COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

PARIS CATAR

“Todo presidente francês conhece a elite catarina, que cada vez mais investe na França. Em novembro de 2010, Sarkozy ofereceu um famoso almoço no Palácio do Elysée. Os convidados foram Michael Platini, francês presidente da UEFA, e o príncipe catarino Sheik Tamim bin Hamad Al-Thani. Platini nega que Sarkozy pediu para que ele votasse no Catar para sediar a Copa do Mundo de 2022, mas admitiu à revista espanhola de futebol ‘Don Balón’, amplamente mencionada na imprensa francesa, que o presidente disse que ‘seria bom se ele votasse’”.

Independentemente do que se disse no almoço, três coisas aconteceram depois. Os votos do bloco europeu de Platini no comitê executivo da FIFA deram ao Catar a Copa do Mundo. (anteriormente, Platini havia dito que o Catar como sede seria ‘uma catástrofe’.) Então a rede de televisão catarina Al Jazeera comprou direitos para transmitir futebol francês na TV francesa. E, em junho de 2011, a Qatari Sports Investments comprou o PSG da empresa americana de investimentos Colony Capital por cerca de 70 milhões de euros.”

O trecho acima faz parte de um artigo publicado pelo jornalista Simon Kuper, na semana passada, no diário britânico Financial Times. É um detalhado relato da conversão do Paris Saint-Germain de um clube ignorado por um bom contingente de parisienses em uma das marcas mais valiosas do futebol da Europa.

Kuper (frequentadores deste espaço já leram sobre o trabalho dele), um dos autores do livro “Soccernomics”, trata dos negócios do futebol com raro acesso a quem pode falar, em primeira pessoa, sobre como as coisas são feitas. Sua descrição da repaginação do PSG com o intuito de criar um fiel representante da capital – não da nação – francesa revela como a estratégia e o dinheiro do Catar fizeram de Paris, atualmente, algo que jamais foi: uma cidade de futebol.

O artigo conta como a reforma da imagem do clube incluiu até uma mudança no distintivo. Acima da caracterização estilizada da torre Eiffel, a palavra “Paris” hoje aparece sozinha e em letras grandes. “Saint-Germain”, o restante do nome, foi relocado para a parte de baixo do logo, com letras menores. O novo PSG prefere ser chamado de “Paris”, desejo atendido por ninguém menos que José Mourinho, técnico do Chelsea, que durante a semana se referiu assim ao adversário de seu time nas quartas de final da Liga dos Campeões.

Kuper escreve que a gestão catarina pretende que o PSG seja “tão elegante, bonito e excelente quanto Paris. Torcedores devem ser recebidos no Parque (dos Príncipes) como seriam em um hotel sofisticado. O PSG está adquirindo marcas luxuosas como patrocinadores: quando você sai do estádio, uma jovem moça pode lhe oferecer uma amostra de creme facial. Em campo, diz (Jean Claude, diretor-geral) Blanc: ‘o estilo de jogo dever ser cavalheiresco, refinado, parisiense’”.

O efeito colateral da transformação não pode ser tratado como se não tivesse importância. É o impacto na parcela de torcedores que não consegue mais entrar no Parque dos Príncipes, e a perda da relação do time com parisienses menos privilegiados. A reportagem de Kuper observa esse aspecto também.

AGENDA

Ainda de acordo com o artigo do Financial Times, o Catar decidiu investir no PSG pelo fato de o clube parisiense ser o único time de futebol em uma capital europeia, um mercado de 12 milhões de pessoas, sem concorrência direta. Londres, apenas como comparação, é fatiada por seis clubes. Um executivo francês comparou o PSG à Bela Adormecida, que aguardou por cerca de quarenta anos pelo príncipe que a despertaria com um beijo (e algum dinheiro). No ano passado, o clube teve receita de 398,8 milhões de euros, a quinta maior do futebol europeu. O objetivo para 2014 é se aproximar dos 500 milhões. O plano é se tornar um dos melhores clubes do continente, fazer a marca valer 1 bilhão de euros e ganhar a Liga dos Campeões nos próximos cinco anos. Após derrotar o Chelsea por 3 x 1 em casa, na quarta-feira, o PSG se aproximou das semifinais.

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Link para o artigo original (em inglês).



  • Artigo interessantissimo! E notavel a diferenca de percepcao e reconhecimento da marca PSG de dois anos pra ca. A relacao entre o dinheiro do Catar e a Franca tambem demonstra uma otima analise de mercado e da voracidade dos sheiks. Lembremos que Manchester City e tambem um outro oasis de dinheiro Arabe. Rapidamente, eles estao passando a controlar pontos-chave do futebol mundial como forma de abrir canais de relacionamento com chefes de estado…

    Pra mim esta claro que o futebol e so a ferramenta da estrategia.

    Parabens pelo texto. E por favor, continue publicando artigos do genero.

    Grande abraco,
    Beto

    • Nilton

      Beto, Acho que seu pensamento esta invertido. O Futebol não é uma forma de abrir canais de relacionamentos com chefes de estado, MAS sim é uma forma para que estes canais não seja questionados ou que este questionamento seja enfraquecido pelo amor dos torcedores aos seus clubes.
      Grandes investidores sempre terão canais aberto com os governos (direto ou indiretamente) basta informar que querem investir no país, e isto vale na França, no Brasil e até mesmo na Venezuela.

