COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

O QUE É ISSO?

No país da Copa, o campeonato prossegue enquanto o futebol se prepara para o Mundial. Mas quem está na chamada “lista de espera” da Seleção Brasileira precisa de autorização da FIFA para jogar. Um time do Rio de Janeiro e outro de Santa Catarina se enfrentam em um gramado paulistano, porque é o que se pode arrumar diante do embargo a estádios que serão utilizados pelas seleções a partir do dia 12. A exceção é o local da abertura, que precisa ser testado e provoca uma inversão de mando que altera o espírito da competição.

Em Feira de Santana, a noite de quinta-feira se converte em uma experiência tenebrosa para centenas de pessoas. Entre elas, crianças que certamente pedirão a seus pais que jamais voltem a um jogo de futebol. Vítimas da calamidade organizacional que nos caracteriza, prensadas contra o alambrado por causa da superlotação, dominadas pelo pânico que tomou o lugar das sensações que deveríamos proporcionar a quem sai de casa para ver seu time.

A sorte prevalece e evita uma tragédia transmitida ao vivo pela televisão. As imagens mostram com arrepiante clareza o que poderia ter acontecido. As explicações recuperam com irritante desfaçatez o hábito nacional de negar responsabilidades. De modo que os erros que por pouco não provocaram mortes não foram cometidos por ninguém. Se os dedos devem ser apontados para alguma direção, portanto, talvez seja na dos próprios torcedores, “culpados” por estar ali em número tão excessivo.

É verdade. Eles estavam no lugar errado. Porque um jogo do Campeonato Brasileiro da Série A, o mais importante do país anfitrião da Copa do Mundo, jamais poderia ser um evento em que se corresse esse tipo de risco. E acima de tudo porque o campeonato não deveria estar em andamento a menos de quinze dias para a abertura do Mundial.

Barbaridades como essa estão no centro da discussão sobre a reforma do calendário do futebol brasileiro (e por favor, não mencione a falácia da “temporada apertada” ou, pior, do “ano atípico”. Ninguém sabe quando a Copa do Mundo acontece?), que alcançou a presidente da república com a visita de integrantes do BSFC a Brasília. Mas torcedores de dirigentes – o subproduto mais ridículo do fanatismo e da falta de senso crítico – preferem reverberar o discurso dos cartolas que privatizam seus clubes e são refratários ao avanço.

Alguns desses cartolas, talvez a maioria, não veem problemas em se comportar como púberes e entendem que estão em posição de provocar rivais, às vezes até por escrito, de maneira oficial. Rebaixam-se do nível gerencial à arruaça das facções, aplaudidos pelos desclassificados que os acompanham às gargalhadas. Nada é mais parecido com o estereótipo do político brasileiro do que o dirigente de futebol.

Essas condutas ajudam a explicar por que o Campeonato Brasileiro é isso que vemos. E por que uma liga de clubes, outro passo adiante que deveria ser prioritário, é algo tão possível quanto a amizade entre cobras e sapos. No lugar de uma sociedade lucrativa em todos os aspectos, os iluminados preferem estabelecer uma cadeia alimentar.

DÚVIDA

A Copa vai começar e a palavra que melhor descreve o clima é preocupação. Os estádios, os aeroportos, as manifestações, o trânsito, o celular… reflexo de como as coisas foram feitas, das que não foram, do que se prometeu ao vento e dos números que se multiplicaram como se não fizesse diferença. Mais ou menos como o sujeito que gasta o que não tem na festa de aniversário da mulher, e, atormentado, se vê incapaz de aproveitar o momento. A festa se converte em um martírio que quanto antes terminar, melhor. É provável que quando as seleções mais cotadas estiverem por aqui o ambiente se transforme e se passe a falar mais de futebol. Mais ainda, claro, quando a coisa começar para valer. Mas por enquanto o que se tem é dúvida. Não a dúvida gerada pela ansiedade, mas a que acompanha o pessimismo. Sensação de oportunidade perdida.



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