COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

VERGONHA ALHEIA

Desde o inesquecível “chute no traseiro”, esta Copa do Mundo tem sido uma generosa fonte de declarações. Jérôme Valcke, autor da reprimenda ao andamento dos trabalhos por aqui há dois anos, perde o humor quando a frase volta ao debate público, mas não esconde a expressão de “eu avisei” a cada notícia sobre prazos desrespeitados e soluções de emergência.

Eis que Ronaldo, membro do Comitê Organizador Local, concorda com o secretário-geral da FIFA. A repentina revelação de seu constrangimento com os atrasos pode ter sido fruto de interesse ou sinceridade, o que não faz diferença em termos de repercussão. O maior artilheiro da história dos mundiais, segundo rosto mais famoso a serviço da “Copa das Copas”, deu a Valcke seu aval. Não há duas maneiras de entender o que Ronaldo disse. Ele tem conhecimento de causa.

É trágico concluir que ao menos agora, a dias da abertura, os dois lados da organização do evento estão na mesma página. Faz tempo que a FIFA e as diferentes esferas brasileiras à frente da empreitada têm se estocado publicamente, em uma dinâmica que se transformou com o passar do tempo. A princípio o país se defendia dos ataques de Zurique, na esperança de se fazer respeitar pelo sócio. Logo passou a falar em tom menos preocupado com as aparências. Ultimamente, quando a parceria ultrapassou o ponto sem retorno, ambos os extremos da mesa adotaram a postura de um casal a caminho do divórcio. O que um diz na frente do outro é uma amostra contida do que se comenta pelas costas. Imagine.

Um exemplo claro, mais um, da falta de sintonia foi a forma como se tratou do teste do estádio onde Brasil e Croácia jogarão no dia dos namorados. O COL adorou o desempenho da Arena de São Paulo durante Corinthians x Figueirense, enquanto Valcke, de cima para baixo, lembrou que um jogo de Copa é algo muito mais complexo. A impressão que fica é que cada um tem como prioridade cuidar da própria imagem, péssimo sinal para uma sociedade que deveria ter os mesmos objetivos.

Voltando à figura do casal em litígio, a declaração de Ronaldo fez o papel da sogra que dá razão ao genro. Aldo Rebelo expôs a crise na família ao afirmar que o Fenômeno chutou contra o próprio gol. O ministro do esporte, responsável por inúmeras infâmias nesta saga, não perderia a chance de acrescentar mais uma ao garantir que a Copa “não será motivo de constrangimento para o país que construiu a sétima economia do mundo e é o maior vencedor de todos os mundiais”. Como se vencer Copas fosse uma prova de capacidade para organizá-las.

Unidos pela vergonha de Ronaldo, e com o modo de sobrevivência ligado, a FIFA e o COL encontram conforto na certeza de que a Copa dentro do campo – aquela que viaja o mundo por intermédio das imagens oficiais – será bonita e que a Copa fora dos estádios já está perdida. Mas é salutar não esquecer que quem relatará o Mundial para os outros países são os jornalistas estrangeiros, que serão recebidos nas arenas pelas últimas instalações a ficar prontas. E que andarão pelas ruas como os brasileiros comuns.



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