COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

O ÚLTIMO

No instante em que Samudio marcou, quem estava diante da televisão percebeu. O contingente de cruzeirenses no Mineirão, e fora dele, provavelmente foi impedido de avaliar o momento. A emoção de um gol supera tudo. Mas distante dali, e com um olhar menos comprometido, o empate no jogo de ida contra o Cerro Porteño trouxe de volta uma sensação familiar.

Lembre: o time paraguaio não só vencia o jogo como fazia tudo certo para defender o resultado. O Mineirão empurrava o Cruzeiro, que rondava a área adversária sem a devida incisão para atravessar a parede. Volume, pressão, perigo, mas o Cerro suportava não só com solidariedade e sorte, mas também com mérito. Houve uma jogada em que um defensor paraguaio evitou um gol com o peito, quase sobre a linha. O tipo de anticlímax que leva à conclusão de que a partida pode durar várias noites, mas terminará da mesma forma.

Quando Samudio finalmente empatou, a conclusão foi substituída pela impressão de que víamos um filme pela segunda vez. Um filme que esteve em cartaz em outro estádio de Belo Horizonte, durante a Copa Libertadores do ano passado. O jogo de volta, na noite de quarta-feira em Assunção, não fez mais do que confirmar as suspeitas. O Cruzeiro, assim como o Atlético Mineiro em 2013, exibe o espírito dos times que se recusam a ir embora.

O roteiro manteve seu caráter no encontro no Paraguai. O Cerro deu as cartas em um primeiro tempo que poderia ter encerrado o confronto, com amplo domínio e merecimento. O gol que encaminharia a despedida cruzeirense da Libertadores pareceu inevitável quando o time brasileiro ficou em desvantagem numérica, por causa da expulsão de Bruno Rodrigo. Em tais circunstâncias, o futebol reduz a poucos pontos percentuais as chances de vitória. Fora de casa, segundo tempo, adversário com um jogador a mais e sem nenhuma razão para viver perigosamente.

O gol de Dedé saiu em jogada de bola parada, um cabeceio meio estranho, dessas bolas que entram sem que se entenda direito como. Segundos depois, um jogador do Cerro pediu para ser expulso ao agredir Dagoberto. E como se a autodestruição do time de Arce já não estivesse completa, o mesmo Dagoberto ganhou o segundo gol de presente. Tudo se deu a partir do exato momento em que a situação do Cruzeiro no jogo, e no torneio, passou de preocupante a desesperadora. Futebol.

Sim, enquanto o Atlético sofreu em viagem e renasceu em casa no caminho para o título, o Cruzeiro tem feito o inverso. Mas o ponto aqui é a capacidade de regeneração, o desafio às probabilidades. No final do dia, o efeito é o mesmo. A confiança é parte importante da equação, e a cada vez que um time consegue aquilo em que poucos acreditam, mais ele crê que pode fazer de novo. Como o atleticano sabe, o processo é contagioso.

As dificuldades aumentarão. O próximo adversário é o San Lorenzo, time do Vaticano, do atacante com nome de anjo e do goleiro de luvas abençoadas. Os argentinos eliminaram o Grêmio em claro conluio com a trave durante a decisão por pênaltis. O último dos brasileiros precisará de todas as suas forças.

DEBANDADA

Dos seis clubes brasileiros que iniciaram a Libertadores, sobrou só um. Três não sobreviveram à fase de grupos, dois caíram nas oitavas de final. A representatividade do Brasil entre os oito times que permanecem na disputa é a mesma da Bolívia, enquanto a Argentina tem três classificados. Decepcionante, para dizer o mínimo. Alguém se preocupa?

1994

O velório de Ayrton Senna foi uma de minhas primeiras coberturas, quando iniciava a carreira como rádio-escuta na Jovem Pan. Uma noite inteira na Assembleia Legislativa de São Paulo, observando a verdadeira peregrinação que levou milhares de pessoas comuns a querer passar perto do corpo do piloto, serviu para dar a medida da idolatria em choque pela perda repentina. Era poderosa a relação entre Senna e os que o admiravam. Segue sendo assim até hoje, vinte anos após sua morte.



