HISTÓRIA DE UM GOL



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Este post deveria estar aqui ontem. Infelizmente não foi possível.

Ele conta e ilustra uma história interessante, que resume de maneira didática um pouco do que o Barcelona pretende com esses “toquinhos que não adiantam nada”.

Como quase todo mundo que se interessa por futebol sabe, a ideia de jogo do Barcelona se baseia em circulação da bola, movimentação constante, superação de linhas e criação de superioridade numérica em zonas específicas do campo.

O que o vídeo acima mostra é essa ideia em ação. É a jogada do gol de Iniesta.

Adversários frágeis e jogadores que têm dificuldade para ler o que enxergam, por vezes, facilitam o trabalho do Barcelona. A simples troca de passes leva a falhas de posicionamento que geralmente são punidas. Mas times que se defendem bem e são compostos por jogadores inteligentes, como o Real Madrid, conseguem neutralizar as ações com movimentos coordenados.

Então é preciso criar o espaço, o que se dá com passes para jogadores entre as linhas e a imposição de uma sucessão de dúvidas e decisões erradas ao oponente.

É exatamente o que acontece a partir do momento em que Piqué é acionado, depois de uma longa posse em que a bola vai da direita para a esquerda do ataque, e retorna para o zagueiro no campo de defesa.

Aperte PAUSE aos 24s.

É possível ver o Real Madrid perfeitamente posicionado em seu campo. Os quatro jogadores da última linha estão lado a lado. Messi e Neymar vigiados, Di Maria (com Fàbregas) e Alonso (com Xavi) mantém-se próximos, Ronaldo (com Dani Alves) está recuado, assim como Bale (com Iniesta). Modric e Benzema formam a primeira linha de pressão sobre a bola.

Ao receber a bola, a primeira decisão de Piqué é avançar alguns metros. Não é um movimento casual, ou algo que ele faz porque gosta. O avanço tem dois efeitos práticos: faz com que Piqué ultrapasse Benzema e provoque a aproximação de Modric. No ato do passe, a bola permanece com o Barcelona, e já deixou a primeira linha para trás.

PLAY… PAUSE aos 26s.

Piqué faz um passe curto para Xavi, já no campo de ataque. O cérebro do Barcelona domina e analisa suas opções: Fàbregas, para outra jogada curta, ou Neymar, mais avançado e de frente para o lance. É a primeira situação de “jogadores entre linhas” na defesa branca. Algo que causa problemas por ser o equivalente futebolístico ao cobertor curto. O defensor precisa decidir entre deixar sua posição e pressionar o jogador com a bola, oferecendo espaço às costas, ou ficar onde está e permitir o domínio com liberdade.

Di Maria opta por encurtar a distância para Xavi, pois reconhece o risco. Neymar se apresenta para receber a bola, já chamando a atenção de Sergio Ramos. Xavi, para surpresa de ninguém, toma a melhor decisão.

PLAY… PAUSE aos 28s

O passe para Neymar é a opção correta por dois motivos: 1) o brasileiro é o alvo mais profundo, e quanto mais próximo da área está o jogador entre as linhas, mais perigo (e dúvidas, e equívocos…) ele gera; e 2) ao acionar Neymar, Fàbregas se transforma na óbvia sequência da jogada, por estar ao lado do brasileiro e de frente para o gol.

Ramos, jogador móvel e experiente, não resiste à tentação de pressionar Neymar. Alonso, percebendo a necessidade de igualar o dois-contra-um que se materializa, dobra a marcação ao brasileiro. Neymar, contrariando seu instinto de individualizar o lance, aciona Fàbregas. Simples, porém crucial.

PLAY… PAUSE aos 29s

Ramos “soltou” Neymar tão logo ele se desfez da bola, e recuou. No processo, deixou Pepe sozinho com Messi. No instante em que dominou a bola e levantou a cabeça, Fàbregas se viu em uma situação que se repete desde sua infância, algo tão automático quanto escovar os dentes. Seu cérebro entrou em modo “procurando Messi”.

A pesquisa não demorou muito tempo.

PLAY… PAUSE aos 30s.

