COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

GRADUAÇÃO

O alarme soou no começo de março. Tite não sabia se era saudade, receio ou simplesmente um efeito da ausência do que sempre foi o normal em sua vida profissional. A decisão de passar um período sem trabalhar como técnico tinha o propósito inicial de “zerar” a cabeça após três anos no Corinthians. O plano era descansar até o final de fevereiro e, recarregado, avaliar as possibilidades.

Nada garantia que a temporada do futebol em 2014 se entrosaria com a agenda que Tite se impôs. O andamento do calendário é imprevisível. Como uma aventura pelo mercado da Ásia, ou semelhantes, estava afastada, o sabático entrou em um piloto automático não planejado. Foi quando a sensação de ócio forçado se instalou e convidou Tite a uma reflexão.

Durante os tempos de Corinthians, houve um ano em que cerca de quarenta convites para palestras vieram e se foram, sem que Tite os aceitasse. Muitos esbarraram no conflito de horários que dificulta que técnicos de clubes de futebol sejam ativos neste segmento. Mas mesmo quando a manhã estava livre, com treino marcado à tarde, ele preferiu recusar. A possibilidade estava aberta, agora, com tempo para outras atividades mais diretamente relacionadas ao futebol.

Conversas em família e com pessoas de seu círculo próximo o fizeram perceber que uma coisa é acordar tarde, ligar a televisão e se incomodar com o silêncio do telefone. Outra é tratar da vida pessoal, poder visitar a mãe em Caxias do Sul e os filhos que vivem momentaneamente fora do país, e trabalhar de maneira diferente, mas com objetivos claros. Como ler sobre tática até em italiano, viajar para assistir a jogos da Liga dos Campeões, planejar-se para peregrinar pelos estádios da Copa do Mundo com um bloco de notas e curiosidades específicas sobre cada partida.

No caminho, o Atlético Mineiro não foi o primeiro clube a pensar em buscá-lo. As sondagens feitas a seu representante tiveram a mesma resposta: volte a ligar depois da Copa. Propostas para trabalhar como comentarista no Mundial também surgiram, sem sucesso. Quem o encontra o nota mais magro, mais calmo, satisfeito por ser, ao menos por algum tempo, senhor dos próprios horários.

Paulo Autuori foi dispensado pelo Atlético, anteontem, algum tempo depois de declarar que os treinadores brasileiros estavam atrasados no aspecto tático. Não se pode deixar de considerar o ambiente em que trabalham, em que o resultado imediato é questão de sobrevivência. Tite, que deixou troféus valiosíssimos no Corinthians utilizando um sistema que certamente não era caracterizado pelo atraso, tem investido horas e recursos em aprimoramento profissional.

Ele não está à espera de um clube, mas é possível que o inverso seja verdade. O alarme interno que soou no começo de março foi desligado. Tite está fazendo o que pode para que seu próximo trabalho tenha maiores chances de sucesso.

TRISTEZA

Aos 45 anos, Tito Vilanova ainda tinha muita coisa a fazer na vida e no futebol. Aos 45 anos, Tito Vilanova já tinha feito muita coisa no futebol, que era sua vida. Converteu Lionel Messi, ainda adolescente, em titular de um time em que seus companheiros eram todos mais velhos. E ajudou a desenhar, desenvolver e administrar um time que está entre os melhores que já pisaram em um gramado. O Barcelona de Guardiola também era o Barcelona de Vilanova, desde os primeiros passos na terceira divisão espanhola até o ápice em Wembley, em 2011. Se você gostava de ver aquele time, deve agradecer a ele também.

PÉROLAS

Carlos Miguel Aidar disse coisas que não deveria ter dito durante a semana. Mas uma outra declaração merece palmas: a de que Muricy Ramalho, se assim quiser, será técnico do São Paulo enquanto ele for presidente.



MaisRecentes

Vencedores



Continue Lendo

Etiquetas



Continue Lendo

Chefia



Continue Lendo