CAMISA 12



(publicada ontem, no Lance!)

DIALETOS

O debate sobre estilos jamais terá fim porque o futebol é como um idioma e seus vários dialetos. A escolha de uma forma de se comunicar depende de capacitação e de visão de mundo. O objetivo final é o mesmo, a diferença está no caminho para alcançá-lo.

José Mourinho e o Chelsea aplicaram a “estratégia do morcego” no jogo contra o Atlético de Madrid: todos pendurados no travessão. Diante do time inglês – beneficiário de um dos mais generosos orçamentos do futebol – não havia um adversário devastador, mas um Atlético que traduz o que é ser competitivo nos dias de hoje.

Anular-se para fazer o mesmo com o oponente é o expediente de equipes estéreis, que só sabem lutar e rezar. O Chelsea é mais do que isso, independentemente das convicções de seu treinador. O direito a escolhas vive na companhia da exposição a críticas, como ocorre com o lutador que dança pelo ringue para fugir do alcance do rival. Alguns o qualificam como inteligente, outros o chamam de medroso.

No dia seguinte, Real Madrid e Bayern fizeram, aí sim, um duelo de propostas baseadas em suas respectivas qualidades. É um equívoco relacionar o jogo de espera-e-saída do time espanhol com a conduta do Chelsea. A equipe de Ancelotti enfrentou um adversário com quem é inútil discutir a posse, e investiu em seu caráter de especialista na transição. O Real Madrid tinha um plano, o Chelsea fingiu que tinha.

Curioso perceber que os times mais diferentes das semifinais da Liga dos Campeões pecaram no mesmo aspecto. Atlético e Bayern não souberam gerar perigo por intermédio da manutenção da bola, o que é muito mais grave para os alemães, expoentes do jogo de posse.

O futebol foi inventado para ser jogado. Há distintas maneiras de fazê-lo, todas dentro das regras. Também há como se negar a jogar e se esconder sob um argumento pragmático no qual só crê quem quer. Se o resultado é tudo o que você pretende, o que restará se ele não vier?

DOCUMENTO

Seria ótimo se pudéssemos debater os estilos de futebol praticados no Brasil. Melhor ainda se a conversa se baseasse em ideias de jogo que fossem identidades de clubes, mantidas por filosofia. Mas o resultado reina absoluto e as derrotas encerram trabalhos, enquanto poucos times se preocupam em ter um perfil próprio. Menos ainda se destacam por isso.

PERMANÊNCIA

No período do tricampeonato brasileiro, o São Paulo tinha um RG sob Muricy Ramalho. O mesmo se pode dizer sobre o Corinthians nos anos Tite. Dois casos em que se nota a relação entre os títulos e a permanência da comissão técnica por mais tempo do que a média no país. O Cruzeiro aparece como candidato a seguir esse caminho com Marcelo Oliveira.



  • Teobaldo

    Poderia eu dizer que Greg Popovich seja o José Mourinho do basquete? Ou seria José Mourinho o Greg Popovich do futebol? Falácias….

    Apesar do imediatismo, determinado pelos resultados, eu ainda enxergo uma certa cultura no modo de jogar dos clubes brasileiros. O meu Galão, por exemplo, ao longo do tempo se mostrou mais um “um time de raça”, desorganizado taticamente, com características mais ofensivas, baseado num bom centro-avante técnico (Reinaldo, o maior expoente) ou botinudo e trombador (Dario, como exemplo). Cuca, apesar do plano tático bem definido, que utilizava principalmente o potencial ofensivo do Marcos Rocha, explorou muito o “bumba meu boi”, utilizando o Jô como pivô, e deu certo. O Paulo Autuori, talvez enxergando uma deficiência defensiva no plantel, tentou alterar essa “cultura” do nosso time, tentando fazê-lo mais cerebral, com muito toque de bola no campo de defesa e saídas para o ataque de forma mais cadenciada. No meu entendimento essa forma de “contrariar a cultura do time” foi o principal motivo de tal treinador ter passado a imagem de ser um cara antipático e, pior, apático, cultivando uma grande aversão da torcida contra ele. Lamentei a saída do Autuori, pois pensava, ingenuamente, talvez, que um trabalho desse nível em longo prazo, pudesse gerar melhores resultados. Um abraço!

    AK: Divirjo da comparação entre Pop e Mou. Guardadas as enormes distâncias entre basquete e futebol, os times deles são opostos. Um abraço.