  • José Henrique

    André. Muito oportuno seu post. Neste momento há uma insatisfação geral na França contra Sarcozy. Vi uma reportagem na Tv fechada nesta semana, que mostra o político, como grande apreciador do luxo, passeando em sites fabulosos de bilionarios, e amante de jóias, carros e residências pra lá de Bagdá. E o povo está visivelmente contrariado com isso.
    E quanto ao Chelsea, não pode falar nada também, porque na Inglaterra o que se vê, é enxurrada de dinheiro russo no futebol, evidentemente uma troca por passaporte.
    Acho inclusive, que nossas Tvs brasileiras deveriam parar de comprar campeonatos desses clubes estrangeiros, para serem coerentes com a postura exigente que tem com o Brasil.
    Vemos hoje, transações milionárias, 7 clubes espanhóis denunciados, presidente do Bayer saindo por sonegação, enfim, pagar para assistir isso, fica tão desconfortável, como acham esses franceses excluídos .
    Parabéns pela matéria.

    AK: Obrigado. Mas há confusão de conceitos em seu comentário. Problemas relacionados a dirigentes de clubes – brasileiros ou não – são uma coisa, jogos desses clubes são outra. Em todo caso, ninguém é obrigado a ver, se não quiser. Um abraço.

    • José Henrique

      Claro André. Para isso existe controle remoto.
      Acontece que no Brasil infelizmente politizaram o futebol.
      Talvez devêssemos mesmo aceitar então o dinheiro russo no nosso futebol.
      Quem sabe não encontremos um Abramovich para colocar recursos no nosso falido futebol, com clubes devendo as próprias calças.
      A se considerar a observação do efeito colateral afastando as classes mais pobres dos estádios europeus.
      Você acha que apesar das dívidas monstruosas dos nossos clubes, corremos o risco de “elitizar” como eles, e enfim termos a famosa “espanholização” do futebol tão pregada por muitos analistas esportivos, que a temem ?

  • José Henrique

    Mais um comentário André, se me permite. Simplesmente ridícula a manifestação do Juvenal Juvencio na matéria do lancenet de hoje, sobre o acidente na arena Corinthians .
    Além de revelar extremo mau gosto, praticando criminalizando a todos os Corinthianos, insinuando proteção da mídia, dos poderes, da justiça enfim do mundo todo a favor do clube seu rival e inimigo, tem memória extremamente curta, e seletiva.
    O que ele teria a dizer sobre a cobertura, na época, da mídia e dos poderes, sobre isto:

    http://globoesporte.globo.com/ESP/Noticia/Arquivo/0,,AA1100288-4274,00.html

  • Emerson Cruz

    Michel, o cartola: mais do mesmo.
    Alguém acredita que a Uefa de monsieur Platini terá peito para impor regras rígidas e fiscalizar o dinheiro de origem, no mínimo, duvidosa que é cada vez mais vultuoso no futebol europeu?
    Copa no Catar (e na Rússia), bilionários “espertos”que brincam de football manager real, autoridades omissas que fingem estar tudo bem… É, o futebol continua sendo usado para fins pouco limpos, e olhem que lavagem é o que não falta.

  • Caio

    Os caras reinventam o que é ser megalomaníaco, meu Deus!
    Impressionante…

    O post tá ótimo, mas o título é o melhor, André!

    Parabéns e um abraço!

  • José Henrique

    Infelizmente o futebol europeu está contaminado por ricos milionários que compram clubes e jogadores, provocam o desequilíbrio técnico.
    Uma vergonha. Paris Saint-Germain e Manchester City podem ser punidos severamente pela Uefa, entidade que administra o futebol europeu, pelo descumprimento das normas do fair play financeiro, segundo matéria publicada no diário inglês Daily Telegraph.
    O fair play financeiro proíbe que os clubes associados à Uefa tenham prejuízos maiores que 45 milhões de euros em uma temporada (R$137,42 milhões). De acordo com a matéria do jornal inglês, os clubes tiveram déficits gigantescos nas temporadas 2011/2012 e 2012/2013. O time de Manchester acumulou uma dívida de 180,5 milhões de euros (R$ 551,19 milhões), enquanto o clube da capital francesa registrou 130 milhões de euros (R$ 396,98 milhões).
    A reportagem alega que as dívidas foram acobertadas com os contratos de patrocínio com uma empresa de promoção do turismo no Qatar, país da empresa que estampa sua marca nas camisas dos dois times.
    Serão 20 clubes investigados pelo incumprimento do fair play financeiro e a Uefa anunciará sua decisão final no começo de maio.
    Dá para se empolgar com jogos dessa verdadeira máfia produtora de “prejuizos” por mero passatempo?
    Mil vezes o nosso futebol, capenga, com defeitos, falhas do que essa mega máquina de “desperdiçar”dinheiro, com o mundo em crise, principalmente a europa que amarga niveis de desemprego assustadores.
    E nós pagamos para ver essas “estrelas”.

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