  • Anna

    Vinte anos sem Senna. Uma semana de homenagens de reflexoes. Meu maior ídolo. Tinha todos os recortes,fitas VHS, revistas,absolutamente tudo. Saudades eternas desse grande ídolo do esporte brasileiro: paulistano, corintiano, rei de Mônaco, determinado, obstinado no seu ofício, que após a perda daquele jogo fatídico contra a França em 1986, no dia seguinte, ao vencer, empunhou a bandeira brasileira de dentro de seu cockpit. Só não fui ao seu enterro, em São Paulo, porque tinha prova na faculdade. Ironia do destino, de Medicina Legal. Gostaria de um dia ler suas palavras numa coluna sobre Senna, quem sabe. Mas essas linhas já foram pra lá de significativas. Senna marcou a todos nós e estará sempre em nossos corações! Obrigada, André. Bom domingo, Anna.#senna20 #sennasempre

  • Emerson Cruz

    De fato o Cruzeiro está conseguindo renascer nos momentos mais improváveis nesta Libertadores, porém é bom o time melhorar seu nível de desempenho, principalmente nos jogos em casa, onde a equipe só venceu uma vez nesta edição.
    Sobre as várias eliminações de equipes brasileiras na Libertadores, deveria sim ser motivo de preocupação que 5 dos 6 representantes do país não tenham ido além das oitavas, sobretudo porque tal acontecimento não é novidade. Em 3 das últimas 4 edições do torneio (2011, 2013 e 2014) o Brasil só colocou 1 representante entre os 8 melhores do torneio. Verdade que nas últimas duas vezes que isto ocorreu, o sobrevivente brasileiro ficou com a taça, algo que é ótimo, mas que de certa forma, mascara o desempenho dos clubes daqui, que mesmo possuindo investimentos bem maiores que a média dos adversários sul-americanos, estão produzindo resultados abaixo do que se espera.

    • Dennis

      Salvo engano, em 2013 o Fluminense também estava nas quartas.

  • José Henrique

    Enquanto isso André, ocorre uma morte absurda no Arruda, sem o alarde que a mídia fez em outra oportunidade, embora ambas sejam reprováveis e lamentáveis.
    Enquanto na primeira, comemoram até aniversário em matérias de primeira página, até os dias de hoje, embora qualquer cidadão com um mínimo de inteligência, saiba que embora errado, foi um acidente por inabilidade de um imbecil, no caso presente, o arremesso de um objeto (dois) sobre um aglomerado de torcedores, tenha claramente o objetivo de MATAR, a repercussão é pífia.
    Nem lágrimas ao vivo na TV, foram derramadas desta vez.
    E, para nossa desilusão, vemos o nosso glorioso tribunal esportivo, punir com portões fechados, ou perda de mandos, como se com isso fosse possível “educar” assassinos em potencial.
    É a assinatura no recibo, de postura ensaboada meramente burocrática para tirar sua responsabilidade, ou mesmo justificar a própria existência.
    Tribunal esportivo, deveria se ater a apreciar fatos esportivos, dentro do campo, ou dentro das regras e regulamentos, e não se atrever a julgar instituições, e coletividades por comportamento criminoso de torcedor.
    Um tapa na cara da sociedade, achar que estão contribuindo para diminuir os atos violentos de torcedores.
    Não estão, nem aqui, nem na China.

  • José Henrique

    Quanto ao Senna, o sentimento de tristeza foi tão grande, que nunca mais assisti a F1.
    Logo após o acidente fatal, consegui assistir algumas parcialmente, quase como a esperar, ou querer acreditar que ele estivesse de volta.

  • thiago

    Maaaas e a NBA hein ?