O movimento de Messi também é quase instintivo. Ao ver Fàbregas com a bola, o argentino imediatamente recuou para aparecer no radar. Pepe se encontrou com uma dúvida recorrente e cruel: acompanhar Messi ou proteger a área. Não se pode criticá-lo, aqui, pela decisão mais cautelosa. Mas ao permitir que Messi recebesse a bola, livre, na intermediária, o zagueiro luso-brasileiro deixou o Real Madrid na situação mais delicada possível.

Precisamente aqui, amigos, a coisa ruiu para o Real Madrid.

PLAY… PAUSE aos 31s

Nada pode ser mais grave do que ver Lionel Messi arrancar com a bola em direção à area, desmarcado e com espaço para acelerar. Carvajal vê a onda crescer, percebe Xavi se oferecer para um dois-contra-um sobre Pepe e reage como a grande maioria dos laterais: aproxima-se do meio da defesa para ajudar.

Fatal.

PLAY… PAUSE aos 32s

Iniesta acompanha tudo do lado esquerdo, aberto, como se fosse apenas um observador. Mas a sequência de movimentos indica o que acontecerá. Carvajal lhe convida a correr em diagonal, dando a Messi a opção para o passe de gol. O argentino carrega, faz Pepe temer um chute frontal e rola para Iniesta na área.

1 x 0.

Cinco passes. Atuações decisivas de barcelonistas de toda a vida e do recém-chegado Neymar.

E uma contribuição generosa de Gareth Bale (aos 28s), usando o braço esquerdo para avisar a todos que Iniesta vai fazer o gol.



  • Silva

    Caro André,

    Faltou uma referência a brilhante partida do Iniesta. Lembras da coluna sobre ele? Bingo!

    André, peço que faça uma comentário sobre o que penso do Goleiro da Seleção na copa. Por favor!

    Mesmo nas atuais condições de poucos jogos e por um time modesto, num campeonato idem, Eu vejo Julio César muito a frente de Jeferson e Cavalieri. Ainda mais para jogar uma copa do mundo. Para evidenciar minha falta de confiança em ambos, eu convocaria Dida como segundo goleiro, caso ele aceitasse, e o Jeferson com o terceiro.

    Assisti ontem à uma dicussão no linha de passes (ESPN), da qual discordo totalmente do Trajano.

    Estou esperando, abraços.

  • Anna

    Sensacional gol de Iniesta!!! Grande abraço a todos, Anna. Pena que Xavi nãojogou bem essa partida!!

  • Thadeo Pinhão

    Análise simplesmente fantástica! Parabéns, André!

    Tenho alguns amigos que não gostam/entendem o estilo de jogo do Barcelona e faço questão de compartilhar seu texto com todos eles.

    Um abraço.

  • Lippi

    André, parabéns, esse foi um dos melhores textos que você já escreveu.

  • Juliano

    A primeira coisa que eu vi, quando apenas no PLAY (vi a primeira vez sem parar), foi BALE desgarrar da marcação de Iniesta, este, de fininho observando a movimentação e esperando o momento certo para se apresentar. O passa foi preciso e açucarado, não seria diferente vindo dos pés do Messi (e ele repetira a precisão do passe decisivo no segundo tempo). A conclusão não foi menos perfeita!

    Jogadores com as características desses craques do Barça (Lionel, Iniesta, Xavi, Fábregas, e vai…) dariam ótimos jogadores de basquete.

    Pra quem não gosta, AK desenhou o “jogo de toquinho”.

    Abraço!

  • Thiago Mariz

    Essa postagem me deu uma nostalgia da época de Guardiola no Barcelona, em que suas postagens sobre a história sendo feita por aquela maravilha levava a postagens sobre discussões táticas do que estávamos acompanhando quase como algo inédito no futebol.

    De fato, acompanhando o gol com uma explicação tão clara, faz-nos esperar por algo similar acontecendo frequentemente. Porém, o que vejo e que impede o Barcelona de competir lado a lado com Bayern de Munique é: o elenco (restrito praticamente aos 11 titulares) e a ausência de medo de Guardiola. Corrija-me se estiver errado, mas o que aniquilou o Barcelona no ano passado foi temer os oponentes. Não havia reconhecido isso, até aquele jogo dos 4×0 contra o Milan. O técnico que sucedeu Guardiola (me fugiu o nome dele) tentou manter a ideia de Guardiola e “cuidar” mais da defesa. Fez isso, na minha opinião, basicamente fixando mais os jogadores em suas posições de origem e movimentando a equipe de maneira “tradicional” quando sem a bola, isto é, sem pressão dos jogadores mais próximos à bola, independente da função tática (atacante, meio-campo, zagueiro), e com recuo mais rápido dos jogadores às suas posições, em particular os zagueiros. E aí o oposto aconteceu: o Barcelona tornou-se extremamente vulnerável, a contra-ataques, bolas aéreas, etc. Sua defesa virou piada. Na ânsia por mais segurança, o treinador tornou tudo vulnerável. E eu não entendia exatamente por que, até o jogo de volta contra o Milan…

