COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

O MÍNIMO

O relógio se aproximava da primeira hora da manhã de quinta-feira. O estádio do Morumbi, já praticamente vazio de torcedores, encontrava-se preenchido pela surpresa da classificação do Penapolense às semifinais do Campeonato Paulista.

O técnico Muricy Ramalho ainda não tinha chegado à sala de imprensa, onde resumiria a noite em que o São Paulo se despediu do torneio com uma declaração que descreve fielmente a atuação de seu time: “faltou futebol”. Muricy é conhecido por demorar a conceder entrevistas após resultados decepcionantes, um método que visa a diminuir sua temperatura sanguínea e minimizar a possibilidade de se exaltar. Uma estratégia recomendável.

Repórteres de televisão e rádio se aproximaram de Wellington, na área de estacionamento dos ônibus. De banho tomado e a caminho do carro que o aguardava, o jovem volante são-paulino os atendeu. As frustrações já deveriam estar resolvidas ou arquivadas, mas uma pergunta absolutamente inofensiva e pertinente mostrou que não:

– Você acha que o Penapolense foi melhor do que o São Paulo no jogo?

– Você acha que foi?

– Eu queria a sua análise…

– Eu acho que não. Eu acho que a postura que eles adotaram, de vir atrás da linha da bola, e a gente pressionando o jogo todo… eu acho que isso é o mínimo que você deveria saber, que eles não foram melhor (sic).

A expressão de Wellington revelou mais náusea do que suas palavras. Ele pareceu verdadeiramente ultrajado pela sugestão de que o adversário – que venceu nos pênaltis, após empate em zero a zero – foi merecedor do resultado e da classificação. E talvez seja até um exagero falar em sugestão, pois o início do diálogo foi, de fato, tão somente uma pergunta. Uma simples pergunta. Mas Wellington se defendeu de um ataque. Concluiu sua resposta e virou as costas, enfastiado, encerrando a conversa.

É cômodo enxergar corporativismo em uma crítica ao comportamento de um jogador em uma entrevista. Aqui, também é errado. O que inquieta na atitude de Wellington não é a resposta atravessada a um jornalista, mas a reação agressiva a um questionamento corriqueiro, que deveria ser esperado. O fato de ter acontecido ao microfone agrava o quadro porque o torna público, e porque corrompe a oportunidade do próprio Wellington de se comunicar com quem o acompanha.

Claro que existe um contingente barulhento de bozos que vão ao êxtase quando um jogador ou um técnico batem “na mídia”. Como já se escreveu aqui, são aqueles que se alinham com qualquer tipo de atitude que esteja vestida com suas cores. São os que preferem não ser informados e precisam se sentir ofendidos. Este espaço, no entanto, é dedicado a quem não perde a capacidade de raciocinar quando se ocupa de futebol.

Um sem-número de são-paulinos deve considerar preocupante o conceito por trás da resposta de Wellington. Um time do nível do São Paulo não conseguir marcar um gol no Penapolense é o problema central. Do São Paulo. Isso é o mínimo que ele, Wellington, deveria saber.

MIMO

A culpa é “da imprensa”, também. Perguntas diretas caíram em desuso. É muito menos trabalhoso massagear entrevistados com elogios e sorrisinhos. Quanto mais raros são os questionamentos, mais estranhos eles soam a quem foi se acostumando a só receber bolas levantadas. Quando se deparam com uma construção que termina com um ponto de interrogação, especialmente se o tema for o próprio desempenho, sentem-se feridos e na obrigação de responder “à altura”. Se uma pergunta comum é recebida como uma agressão, imagine o que acontece com uma crítica.

PIADA

E o nome da música oficial da Copa do Mundo de 2014 é “Dar um jeito”. Para uns, uma referência ao otimismo e à superação do brasileiro. Para outros, uma estocada no nosso “jeitinho”. O que encaixa melhor com a Copa? É preciso tirar o chapéu para quem toma essas decisões. Inacreditável.



MaisRecentes

Pendurado



Continue Lendo

Porte



Continue Lendo

Segunda vez



Continue Lendo