  • Joao CWB

    Na época eu era muito novo e não fazia idéia da importância de Senna. Fiquei interessado em tudo o que estava acontecendo mas a minha preocupação maior naquele dia foi um jogo do campeonato brasileiro ao qual assistiria.

    Hoje, assistindo aos vários especiais, consigo dimensionar o que foi Senna. Consigo me emocionar mais do que no no fatídico dia.

    Abraço

  • Renato Rasiko

    André, fico me perguntando qual o nível de consciência de uma pessoa que tem como ídolo um esportista qualquer. E, no caso, a palavra “ídolo” é bastante representativa se for levada ao pé da letra. Significa que aquela pessoa é idolatrada. Uau! É muito, né não? Agora, alguém me diga, o que fez esse rapaz pra merecer ser idolatrado? Além de ser um grande (ou maravilhoso, exuberante, fantástico, whatever, não sei, nunca vi) piloto, o que justifica esse fanatismo e idolatria? O que ele fez, de fato, que tivesse contribuído pros outros, pra humanidade, pra evolução da espécie? Nada, absolutamente nada. O que Senna fez foi curtir sua vida fazendo o que gostava e ganhando caminhões de dinheiro pra isso. Ponto. Sob qualquer ângulo que for analisado, não há o que possa ser visto como contribuição à sociedade, que é a responsabilidade maior e mais nobre de cada um de nós. Sua morte, pelo risco óbvio da sua escolha, foi absolutamente previsível e, portanto, não deveria conter o choque da surpresa e do inesperado (“tão jovem!”). Lembro que, nesse mesmo dia e ano, morria Mario Quintana, esse sim, um ser iluminado, um exemplo não só pelo que escrevia mas pelo que era, com o primeiro refletindo fielmente o segundo através de uma criatividade só reservada aos verdadeiros gênios, onde a pureza e a humildade são autênticas e genuínas. No entanto, nem uma mísera notinha de roda-pé. Lamentável essa sociedade em que vivemos, onde um “Senna” qualquer é endeusado e o Grande Quintana nem sequer é lembrado. Não é por acaso que chegamos ao ponto da auto-destruição.

    • Oliveira

      Troll.

    • Edouard

      Não sei como você se relaciona com o esporte. Mas penso que gente do calibre de Ayrton Senna esteja longe, muito longe, de ser “um esportista qualquer”. O fascínio que o esporte gera em boa parte da humanidade está menos associado ao fato de ser um tipo qualquer de entretenimento e mais atrelado à capacidade de submeter homens e mulheres a situações de limite físico e mental. É uma forma civilizada de dar vazão ao lado competitivo presente por natureza em todo ser humano. Se eu tivesse que explicar a um ET ou deixar registros para os arqueólogos do futuro sobre como funciona a nossa civilização, certamente incluiria na conversa o fato de que pessoas do mundo todo se encontram a cada 4 anos para disputar jogos, em cerimônia que homenageia evento lá da Grécia Antiga. Acho que isso diz muito sobre nós. Assim, todo atleta de ponta é um pouco embaixador de sua comunidade.

      Some a isso o fato de que um cara chamado Ayrton da Silva (nada burguês) era o carisma em forma bruta. Ele aparecia na televisão falando em conquistar o mundo, em dedicação absoluta, em levar a bandeira nacional ao topo nos 14 países por onde a F1 passava, etc..
      Lembre-se do contexto histórico. O primeiro presidente civil eleito em muito tempo morreu no dia da posse. A economia ia mal. Os anos 80 não se provaram ser aquilo que prometiam. O Brasil estava indo de mal a pior.

      Não é difícil entender como um cara implacável podia sensibilizar mesmo quem não curtia muito automobilismo. Ele era a prova viva de resiliência e de determinação. Acompanhar o Senna e torcer por suas vitórias virou um exercício de brasilidade. Sua morte foi o maracanazo dessa geração.

      Um abraço.

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