  • Teobaldo

    A comparação entre Popovich e Mourinho foi feita apenas para ressaltar que ambos acreditam de forma absoluta em tudo que fazem para ganhar os jogos e, por sempre colocarem seus conceitos acima de tudo, apenas por isso, se assemelham. Popovich usa e abusa, por exemplo, do “hack a chack” (não sei se a grafia correta é essa); Mourinho, além do ônibus, agora usa os morcegos (gostei da metáfora). Um abraço!

    • Daniel

      Sim, está enganado aquele que acredita que Popovich é o Guardiola (mocinho) do basquete, já utilizou de várias armas para vencer, independente se aprovada pelo público e mídia. Hack a Shack foi a coisa mais ridícula já criada para vencer um jogo e/ou campeonato na história dos esportes coletivos. Mourinho não chegaria a tanto, portanto não dá para compará-los realmente. Pop não dá a mínima para a mídia americana, escala seu time da maneira que acha conveniente, já foi punido diversas vezes por isso pela Liga, mas dá de ombros, é o Muricy do basquete, aqui uma comparação mais justa, responde de forma truculenta, mal educada e interrompe qualquer jornalista antes mesmo que possam terminar uma pergunta.

      AK: Equivocada, também, a comparação com Muricy. Popovich já explicou por que dá respostas de poucas palavras nas entrevistas ao vivo durante jogos. Acha errado, faz por obrigação contratual. Os jornalistas que convivem com Popovich o adoram. Independentemente de opiniões sobre o hack a shack, os times de Popovich são criativos e exemplares do ponto de vista coletivo. Um abraço.

      • Teobaldo

        Bem, AK, de sua resposta ao Daniel posso concluir que você não acha os times do Mourinho criativos (não de forma absoluta, naturalmente). Do exposto, caso eu não estaja enganado, pergunto: Um jogador como Neymar, num aspecto amplo, considerando sua individualidade, teria espaço para jogar num time treinado por Mourinho?

        AK: Creio que sim. Sem problemas. Um abraço.

      • Edouard

        O correto não seria “Hack a Shaq”? Estamos falando da estratégia de mandar o jogador para a linha de lance livre, certo? Um abraço.

        AK: É, é isso aí. Um abraço.

  • Bernardo

    ” Se o resultado é tudo que você pretende, o que fará se ele não vier”. Perfeito Andre, parabéns pelo texto. Essa sua frase é exatamente o que sempre pensei sobre os técnicos resultadistas. Parreira em 2006, Dunga em 2010 e tantos outros treinadores sempre vem com essa ladainha quando são criticados, como se o futebol pragmático ( muitas vezes covarde) fosse garantia de resultado

  • Anna

    O Chelsea usou uma tática feia, que deu certo, pelo menos. O Real jogou mais e melhor, à base dos contragolpes. E Atleti e Bayern deixaram a desejar. Serão jogos emocionantes, na volta. Bom final de semana a todos, Anna.

  • Andre Araujo

    Acho que o problema é que a discussão é pautada pelo resultado. Se o Casillas não tivesse feito uma baita de uma defesa no fim do jogo ou o Di Maria tivesse feito os 2 a 0 ainda no primeiro tempo, a conversa poderia ser bem diferente.

    AK: Perceba que não há menção aos resultados no texto. Um abraço.

  • Guilherme

    “O futebol foi inventado para ser jogado. Há distintas maneiras de fazê-lo, todas dentro das regras. Também há como se negar a jogar e se esconder sob um argumento pragmático no qual só crê quem quer. Se o resultado é tudo o que você pretende, o que restará se ele não vier?”

    André,

    Quando o Pep começou no Bayern, sofrer críticas por algumas derrotas (inclusive da Supercopa da Alemanha). Nitidamente ele estava começando a implantar a sua idéia de jogo, que já deu certo também no Bayern, tendo em vista sua campanha até então. Sendo assim, respondendo sua pergunta acima: Restarão críticas ao Mourinho se o resultado não vier. Da mesma forma ao Guardiola, se, mesmo com sua filosofia que melhor traduz o que é o verdadeiro futebol, o resultado não vier. Vejo este ainda mais pressionado por conta da temporada anterior do Bayern.
    A estratégia do Mourinho já funcionou na Inter e o anti-jogo contra um Atletico não tão imparável como o Barça pode ter sido uma agressão ao jogo, uma preocupação exagerada, mas se sustentará se o resultado vier. No fim das contas, o Barça dos últimos anos só será a lenda no futuro porque os resultados vieram junto ao brilhante futebol. Ninguém quer pra si a pecha do Telê em 82. Não nos dias de hoje.

