COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

PRODUTO

Aqueles que já experimentaram as duas situações garantem que a estreia de uma Copa do Mundo provoca mais nervosismo do que a final. Esse é um dos motivos pelos quais se costuma dizer que o que importa, em estreias, é vencer. O que significa que vencer jogando mal é compreensível. Mesmo se você é a Seleção Brasileira, em casa, enfrentando um adversário inferior.

Vencer a Croácia com dificuldades teria sido apenas mais uma estreia sem brilho, mas com resultado, na história da Seleção Brasileira em Copas. Nada que já não tenhamos visto. Mas uma coisa é uma vitória que não encanta pelo desempenho, outra coisa é uma vitória controversa. Assim podemos classificar os 3 x 1 na Arena Corinthians.

Quando o árbitro japonês Yuichi Nishimura – por que foi escalado, tendo em vista seu histórico? – marcou pênalti de Lovren em Fred, a Croácia empatava com o Brasil com apenas dois chutes (terminaria a tarde com quatro) no gol. Eram vinte e quatro minutos do segundo tempo, fronteira do território em que o drama se instala em jogos de futebol como este.

Em defesa de Nishimura, o único argumento que pode ser usado é a despreocupação de Lovren em viver perigosamente. Quando um zagueiro põe a mão no ombro de um atacante dentro da área, perde o controle do próprio destino. É como se dissesse ao árbitro: “o senhor não vai marcar pên…”. Se o atacante cair, a resposta de um apitador de sopro fácil – e isso é exatamente o que Nishimura pareceu – pode ser: “mas é claro que vou”.

Não foi pênalti. E só há uma coisa mais enervante do que a Seleção Brasileira precisar de um equívoco da arbitragem para tomar as rédeas do jogo: o fato de o resultado da abertura de uma Copa do Mundo ter sido influenciado de tal forma, e a favor do time da casa, por esse equívoco. A notícia de que a FIFA considera o uso de vídeo para dirimir lances duvidosos no futuro não alivia o incômodo. Ao contrário, nos recorda que esse tipo de dano ao jogo já não deveria acontecer há muito tempo.

Não, a mão da arbitragem não esconde o que aconteceu de bom em Itaquera. As lágrimas de Thiago Silva no túnel, a volta em magnífico estilo do hino cantado pelo estádio, que levou jornalistas estrangeiros experientes em eventos esportivos a dizer que jamais tinham visto algo parecido em qualquer lugar, e a compostura de Neymar, ao resgatar seu time como se tivesse várias Copas no currículo.

Mas acima de tudo, a tarde foi de Oscar. Uma exibição de esforço, sacrifício e classe que não se vê frequentemente, simbolizada pela jogada do gol de empate. Oscar explorou a debilidade de marcação do meio de campo croata para ir à briga na zona em que um desarme é crítico. Arriscou-se no trabalho de jogadores mais corpulentos, pois sabe que a bola em seus pés está na primeira classe. Neymar certamente concorda.

Superado o estresse da estreia, está claro que a Seleção precisa jogar mais. Em primeiro lugar, para que suas vitórias sejam fruto do próprio desempenho.

APITO INIMIGO

Desastrosa atuação da arbitragem na vitória do México sobre Camarões. Pênalti inexistente sobre Diego Costa marcado em Espanha x Holanda. A epidemia de erros no início da Copa divide a atenção mas não diminui o problema. O apito não pode ser a manchete de um torneio em que trabalham, em tese, os melhores árbitros do futebol. É preciso avançar nessa questão com o conhecimento e os mecanismos que existem faz tempo.

LARANJA CRUEL

Quatro anos atrás, a Espanha iniciou a Copa da África do Sul com derrota para a Suíça, em um jogo que merecia ter vencido. O que aconteceu ontem em Salvador foi totalmente diferente. A Holanda não só venceu, não só goleou, como humilhou e feriu moralmente, com gravidade, os atuais campeões do mundo. A revanche da última final não valeu um título, claro, mas complicou a classificação da Espanha.



  • Willian Ifanger

    André, não sei se você tem conseguido acompanhar todos os jogos em sua totalidade, mas eu não me lembro de 3 dias de Copa com jogos tão bons assim (dentro do possível).

    Acho que o momento mais incrível da Copa até agora foi a invasão colombiana em BH. Que coisa fora do normal, linda (hoje no Rio a torcida argentina deve superar).

    E as torcidas latinas tem levado os estádios aos pulmões (o que só faz a gente agradecer cada vez mais o dia que os baianos jogaram as malditas caxiloras no gramado e sepultaram essa aberração).

    A Copa, como evento humano, está perfeita.

