COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

UMA BOLA

1 – São Paulo e Corinthians passaram quase meia hora travados em um desses diálogos defensivos que encantam quem gosta de futebol pobre. Não se discute a necessidade – obrigação, talvez – de bloquear as forças do adversário, pois sem isso dificilmente se vence. O problema surge e se instala quando times parecem não ter nada mais a oferecer, como se o jogo se resumisse a não deixar jogar.

2 – As duas peças em campo de quem se poderia esperar elaboração demoraram a aparecer. Ganso e Danilo dependem de espaço e não são especialistas em se desmarcar. A bola que chega a eles não pode ser um pedido de socorro, mas uma proposta de parceria. Seus times devem trabalhar para que eles possam contribuir com a qualidade que os outros não têm.

3 – A arbitragem do clássico tinha um caráter propositivo até que os jogadores desperdiçaram a oportunidade. Em tese, árbitros deveriam apenas mediar a dinâmica que os próprios times determinam. Punir os excessos, relembrando-os do caminho que escolheram. Mas parece que os jogadores não sabem lidar com a liberdade, precisam ser comandados com autoridade. Contaminado por pequenos e desnecessários conflitos, o jogo teve de ser controlado por cartões.

4 – Ocasião de gol, mesmo, só uma em todo o primeiro tempo. Um chute de Guerrero que Rogério defendeu com reflexo em dia. Uma rara associação bem feita no último terço do campo, no único jogo do horário que chegou ao intervalo sem gol.

5 – O zero a zero não durou muito porque Guerrero, acionado pela esquerda, deu o passe certo apesar da intenção errada. Fágner ergueu o braço para avisar que avançava pelo outro lado, mas pareceu que o alvo do peruano era Danilo, no meio da área. Danilo passou, a bola também, e Fágner concluiu com inteligência.

6 – O gol aos três minutos apresentou ao Corinthians um dilema perigoso para times que se defendem bem. Manter a postura ou proteger o placar? A tentação de chamar o adversário frequentemente é difícil de resistir, mesmo que a ordem seja no sentido oposto.

7 – O Corinthians escolheu o que parece mais conveniente, apesar das sucessivas experiências desagradáveis. Até teve um par de momentos com espaço no contragolpe, situações que não soube trabalhar bem. Mas descobriu que quando o oponente ronda sua área, falhas cometidas no mesmo lance normalmente acabam em gol.

8 – Magistral movimento de Ganso, para habilitar Luis Fabiano com um passe que ninguém mais no Brasil tem capacidade para fazer. Atenção para a fome do atacante são-paulino, aproveitando uma bola que era mais acessível a seu marcador. O encontro do talento com a vontade construiu o empate.

9 – Lição para Cléber. Se você tem atitude de dono da área, precisa agir de acordo quando a bola chega. O zagueiro corintiano quis entrar na cabeça de Luis Fabiano em um entrevero inútil. Depois do gol do São Paulo, ficou claro que aconteceu o inverso.

10 – Mano Menezes foi ouvido dizendo que o Corinthians jogava “por uma bola” durante o segundo tempo. O São Paulo só precisou de uma.

DIFERENÇAS

Um jogador assumidamente homossexual foi escolhido por um time da NFL, no sábado, no processo de seleção de universitários para atuar na liga profissional de futebol americano. As qualidades de um atleta foram vistas como se deve, ou seja, mais importantes do que seu estilo de vida. Na NBA, o comportamento racista do mais antigo dono de um clube da liga resultou em seu banimento, uma multa de 2,5 milhões de dólares e a obrigação de vender a franquia. Enquanto isso, no futebol, o racismo escancarado por gestos e gritos de primatas, com bananas atiradas no gramado na direção de jogadores negros, é estimulado pela prática de multas ridículas e declarações que visam a tratar o problema como algo sem importância. Entidades como a FIFA e a UEFA, expostas pelas decisões das ligas americanas, deveriam estar envergonhadas.



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