    Por isso, entendo o Mou e acho que no futuro será o cara lembrado por vencer uma Champions com o modesto Porto, por bater o grande barça com o Eto’o de lateral esquerdo e por (se vier) vencer a Champions contra os fortes Real ou Barça de Guardiola. Convenhamos que ele tem argumentos.

    Abraço

    AK: Não penso que Mourinho não tenha argumentos, ao contrário. O que penso é que além dos títulos, se lembrará de pouco. Em relação a outros técnicos, notadamente Guardiola, juntos com os títulos, se lembrará de muito mais. Um abraço.

    • Teobaldo

      O seu texto, Guilherme, leva-me a concluir que o trabalho da Seleção de 82 foi muito além do excepcional. Afinal, aqueles “perdedores” são lembrados ainda hoje, 32 anos após Sarriá. Permita-me, AK, tomar esse exemplo como “o que restou quando o resultado não veio”. No meu entendimento a derrota daquele time (do modo que aquele time jogava, fica melhor) representou, também, uma derrota para um modelo de futebol bonito. É consenso que ali encerrou-se uma era no futebol. Obviamente aqui não se discute a qualidade dos jogadores italianos, muitos deles fantásticos, e que tiveram seus valores relativizados, marcados pela vitória do futebol feio sobre o futebol bonito.

      AK: Esqueci de tocar nesse ponto: não considero Telê marcado negativamente de nenhuma maneira. Ao contrário, seu time de 1982 jamais será esquecido. Assim como a Holanda de 74. Um abraço.

      • Guilherme

        André e Teobaldo,

        Na minha visão, o Telê era sim marcado negativamente e tinha fama de pé-frio até as vitórias com o São Paulo.

        Entendo que contra o Atleti, o Mourinho possa ter exagerado. Mas, vencer uma UCL com a Inter (com pouco histórico na competição) ganhando do Barça e com o Porto, tirando um Manchester por exemplo, é de se admirar. Fazer com que seus jogadores mais técnicos e ofensivos joguem de forma abnegada como ele faz, não é para qualquer um. A disciplina tática, o nível de motivação que produz no time, e a capacidade de vencer times notadamente mais capazes tecnicamente, são marcas que ficarão para a história, além dos títulos.

        Vejo o Mourinho um pouco como o Felipão (tirando o egocentrismo do luso). Tática, força, marcação e motivação.

        Obrigado pelas respostas e o espaço em debater em alto nível. Abraço.

        • Fabricio Carvalho

          A seleção de 82 fez história, e está “viva” na nossa memória até hoje. A de 94 por exemplo morreu, todos só lembram dela por causa do Romário.
          O futebol deveria ser, por princípio, arte. Depois o resultado viria, como consequência. O Barcelona de Guardiola já ficou pra história por causa de sua arte (que gerou resultados também). Perder para Inter e Chelsea, em jogos em que os vencedores foram totalmente dominados pelos vencidos não diminui em nada o tamanho da revolução que o Barça criou.
          De quais times nos lembramos verdadeiramente em todo esse tempo que um apaixonado por futebol como eu assistimos??

          Pela minha idade, o primeiro time que me lembro é justamente o Brasil de 82.
          Junto dele o Flamengo, de Zico, Leandro, Júnior, e tantos outros.
          São Paulo de Cilinho era bom de ver jogar.
          Milan dos holandeses.
          São Paulo do Telê.
          Palmeiras das eras de ouro da Parmalat.
          E agora o Barça até o Guardiola.

          Foram times que revolucionaram o futebol, não por jogar pelos resultados, mas por fazê-los de uma forma bonita, criando muito, e fazendo muitos gols.

          Daqui a alguns anos ninguém vai se lembrar que um dia a Grécia ganhou uma eurocopa, nem que o famoso São Paulo de Telê perdeu algum jogo pra um time do interior no Paulista.

          Vão se lembrar de como era bom ver esses times jogando.

    • Nilton

      No jogo Atletico X Chelsea, o que faltou foi o Mourinho ter uma jogada de contra ataque como teve o Real, no meu ponto de visto foi o único erro do Mourinho no jogo.

      AK: Com os jogadores escalados no meio de campo, tal jogada era virtualmente impossível. Um abraço.

  • max robert melo

    Caro André Kfouri, sei que não tem nada haver com o post acima, mas gostaria da sua opinião.

    Hoje tive conhecimento pela mídia que a Procuradoria Desportiva que atua junto ao STJD, formulou denúncia solicitando que a Portuguesa fosse excluída da séria “B” do campeonato brasileiro, uma vez que não participou do jogo contra o Joinville na última sexta (18/04).