  • RENATO77

    Mais uma análise precisa.
    “Quando um zagueiro põe a mão no ombro de um atacante dentro da área, perde o controle do próprio destino. É como se dissesse ao árbitro: “o senhor não vai marcar pên…”. Se o atacante cair, a resposta de um apitador de sopro fácil – e isso é exatamente o que Nishimura pareceu – pode ser: “mas é claro que vou”.”
    Muito bom…rachei.
    Oscar, que resposta em campo!
    Felipão, como tem sorte esse cara! Substituições que reduziram a estatura da equipe, aumentando o risco do que JÁ era temido, perigo nas jogadas aéreas. Minutos depois, o japa aponta a marca do penalti…
    Estou achando o nível dos jogos melhor do que o esperado. Boa média de gols.
    O evento, até agora, sem grandes problemas. Ainda bem!
    Abraço.

  • Ednaldo

    André, queria comentar duas coisas: 1) os erros de arbitragem são recorrentes em todas as copas. Alguns até decidiram em favor do campeão. Colocar esse erro do pênalti para o Brasil como melhor assunto para comentar é supervalorizar o óbvio. Somos muito críticos nisso. A mão de Maradona até hoje é reverenciada na Argentina. Mais importante é ver a postura do time, que trouxe algumas fragilidades perfeitamente contornáveis ao longo (curto) do torneio; 2) Acho que a humilhação sofrida pela Espanha pode virar uma oportunidade única para levantar a moral. Time bicampeão da Eurocopa, campeão mundial, jogadores consagrados, em tese não tem muito desafio. Se a derrota fosse minguada, acho que seria encarada como normal e a Espanha daria de ombros. Mas da forma que ocorreu, o técnico não vai perder a oportunidade de mexer com os brios da hombridade espanhola. Como é que é? Vamos aceitar isso passivamente? Ou vamos mostrar quem somos? Se partir daí, a Espanha pode escrever novo capítulo desse torneio que a Fifa transformou num grande show comercial.

  • Juliano

    Estou de acordo com tudo, AK!
    Passados os erros de arbitragens nos 3 primeiros jogos, até aqui os demais correram bem. Jogos muito bons, sempre com gols (média boa!) e até o momento nenhum empate. A competição esportiva, dentro das 4 linhas vai muito bem (quando nenhum apitador erra)!

    Confesso que, mesmo torcendo pela seleção de nosso país, e mesmo tendo grande simpatia pelo Neymar, torci para que aquele penalti não fosse convertido em gol, por uma questão de justiça, e torcendo para que depois conseguisse desempatar com gol sem interferência. Ingênuo, eu sei.

    O hino emociona, como emocionou ano passado. Legal ver jogadores que já viveram uma copa, que estão economicamente muito bem, serem tocados ainda. Muito bom mesmo! As torcidas de Chile e Colômbia fizeram o mesmo, tocante também, apesar de estarem em menor número.

    Apenas uma pequena visão pessoal a respeito do nervosismo: ele existe, claro, mas também serve de desculpa, de desconto. Por que nossa seleção tem tratamento tão “especial”? Digo isso porque vi uma Holanda ser operada com um penal inexistente, no jogo de estreia, contra o atual campeão, que a derrotara na última final, fazer tudo o que fez no seu jogo de estreia! Que nervosismo o da Holanda, né?

    Abraços!

  • Anna

    A vitória da Holanda foi humilhante, mas ainda acredito na classificação de La Roja. Van Persie fez o gol mais lindo da Copa até aqui. Este foi o melhor jogo disparado! Bom domingo, Anna.

  • Gustavo

    André,

    Sua análise é precisa. O penalti mandrake empanou muito o brilho da festa na estréia vitoriosa. Mas o que mais me irritou foi a versão surreal que o Fred sustentou. Patética a cena em que ele levanta as mãos pro céu, provavelmente agradecendo por ter conseguido enganar o japonês.

    Abraço

  • E olha que coisa, André: a “tecnologia da linha-do-gol” ajudou justamente um árbitro… brasileiro! Será que não rola um #setoca ou um #ficaadica pro futebol brasileiro deixar a era pré-histórica e melhorar a arbitragem?!

    #sqn

    Abraço!

  • Wagner

    É fato que os erros de arbitragem ajudaram o Brasil nessa primeira rodada. O “erro que decide”, post de 14 de abril de 2014, pode ser reescrito e utilizado para o fim dessa partida. É a lógica matemática, o terceiro vem depois do segundo, mas o Brasil só chegou ao gol de número 3 porque a Croácia teve que se abrir para recuperar o prejuízo causado pelo apitador. Não preveria, naquele momento, quanto seria o jogo, mas uma coisa é segurar um placar outra é ter que correr atrás, arriscar e se abrir para uma seleção que conta com o talento e velocidade de Neymar. Além de tirar o brilho da vitória, camuflou as deficiências da seleção. Vou um pouco além, no dia seguinte o México teve dois gols mal anulados. Hoje, essa seleção seria a primeira e nós, os segundos do mesmo grupo. Se não fosse o apito amigo, as coisas estariam bem piores. Sobre o pênalti, não foi e nunca seria. O zagueiro nem puxou o Fred. É o típico lance de redução de espaço. Nosso atacante se atirou e depois vem com a maior cara de pau a público dizer que sofreu falta. Faça-me o o favor. Parece-me até que isso foi combinado. Enfim, fiquemos atentos às cenas dos próximos capítulos.

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