COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

PIRLINHO

No dia em que lançarem um game em que o objetivo é atingir a perfeição em cobranças de faltas, Juninho Pernambucano estará na capa. Ele também será o adversário imbatível no modo jogador individual, quando se enfrenta o próprio jogo, ou seja, a dificuldade máxima. Juninho é o professor, o modelo, a foto que está no manual, o vídeo que é exibido a iniciantes e estudado por profissionais como Cristiano Ronaldo e Gareth Bale. Você certamente já leu o ouviu falar dos elogios feitos por especialistas, jogadores que têm Juninho como o mestre dos mestres da bola parada.

Andrea Pirlo é um dos principais admiradores do ex-jogador brasileiro, a ponto de mencionar Juninho durante a Copa das Confederações do ano passado, quando alcançou o sonho de marcar um gol – de falta, claro – no Maracanã. Pirlo talvez seja a expressão da excelência na atualidade, o Juninho Pernambucano dos dias de hoje. Um objetivo que o genial italiano perseguiu de maneira obsessiva durante muito tempo. A razão pela qual ele diz que tem dupla nacionalidade.

“Eu sou italiano, mas também sou um pouco brasileiro. Pirlinho, se você quiser. Quando cobro minhas faltas, eu penso em português e comemoro em minha língua natal. Eu bato nessas bolas alla pirlo. Cada cobrança leva meu nome e todas são minhas crianças. Elas se parecem, mesmo que não sejam gêmeas e tenham as mesmas raízes sul-americanas. Mais precisamente, elas compartilham a mesma fonte de inspiração: Antonio Augusto Ribeiro Reis Júnior, um meia que entrou para a história como Juninho Pernambucano”.

Assim Pirlo abre o capítulo de sua biografia, “Penso, logo jogo”, que é dedicado à arte dos gols de falta. Ele conta como Juninho chamou sua atenção quando jogava no Lyon, e como o movimento da bola nas cobranças do brasileiro o hipnotizou. “Eu o estudei com atenção, colecionando DVDs e até antigas fotografias de jogos. Até que entendi. Não foi uma descoberta imediata, exigiu paciência e perseverança. Desde o começo, eu vi que ele batia na bola de um jeito incomum. Eu podia ver o “o que”, mas não o “como”. Então eu fui para o campo de treinos e tentei copiá-lo, inicialmente sem muito sucesso”, ele escreve.

Pirlo finalmente descobriu o segredo de Juninho em um momento inusitado, no banheiro. Ele percebeu que o brasileiro fazia contato com a bola usando apenas os três primeiros dedos do pé. No dia seguinte, saiu cedo de casa e foi para Milanello, direto para o campo, usando mocassins. Pediu uma bola para o roupeiro do Milan e acertou sete cobranças no ângulo. Naquele momento, inspirado em Juninho, Pirlo criou a cobrança que leva sua assinatura: a maledetta.

O livro de Pirlo é interessante e inteligente como o autor. Lançado em italiano no ano passado, e em inglês há duas semanas, é um estiloso relato de como ele vive o futebol. É generoso nos bastidores e abre uma janela para o coração de um jogador virtuoso e elegante, como se vê na deferência a Juninho Pernambucano.

IMPENSÁVEL

No país da Copa do Mundo, a morte em jogos de futebol deixou, há tempos, de ser um acontecimento chocante. Serve apenas como critério de gravidade, para separar eventos frequentes como confrontos entre “torcedores”, com ou sem a participação da polícia. Se ninguém morre, o fato não merece tanta atenção. Providências não são tomadas porque não há um corpo inerte para simbolizar a barbaridade cotidiana. Quando um tiro, uma facada, pancadas na cabeça ou uma privada voadora levam a cabo um assassinato, erguemos as sobrancelhas por alguns dias. Perdemos a capacidade de avaliar o impensável, porque o impensável é parte da realidade. Mortes estúpidas estão diariamente no noticiário, o futebol não seria um oásis em uma sociedade violenta. Mas é importante frisar que Paris é mais violenta do que nossas cidades, pois foi o único lugar onde um ministro brasileiro sofreu um roubo.



  • Roberto

    André, adorei os textos. O detalhe do Juninho é sensacional.

    Pirlo é o tipo de jogador que, num jogo, se demora a notar se vc não está focado nele. É menos espalhafatoso que um atacante driblador, não dá grandes arrancadas, e faz seu ofício parecer muito fácil, oq acaba escondendo a quantidade enorme de técnica, treino e talento envolvidos. Iniesta tbem demorou a aparecer pro mundo pelos mesmos motivos, por mais q pra quem ve o futebol mais de perto seja bem óbvio (no livro do Pep tem uma passagem em que ele diz pro Xavi que o moleque da base aposentaria a ambos). Esses motores de grandes times, encontradores de soluções, deveriam ser mais valorizados, acho eu. Tem vários que não quebraram a barreira da notoriedade pública.

    Sobre o outro assunto: Aproveitando seu gancho para as mortes estúpidas que estão diariamente no noticiário, acho que nosso maior sinal de evolução como sociedade será quando a imprensa não mostrar apenas a tragédia, mas focar em suas consequências. Buscar os culpados, mostrar a falta de vontade das autoridades e a ineficiência de nosso sistema judiciário. Outro dia estava vendo mais uma notícia sobre enchentes: 5 minutos mostrando famílias sofrendo, crianças chorando. Nada, absolutamente nada, sobre oq criou isso e quem foram os responsáveis. A obra que não foi feita, a autorização para construções que não deveria ter sido dada. Pq acreditar q somos vítimas da chuva é aceitar q somos apenas índios. Vai ver é isso mesmo.