    Quando tudo retornou às origens. Precisando vencer por muito, ele aceitou retornar ao estilo de jogo arriscado de Guardiola. Deixando claro que, na verdade, o risco é aparente, porque é justamente o risco que Pep aceita correr que torna seu time tão seguro na defesa e tão cruel no ataque. Naquele jogo, o Milan inexistiu, apenas em alguns momentos pontuais conseguiu fazer algo. Mas a bola foi do Barcelona, o Milan não conseguia atravessar o meio-campo, as infiltrações na defesa italiana eram constantes, era um verdadeiro massacre. Pensei, exultando: “O Barcelona voltou!” E aí veio o Bayern… É algo que jamais saberemos, mas Messi machucado foi crucial ao confronto, mas a tendência a buscar “segurança” na defesa voltou. E a segurança aparente aniquilou o Barcelona.

    Na minha opinião, o time de Tata segue essa tendência. Tem a posse de bola, mas não tem a ousadia de Guardiola. Recentemente, acompanhei uma das primeiras partidas do Bayern de Pep. E me dei conta disso, lembrando do que via no Barcelona. A diferença não está somente com a bola (pela menor mobilidade dos jogadores do Barcelona em comparação ao Bayern), está principalmente SEM a bola. Quando o Bayern perde a bola, a defesa, como no Barcelona, está no meio-de-campo, ou até um pouco a frente. A diferença é que no time alemão a pressa para recuar não é tanta, pois a bola ainda está próximo do gol adversário. Então, o oponente tem enorme dificuldade por estar com a bola, mas encurralado. Os movimentos se fazem em direção à bola, não à sua própria defesa. Dessa forma, a recuperação da bola acontece precocemente e a defesa adversária está sem ordem, pois realizava um movimento e agora tem que inverter tudo. Assim, mais espaço, menos movimentos coordenados, mais infiltração, mais chances de gols. E olhe que jogador por jogador, a defesa do Bayern é muito melhor e pode se confiar mais! Ou o Barcelona compreende que o aparente risco é na verdade benefício para sua defesa, ou será trucidado pelo Bayern mais uma vez, isto se passar pelo Atlético, que o neutraliza tão bem!

    Perdão pelo comentário longo, mas esse tema me empolga!

  • Alisson Sbrana

    Que delícia essa coluna. Tática na veia.

  • Sergio Mendes

    Belo texto. Mais belo ainda é a jogada e a complexidade de coordenaçao do time. Incrivel como isso dura apenas 8 segundos.

  • Wallace

    Vc se superou. Que texto!!!!!!

    Parabéns!!!!!

  • Christian

    Simplesmente espetacular esse texto! Elixir pra quem ama o futebol. Parabéns, André, show demais!

  • fabio braz (Belém/Pa)

    Caro André mais uma vez parabéns pela analise ao método Barcelona de jogar futebol. Em minha modesta opinião ninguém neste país entende e analisa melhor o “tik-taka” barcelonista (ou o que vem sobrevivendo dele após a saída do Guardiola) do que você, nem o grande Paulo Calçade, outro brilhante e estudioso analista. Alguns meses atrás você analisou perfeitamente, aqui no blog e no “fora de jogo” da ESPN, o jogo “azul-grená” e os problemas que vinha e ainda vem enfrentando e, novamente, somos brindados com tamanha eloquência e criteriosa observação.

  • Ricardo Corrêa

    André, te considero um dos mais brilhantes jornalistas dos últimos tempos. Você “sobra” demais hoje no jornalismo esportivo do país. Parabéns! A simplicidade como você descreve um lance destes numa partida de futebol em palavras, é simplesmente “assombroso” e espetacular! Coisa de gênio! Sente-se paixão, emoção, alegria, tudo ao mesmo tempo, quando se lê a tua coluna. Parabéns mais uma vez!

