: costuma-se chamá-lo de inoxidável e vê-lo como alguém aperfeiçoado pelo passar dos anos. Seria maravilhoso se o processo continuasse sem que o tempo impusesse o final. Estamos acompanhando os últimos jogos de Pirlo com a camisa da Itália, e isso não deixa de ser triste. É impossível vê-lo jogar sem pensar na falta que ele fará.

EQUÍVOCO

Patriotas fervorosos, que defendem o Brasil a todo custo e sacrificam as próprias vidas belo bem da nação, transformaram Diego Costa em traidor. Curioso como pessoas tão erradas conseguem se convencer de que estão certas.



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