  • Anna

    Quero ler esse livro do Pirlo! Boa terça a todos, Anna.

  • Marcel de Souza

    Muito boa essa história do Pirlo sobre o Juninho, não sabia dessa admiração toda. Pirlo é um jogadorzaço e esse texto só me faz admirá-lo mais ainda.

    Sobre as cobranças de falta, se o Juninho estaria na capa do jogo e do manual de cobranças, em que lugar estaria o Zico? 🙂 ou o Rogério Ceni? 🙂 🙂

    Abraço!

    • Marcel,

      particularmente, apesar do Rogério Ceni ser o maior goleiro-artilheiro da história, e ter se destacado por fazer a maioria dos seus gols em cobranças de falta, não o vejo como um melhor cobrador que o Juninho.

      Sobre o Zico, eu o vi jogar somente no final da carreira, no Japão, e vim descobrir seu “dom” pra faltas há pouquíssimo tempo, e com o nível de informação que eu tenho, consigo compará-lo com Raí, Rivelino, Roberto Cavalo, Marcelinho Carioca, Ronaldinho Gaúcho etc. Pra você ter uma ideia, a minha referência de “grande cobrador de faltas” é o Didi, bicampeão do mundo em 58/62, conhecido como “Folha Seca”. E aí fica uma dúvida (minha): Zico foi maior que Didi (nesse quesito)?

      Abraço!

  • Charles

    Juninho Pernambucano, ganhou vários títulos por onde passou. No Vasco é o Rei.

  • Rafael

    Convenhamos, Marcelinho batia falta muito melhor que o Juninho

    • Adriano

      Tenho que concordar! Não diria muuuuito melhor, mas ele beirou a perfeição durante muitos e muitos anos! E de qualquer distância!
      Será que o André concorda?

      • Ed Jr

        O André eu não sei, mas eu concordo plenamente, Marcelinho foi bem melhor do que Juninho, durante anos vi Marcelinho bater faltas que ou iam na trave, ou o goleiro defendia com a ponta dos dedos, ou eram gol, simples assim. Ah, e o melhor de todos foi Zico.

    • Daniel Alves

      Tão brincando que Marcelinho batia falta melhor q Juninho né ? hhahahah
      Não lembro agora qual foi o Físico, mas esse fez uma lista dos jogadores com a batida mais perfeita de falta ,adivinha o primeiro ? Juninho claro !!

  • José Henrique

    E, neste ultimo caso do vaso sanitário, nem sobrancelhas erguidas vimos.
    Ao contrario daquele em Oruro, onde assistimos até choro ao vivo na TV, desta vez, assistimos uma cantada ao vivo, após a breve notícia do assassinato.
    Talvez tenhamos perdido a capacidade de avaliar o impensável, mas é evidente que a comoção é bem seletiva em algumas áreas, dependendo do envolvido, se um time de futebol, ou um ministro, como você bem exemplificou André.
    Parabéns pela critica sutil.

  • Eddie The Head

    Vale lembrar que o físico inglês Ken Bray disse que Juninho Pernambucano é o maior cobrador de faltas da história do futebol.

    http://globoesporte.globo.com/futebol/times/vasco/noticia/2011/07/fisico-versatilidade-faz-de-juninho-o-maior-batedor-de-faltas-da-historia.html

    Pouca coisa,né?

    Se Pirlo for,como parece ser,tão elegante com as palavras como no trato com a bola o livro vai virar best seller.

  • quantos gols o Juninho fez de falta? fazendo esta comparaçao podemos dizer que ele foi omelhor

  • Luciano

    SE o Parreira tivesse mantido o time de 2010 com Juninho Pernambucano, Robinho, Gilberto, Gilberto Silva, Cicinho e Ronaldinho, que goleou o Japão em 2010, seríamos hexa. Mas o GENIAL Parreira preferiu chamar os decrépitos campeões de 2002 Cafu e RC etc etc etc para afundar o Brasil

    • Joao CWB

      2010?

  • Matheus Brito

    Muito legal esse texto do Pirlo. Na copa das confederações li que ele se inspirava no Juninho, mas não sabia que ele o tinha estudado dessa forma. Quando ele corre pra batida você realmente vê muito da forma como o Juninho corre e bate. Impressionante humildade de um craque consagradíssimo.
    Muita gente que não assistia o campeonato francês quando o Juninho levou sete ou oito títulos pelo Lyon, nem faz ideia de quantos gols o time dele fez graças às suas cobranças. Sejam as que atingiram as redes diretamente, sejam as alçadas na área para companheiros completarem. Lembro de uma cobrança dele contra o Barça pela UCL. Meio que sem ângulo ele acertou uma bola “impossível”, no ângulo. Palavras de Guardiola: ” Não havia goleiro que defendesse aquela bola”.
    Pena que o tempo passa para jogadores como ele e como o Pirlo.
    PS: Fiquei ainda mais fã do Pirlo e com vontade de ler esse livro.

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