DIAS 4 e 5 – SALVADOR



E aqui estamos novamente, no ar, voando de volta para Curitiba.

Salvador estava repleta de holandeses desde quinta-feira, roupas laranjas sobre a pele rósea de quem acusa a mínima exposição ao sol. Eles já estavam bebendo e celebrando bem antes de sua seleção destroçar os campeões mundiais na Fonte Nova. Calcule o que fizeram depois.

Em uma casa de carnes no Rio Vermelho, cantavam e dançavam sobre as cadeiras, tiravam fotos com garçons e crianças. Extraordinário ambiente que nos relembra que a Copa do Mundo de futebol, o maior evento esportivo que existe, está acontecendo aqui no Brasil.

Os 5 x 1 sobre a Espanha foram o grande jogo da Copa até agora, o que pode continuar sendo verdade até o final, mesmo que tenha sido “apenas” uma partida da primeira rodada. O jogo mudou de rumo de maneira espetacular após o intervalo e entrou para o livro das Copas com muito mais do que um registro formal.

Foi o pior resultado de uma seleção campeã na defesa de seu título. Foi a primeira vez que a Espanha levou cinco gols desde a década de 60. Foi mais do que uma derrota, mais do que uma goleada, mais do que uma humilhação.

É obrigatório aplaudir a postura da seleção holandesa, antes e depois de o jogo estar decidido. A escalação de cinco jogadores primordialmente defensivos fez muita gente imaginar uma equipe recuada, decidida a especular e esperar por um lance de Sneijder para Robben ou Van Persie. A Holanda fez o oposto.

De Jong e De Guzmán jogaram avançados desde o início, em uma posição de extremo risco por causa do espaço entre eles e os zagueiros. Dar campo aos meias espanhóis é brincar com a sorte, mas sentar na frente da própria área é o expediente de quem não tem ambição. Nos últimos anos, times que se portaram assim (a própria Holanda na final em Joanesburgo, por exemplo) pediram por uma derrota lenta e inevitável.

A última linha holandesa ficou exposta em vários momentos no primeiro tempo, como na jogada do pênalti – um presente do árbitro – e no lance em que Iniesta deixou Silva em posição de marcar o segundo gol. Mas a coragem e o atrevimento do time de Van Gaal fizeram o mesmo com os espanhóis, explorando, principalmente, a distância entre Piqué e Ramos.

O passe de Blind para o golaço de Van Persie foi fantástico. E o que parecia um acidente, uma falha isolada da defesa da Espanha, mostrou-se a tônica do segundo tempo, quando Robben e RVP fizeram os campeões do mundo se sentirem lentos, fracos, perdidos. Foi incrível ver de perto esses dois jogadores em ação.

O que surpreendeu na Espanha foi a forma como um time tão vencedor se permitiu desabar em campo após o empate. E a ausência de pressão coordenada em todo o campo, marca da equipe em seus melhores dias. Ainda é cedo para declarar a Espanha acabada e a Holanda favorita ao título, mas, para os atuais campeões, as coisas parecem mais graves do que um placar vexatório.

O que aconteceu ontem em Salvador não tem nenhuma semelhança com a derrota para a Suíça, há quatro anos. Aquele resultado foi injusto, este foi absolutamente merecido. Vejamos como a Espanha se comporta na quarta-feira, contra o Chile, lembrando que o segundo colocado neste grupo B muito provavelmente terá um encontro com a Seleção Brasileira nas oitavas de final.

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Uma atualização em relação ao que escrevi sobre o tratamento dispensado a Diego Costa nos estádios brasileiros. Não, ele não será compreendido. Foi vaiado na Fonte Nova a cada vez que tocou na bola e ofendido em diversos momentos. Ao que parece, Diego é o símbolo do que está errado no país. Um traidor que se juntou a forças inimigas e empunhou armas contra a nação, o alvo de patriotas verforosos que defendem o Brasil a todo custo.

A propósito: o que penso sobre o hábito de ofender pessoas em estádios está aqui, em um texto de fevereiro deste ano.



  • Saulo Renan

    Parabéns, André Kfouri.Excelente análise do jogo e melhor ainda sobre o caso Diego Costa.Um desrespeito a um sergipano que fez uma opção,sem dúvida alguma,difícil,mas que apesar de tudo deve ser respeitado.

  • Boa tarde André.
    Essa proeza da Holanda me deixa realmente satisfeito, pois torci bastante por eles na final de 2.010. Pelo futebol ofensivo, pelos belos jogos protagonizados com o Brasil em 1994/1998. No seu post do dia 11/06 escrevi o seguinte comentário:

    “André, independentemente da cor branca ou da sexta-feira 13, acredito que a Holanda desbancará a Espanha, e mais, a campeã vai ter dificuldade para passar de fase. Não vejo o futebol espanhol com a mesma força, embora seja “quase” o mesmo time.”

    Agora é esperar para ver segunda rodada. Se os campeões vão se recuperar diante do Chile ou repetir a França/2002 e Itália/2010

  • José Henrique

    Qual a diferença entre esses xingamentos e as imitações de macaco ou arremesso de bananas no estádio.?
    Impressionante a incoerência e intolerância que hoje acomete os torcedores de futebol.
    O futebol agora é a válvula de escape para desabafo das frustrações de grupos ou pessoas, que o usam para instrumento político, e de pressão para estimular inclusive a violência.
    Lamentável. Lembremos que uma das estratégias para subverter uma nação, era desacreditar ou desmoralizar as instituições, estimular a luta de classes, a desagregação familiar.
    Aqui parece que escolheram o futebol como o alvo principal a ser desacreditado e desmoralizado.
    Os agentes desse esquema, com certeza devem estar muito felizes.

  • Guilherme Gios

    André,

    Da mesma forma que se vaia aqui um jogador que troca seu time pelo rival (ex. Ganso, Ricardinho, etc..). Faz parte do jogo, é esporte, é rivalidade, é torcida. Quantos brasileiros não sonharam em se tornar jogadores de futebol? Quantos deles não sonharam em vestir a amarelinha? O Diego Costa teve essa oportunidade e não quis. Normal que seja vaiado, criticado. É natural, é humano.
    Na minha visão é totalmente diferente você xingar um juiz num estádio (sendo que você está agredindo a figura, o cargo e não a pessoa em si) à xingá-lo ao encontrá-lo na rua, por exemplo.

    Abraço!

  • Joao

    Andre,

    Me parece que a perseguição da torcida ao Diego Costa foi inflamada pela dupla Felipao/Parreira com declarações que nao cabiam alguns dias atrás. Veja que o mesmo nao ocorre com outros brasileiros como Tiago Motta, etc.

    O Zé Elias falou sobre isso no Bate-Bola com excelencia, dizendo que Felipao trabalhou na seleção portuguesa e Parreira em diversas outras copas em outros paises, e nao deveriam de forma alguma terem feitos tais discursos.

    Abraço

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