COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

MATA-BURRO

Há lances em que a fronteira da grande área se transforma em uma espécie de mata-burro que só vale para o time que se defende. O goleiro, pelo menos a maioria deles, tem pavor de cruzar a linha. Como se perdesse seus poderes ou se sentisse nu. O zagueiro enxerga aquela faixa branca como o fim de seu expediente. Dali para dentro da área, não é mais problema dele. Nas jogadas em que o zagueiro está pressionado e o goleiro aguarda pela decisão do companheiro, o mata-burro é o território mais perigoso possível. Porque o atacante, em posição vantajosa, sabe que é exatamente ali que reside sua grande oportunidade. E ele não precisa se preocupar com onde pisa.

O gol de Cícero foi um momento significativo na atual conjuntura do Campeonato Paulista. O Santos fazia 1 x 0 no Penapolense, estágio que equipes como o Corinthians e o São Paulo não conseguiram alcançar. Na Vila Belmiro, em desvantagem no placar na altura dos vinte minutos de jogo, o time do interior se encontrava com o instante em que a carruagem se revela uma abóbora. Era o fim da fábula, o retorno ao mundo real, em que os Penapolenses da vida (sem ofensa) percebem que há motivos pelos quais times de baixo orçamento sonham com surpresas que não acontecem.

David Braz apimentou o roteiro, vestindo a roupa do vilão. Um pênalti indiscutível e um encontro com Aranha no mata-burro, deixa-que-eu-deixo do qual Douglas Tanque usufruiu com precisão. A virada do Penapolense devolveu interesse e dúvida ao encontro do melhor time do campeonato com o pequeno adorável que se nega a ir embora. Massiva diferença de pontos prestes a ser apagada pela “emoção do mata-mata”.

Oswaldo de Oliveira diria que foi apenas sorte, nada mais. Ele não se referiu ao susto com o qual seu time teve de lidar a partir dos 35 minutos do primeiro tempo, mas à maneira como o Santos resolveu o problema e se classificou para a decisão. Com gols que tiveram participação instrumental de dois jogadores em seus primeiros toques na bola. Sorte, sim. O tipo de sorte que faz técnicos de futebol dormirem sorrindo.

Leandro Damião empatou quando a vultosa operação financeira de sua contratação já o perseguia. Gol de cabeça típico de centro-avante. Quem construiu a jogada foi Rildo, em campo havia poucos segundos, no lugar de Gabriel. Stéfano Yuri, substituto de Damião, virou o jogo quando os pênaltis se aproximavam, estabelecendo a melhor relação de gol/minutos do domingo. Bonitas imagens de um Oswaldo eufórico à beira do campo, principalmente porque são genuínas.

De verdade, também, o choro dos santistas ao final. Geuvânio e David Braz podem explicar as lágrimas de diferentes formas. Uma delas certamente estará ligada ao alívio por sobreviver ao claro risco de eliminação em casa, sentimento que se antecipa à alegria por aparecer na final do torneio estadual. A caminhada do Santos foi ameaçada pelo mata-burro, Oswaldo arquitetou a solução.

DESGRAÇA

Quando Romário diz que “já perdemos a Copa do Mundo fora do campo”, refere-se ao uso irresponsável de verbas públicas sem a devida contrapartida para a sociedade. A derrota passa a ser muito mais grave quando causa mortes de trabalhadores, como vimos novamente no fim de semana. Acidentes, mesmo os fatais, acontecem em construções do porte dos estádios que estão – ainda – sendo erguidos para o Mundial. Mas é evidente a relação entre mortes de operários e obras apressadas por causa dos atrasos que se tornaram regra no Brasil. Não há planilha ou discurso rebuscado que explique tamanha desgraça.

MISSÃO

A edição número 400 do Gre-Nal ficará na história como o primeiro clássico realizado na Arena do Grêmio que teve um vencedor. Dado saboroso para os colorados, dor que os gremistas só poderão sanar se conquistarem o campeonato na casa do rival.



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