POST CONVIDADO



O blog publica abaixo uma mensagem enviada pelo “vascaíno”, que já colaborou várias vezes com o espaço e com os debates propostos aqui.

De fato, como se verá, é bem mais do que uma mensagem. É uma opinião bem fundamentada sobre o “roubado é mais gostoso”, tema revitalizado pela declaração do goleiro Felipe.

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Prezado André,

“A média dos estudantes brasileiros do curso secundário precisa ser mais ou menos reeducada com respeito a hábitos de trabalho e mesmo, em alguns casos, a hábitos de honestidade. A maioria dos rapazes brasileiros que completam o curso secundário nunca foi instruída sobre como estudar nem educada para arcar com as responsabilidades de um programa normal de estudos. A maior parte deles não sabe tirar proveito de uma biblioteca, ou fazer consultas, ou aproveitar um professor durante uma conferência particular. Muitos estudantes de cursos secundários também lucrariam consideravelmente em um ambiente escolar de perfeita honestidade e integridade, o qual, infelizmente, nem sempre existe nas escolas secundárias, mas que será um fato no Instituto Tecnológico da Aeronáutica.”

“O linguajar cauteloso de Smith, ao falar de “ambiente escolar de honestidade”, não deixava dúvidas de que ele se referia a uma praga presente em dez entre dez escolas brasileiras: a cola. Se entre nós costumava ser vista até como uma virtude, uma esperteza, no ITA a cola era imperdoável.”

O texto acima foi extraído do magistral “Montenegro”, de Fernando Morais (Editora Planeta do Brasil, ISBN8576652277).

Trata de uma carta, escrita em 1947, pelo professor Richard Herbert Smith, ex-chefe do Departamento de Engenharia Aeronáutica do MIT, contratado e trazido ao Brasil em 1945 para trabalhar na construção do ITA – Instituto Tecnológico da Aeronáutica – um dos maiores centros de excelência em educação e conhecimento do Brasil.

E nela, o professor Smith, apesar do pouco tempo de Brasil, como comenta Fernando Morais, usa um “linguajar cauteloso” para tocar fundo em um ponto relevante da “alma” do aluno brasileiro que se matriculava no ITA.

Vejo muito disso na discussão sobre o gol do Flamengo, principalmente nos comentários ao seu post de segunda feira.

Eu já “ganhei” jogos com gols nos últimos minutos, já “perdi” jogos com gols nos últimos minutos. Futebol, como me ensinou meu velho pai, tem três resultados possíveis: ganha-se, perde-se, empata-se. E aí, convive-se com aquilo que se apresenta em campo.

Tenho PROFUNDO respeito pelo Flamengo. É um adversário, grandíssimo, fortíssimo, o tipo de adversário que faz as nossas conquistas serem maiores.  Já “ganhei” jogos lindos contra o Flamengo, já “perdi” jogos horríveis para o Flamengo – naturalmente, imagino que os torcedores do Flamento pensem nestas situações e tenham sentimentos exatamente opostos aos meus.

Perder dói sim. Mas está longe, muito longe, de ser o tema mais importante desta conversa.

Creio que sejam dois temas relevantes:

 

  • “roubado é mais gostoso”, dito pelo goleiro do Flamengo, sucessor de um condenado por assassinato (aquele, do “quem nunca bateu em mulher?”).
  • O uso insistente e sistemático de argumentos para “relativizar” o erro da arbitragem.

 

Àqueles rubro-negros que “relativizam” o erro cometido no gol, relativizem também a sua revolta, quando forem assaltados na rua. Afinal, “o assaltante não teve oportunidades na vida, não teve educação e não tem chance de ser nada – só lhe resta fazer isso”. E, convenhamos, “o que é roubado é mais gostoso”.

Àqueles rubro-negros que “relativizam” o erro cometido no gol, relativizem também a absoluta falta de preparo e os danos causados por policiais corruptos, que, afinal de contas “ganham um salário de m… para correr atrás de vagabundo e têm mais é que levar alguma vantagem mesmo”.

Àqueles rubro-negros que “relativizam” o erro cometido no gol, relativizem também que a corrupção dos Detrans pelo Brasil ocorre devido aos baixos salários recebidos pelos seus servidores. E, quando perderem um pai, a esposa ou um filho em um acidente de trânsito provocado por alguém que comprou sua carteira de motorista, aplaquem sua revolta, afinal de contas, “quem nunca ‘quebrou um lance’ para acelerar uma renovação de carteira”?

Para fechar, fiz um pouco de pesquisa e gostaria de compartilhar 3 estatísticas:

a) Ranking de Países por Produto Inteno Bruto (fonte: ONU)

photo 1

 

b) Ranking de Países por Índice de Qualidade de Vida (fonte: The Economist)

photo 2

 

c) Ranking de Países por Índice de Percepção de Corrupção (fonte: Transparência Internacional) (NOTA: nesta tabela, a nota 100 é o máximo de percepção de limpeza, enquanto a nota 0 é o máximo de percepção de corrupção.)

photo 3

 

Portanto, você, meu caro amigo rubro-negro, que está comemorando porque “ganhar roubado é mais gostoso”, ou que está “relativizando” o erro para justificar o injustificável, pense no seu papel diante do seu país, que é o 7° (sétimo) em produto interno bruto, o 39° (trigésimo-nono) em qualidade de vida e o 72° (septuagésimo-segundo) no ranking de “limpeza/corrupção”.

E pense em que tipo de influência a nossa colocação em corrupção não tem sobre a nossa qualidade de vida, apesar do enorme potencial do nosso PIB.

Faz muito tempo que não choro por causa de futebol.

Cheguei em casa na segunda feira de manhã cedo, depois de passar a noite viajando e vi minha mulher sentada em minha cama, amamentando nosso filho mais novo, enquanto a nossa filha mais velha dormia ao seu lado.

E ali, no micro-cosmo daquela casa, daquele quarto, daquela cama, não se ganha roubado.

Um forte abraço.



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