O ERRO QUE DECIDE



O sujeito carente de princípios e/ou vergonha encontra uma justificativa para tudo.

No futebol, um dos campos mais férteis para a desfaçatez, a habilidade para relativizar situações é disseminada até por declarações como a do goleiro rubro-negro Felipe, que recorreu ao infame “roubado é mais gostoso” após o clássico deste domingo.

O jogo e o campeonato foram decididos por um gol ilegal, marcado aos 46 minutos do segundo tempo.

Ninguém que conhece as regras do jogo de futebol é capaz de contestar que Márcio Araújo estava impedido no lance, ou mesmo absolver o assistente que não marcou a clara posição irregular do jogador do Flamengo.

Não se trata de um “lance complicado”.

Mas há quem queira discutir o indiscutível, apelando a argumentos infantis como, por exemplo, a possível ocorrência de erros da arbitragem no primeiro jogo da decisão carioca.

Analisados individualmente e afastados do contexto em que se deram, equívocos do apito podem parecer semelhantes. Mas quando se observa quando e como eles aconteceram, a distância pode ser brutal.

Compreende-se que aqueles que relativizam a maneira como o campeonato chegou ao final pretendam ignorar o contexto. Além de entenderem, por conta própria, o erro a favor de seu time como uma acusação, e não como uma observação que não pode deixar de ser feita, querem anular o peso da falha gravíssima cometida no lance em questão apontando outras, em outros momentos, que beneficiaram outros.

Não deveria ser tão complicado entender que um gol ilegal, aos 46 minutos do segundo tempo, que altera o significado do placar do último jogo do campeonato, tem consequências muito mais importantes do que um lance idêntico em outras circunstâncias.

Tomemos como exemplo a decisão em São Paulo, entre Santos e Ituano.

A arbitragem errou (não se discutem aqui as diferenças e a dificuldade do lance, a ideia não é essa) ao marcar um pênalti para o Santos, aos 43 minutos do primeiro tempo. Cícero voltava de posição de impedimento quando disputou a bola e foi derrubado na área. O pênalti deu origem ao gol santista.

É indesejável que um erro como esse, que resulta em um gol, aconteça em uma final de campeonato. É uma ocorrência séria. Mas o Ituano, time que foi prejudicado, teve chance de se recuperar porque ainda havia pelo menos metade do jogo a disputar.

O jogo e o campeonato também tiveram chance de se recuperar.

Se o equívoco tivesse acontecido aos 43 minutos do segundo tempo, as chances seriam mínimas. Teria sido um erro decisivo, como se deu no Maracanã.

É inadmissível que o campeão e o vice-campeão de um torneio sejam definidos assim.

Em minha coluna no Lance! de hoje (o texto estará aqui amanhã), lembrei de quem é contra o auxílio eletrônico à arbitragem. Dias como hoje impõem o tema:

“Para aqueles que entendem que o futebol seria prejudicado pelo auxílio eletrônico ao apito, um – mais um – o sabor de um campeonato decidido por um gol ilegal deve ser insuportável. Que consigam digeri-lo sem ânsia ou azia.”

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Um recado a você, rubro-negro que acha que o blog “persegue seu time”, “não respeita a instituição” ou bobagens parecidas: este texto aqui também fui eu que escrevi.



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