COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

INTERVALO

O comercial de refrigerantes apresenta as semelhanças entre a vida e um jogo de futebol. O nascimento e a subida ao campo, o amor e o calor da recepção. Os primeiros anos e os primeiros minutos, fases sonoras e de pura eletricidade. A ilusão, o otimismo, a sensação de invencibilidade que nos domina durante a adolescência e nos movimentos iniciais de nosso time em campo.

O amadurecimento traz a identificação da oportunidade, a noção de que há momentos que surgem apenas uma vez, como uma chance de gol. A segunda metade de nossa existência, como o segundo tempo de uma partida, é a hora das mudanças, da experiência e das realizações. Já perto do fim, é quando olhamos para o relógio. Quando nos faltam pernas, mas não coração. “Porque na vida”, diz o texto, “como em uma partida da Argentina, se pode ganhar ou perder. Mas o mais importante é deixar tudo em campo”.

O comercial de cerveja faz um aviso. “Esperamos por muito tempo este encontro”, diz a narração, “então é bom que saibam com quem vão se encontrar”. E passa a apresentar os jogadores que virão disputar a Copa. O menino que tomou injeções para crescer e jogar o Mundial, o centroavante que nasceu na França mas escolheu a Argentina, o meia que está diante da última chance, o atacante que todos conhecem e temem. O texto menciona “um país que não dorme por este sonho”, “o povo que inventou algo melhor do que o futebol: o amor pelo futebol”. E encerra: “vão se encontrar com tudo isso”.

O comercial de refrigerantes nos faz olhar para dentro e nos reconecta aos mais primordiais sentimentos. O comercial de cerveja consegue o feito de aproximar seres aparentemente inatingíveis de pessoas comuns, o que nada mais é do que a razão deste jogo existir. Enquanto um nos arrebata com imagens emocionantes e nos transporta para a tela, o outro nos arrepia e nos relembra do que é torcer. As campanhas argentinas, a cada quatro anos, vencem a Copa do Mundo da publicidade por goleada.

É um conteúdo que inspira. Algo bem distante das musiquinhas que não comovem, do humor que não faz rir, das mulheres com pouca roupa ou do apelo aos guerreiros. Caminhos que povoam nossas telas. Sim, há conotação patriótica exagerada tanto lá como aqui, mas não é disso que estamos falando. O ponto é o uso das imagens e das palavras para estabelecer uma conexão. O ponto é o conceito que nos põe em contato com as razões pelas quais gostamos de futebol.

Há uma razão para ser assim e esse é o aspecto mais preocupante. As mundialmente famosas agências brasileiras estão repletas de profissionais de extremo talento, o que elimina um problema de criatividade. As marcas que se associam à Seleção encomendam peças a peso de ouro, portanto também não é uma questão de orçamento. E como tudo está baseado em pesquisa, a conclusão é que temos o que queremos. Ou o que merecemos.

Deveríamos ser melhores, especialmente em um ano de Copa em casa, em que a oportunidade de falar de futebol está 24 horas por dia no ar.



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