    • José A. Matelli

      É verdade. Para usar um termo de boleiro, o André está voando. Sem contar o visual à la Truman Capote na bancada do Sportcenter.

  • Adriano

    Texto top! Excelentes palavras!
    Difícil ser tão expressivo assim apenas com palavras. Belo dom!
    Parabéns!

  • Gustavo

    Genial, André! A profundidade e lucidez da sua análise, só dois ou três podem fazer no mesmo nível. Some-se a sua capacidade de se expressar e aí não ficam concorrentes.

    Agora eu enxerguei bem por que o estilo do Barcelona é tão letal.

    Os adversários enfrentam um dilema novo a cada troca de passe, durante a interminável posse de bola dos catalães.

    Se guardar posição, o defensor terá o adversário de frente para o gol e com liberdade; se pressionar, oferece espaços que não serão cobertos com eficiência.

    E o Barça sabe o que fazer nas duas hipóteses. Mais ainda: faz automaticamente, como escovar os dentes, ao estilo daquele treinador de futebol americano, Tony Dungy.

    Você consegue visualizar também o “antídoto” para o estilo do Barcelona? Ou a única chance dos adversários é fazer um jogo perfeito e torcer para que Messi & Cia estejam pouco inspirados? Será que o Guardiola sabe o que fazer? Por favor, escreva a respeito. Se você não souber, ninguém mais no BR vai saber. Abraço!

    AK: Linhas próximas, pressão coordenada, força mental… tudo muito mais fácil de falar do que de fazer. Um abraço.

    • Lucas

      Tudo certo. Análise perfeita. Mas o sistema do Barcelona só e’ assim tão letal porque tem o Messi. Eu não sei aonde esse rapaz vai chegar. Nunca vi um jogador nem perto do que ele joga (não vi Pele)
      Agora, Se quem recebesse aquela bola fosse o Lucas, por exemplo, o pavor diminuiria consideravelmente. Aquela jogada de ir com a bola dominada até o gol iria dar certo uma vez a cada 3 jogos. Com o Messi funciona em quase toda ocasião.
      Minha opinião.
      Abs!

  • Matheus Brito

    Uma aula ilustrada sobre uma filosofia de jogo que aterroriza adversários nem sei mais a quanto tempo.

    Ps. Infelizmente XAVI não consegue mais acompnhar esse estilo de jogo. Uma pena que o tempo passe para jogadores como ele.

    AK: Não achei que ele foi mal. Ao contrário… Um abraço.

  • erico lanza

    Apesar de não trabalhar com esportes, é a coisa que mais faço na internet é acompanhar esse mundo. E dá o maior gosto ao ver um post desse nível, em que disseca uma jogada, mostrando que tática é importantíssima e que essa jogada não acontece por acaso.

    Obrigado pela aula dada em poucas palavras, e de tal forma que me faz sempre vir aqui.

    Seu fã,

    Erico.

    AK: Eu que agradeço. Um abraço.

  • Willian Ifanger

    Alguém aqui já falou que seu texto/análise/aula de futebol foi genial?

    Aliás, GENIAL, foi isso: “(…) Seu cérebro entrou em modo “procurando Messi””.

    Demais, demais.

    • Matheus Brito

      Bem lembrado. Demais essa sacada.

  • André,

    engraçado que, até este lance, eu vinha conseguindo “acompanhar” os passes do Barcelona, e pensava “Não é possível, isto não está natural”… de repente, parece que perdi a noção do que estava acontecendo, onde estava a bola, os jogadores, e quando vi o Iniesta saindo sozinho na cara do Diego Lopez, já pensei: “Agora vai!”. E foi.

    Se eu, olhando de longe, já me perdi nesse lance, imagino quem estava lá dentro.

    Abraço!

  • Silva

    André,

    Estou esperando sua opinião sobre quem deve ser o goleiro da seleção na copa.

    Abraços.

    AK: Não vejo grandes diferenças entre os goleiros disponíveis. Mas o nível de exigência que Julio César está enfrentando não é o ideal. Um abraço.

    • Silva

      Bom, discordo de você, acho o Júlio César muito mais goleiro do que Jeferson e Cavalieri, mesmo que o nível de exigência que Julio César está enfrentando não seja o ideal.

      Abraços e obrigado!

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