    Enquadrou a conduta da Portuguesa nos artigos 205, 231 do CBJD (Código Brasileiro de Justiça Desportiva) e 69-2 do Código Disciplinar da Fifa, que pode acarretar na exclusão e no consequente rebaixamento para a terceira divisão.

    Ora, não torço para o time, sou Galo,mas ao que me parece é que tal decisão não possui qualquer imparcialidade ou isonomia. Tudo bem recorrer da decisão da Justiça para cassar a liminar que deu direito a própria Portuguesa de não participar do jogo, contudo, solicitar sua exclusão posteriormente além do recurso apresentado na Justiça Comum é, no mínimo, ir contra a segurança jurídica, já que o Recurso para cassar a liminar não foi analisado nem reformado antes do início da partida contra o Joinville.

    Portanto, a Portuguesa não poderia fazer nada, apenas aguardar a decisão judicial que, caso viesse desfavorável, teria a CBF que remarcar o jogo para outra data, PONTO.

    Por outro lado, o presidente da Portuguesa deve ter algum problema, isso porque é muito bobo ao aceitar não participar da séria “A” (ficou conformado com a situação)e agora ainda terá que suportar o peso de um processo que tentará excluir o time até mesmo da série “B”.

    Por isso eu digo, isso que é dar um tiro no próprio pé em confiar nos outros.

    Abaixo segue o link da reportagem:

    http://esportes.br.msn.com/futebol/procuradoria-do-stjd-pede-exclus%C3%A3o-da-portuguesa-da-s%C3%A9rie-b

  • Eddie The Head

    Bem,usando a “tática do morcego” o Chelsea já ganhou uma Champions. Teve uma generosa dose de sorte,mas a estratégia funcionou. Se a proposta se repetir no próximo jogo mudo de opinião em relação a Mourinho,pois jogar se defendendo com o time que ele tem nas mãos,jogando por uma vitória simples,seria loucura.

    Pode anotar: A final será Real x Chelsea.

  • Gustavo Almeida

    AK, boa noite…nada a ver com a matéria, quero ouvir tua opinião sobre os uniformes do campeonato brasileiro.
    o jogo entre Coritiba x Santos foi, pra mim, uma indelicadeza e um mau gosto enorme.
    camisa branca contra camisa preta e branca, short branco, contra short preto, meia preta, contra short branco…uma mistura que me deu náuseas..
    se fosse na Europa, um time jogaria de branco e outro de preto…

    abraço

  • Rodrigo-CPQ

    Gustavo, tenho opinião parecida com a sua, mas discordo que na Europa é diferente, pelo contrário. O que ocorre por lá é que os times usam, por tradição, uniformes de uma só cor praticamente. Camisetas, calções e meias da mesma cor. Mas vira e mexe deixo de ver um jogo por causa das confusões causadas por isso.

    Ademais, só mais um pitaco: é uma vergonha a FIFA obrigar o Brasil a jogar de calções brancos em dois jogos na primeira fase da Copa, bem como a Espanha se curvar a essa regra ridícula e trocar os calções azuis por vermelhos.

    • Gustavo Almeida

      perfeito Rodrigo…Brasil é AMARELO, AZUL e BRANCO….tradicional!!!!

      • Teobaldo

        Concordo totalmente com vocês. Essa asneira, além de provocar um péssimo aspecto visual, ainda descaracteriza completamente os uniformes dos times. Outro dia vi o meu Galão jogando todo de branco. E hoje, com camisas e calções brancos e meiões pretos. Simplesmente ridículo! Um abraço!

  • Luciano

    Guardiola, gênio, tira Mandzukic e coloca Javi Martínez. Quem tem, tem medo. Apenas 5 gols no momento para o Bayern eliminar o Real Madrid.
    Poderia arrumar essa defesa que parece uma peneira ou ter humildade e ficar como auxiliar do Mourinho, durante um ano, para aprender a vencer com pernas de pau.
    Mourinho sempre foi superior a Guardiola, sempre! Senti falta dos seus tweets cheios de ironia durante o jogo de hoje.

    AK: Prolifera a miséria da análise de ocasião… Thanks for following.

    • Marcos Nowosad

      Mais um que deve estar chorando na cama hoje com a derrota do “mestre” Mourinho, que montou a “peneira” que levou 3 gols do Atletico de Madrid em casa.

      Alias, as estatísticas mostram no confronto entre Guardiola que, em 16 jogos, foram 7 vitorias do espanhol e apenas 3 do português, 28 gols contra 18.

      O que será que o Mourinho twitou ontem? 🙂

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