COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

ORATÓRIA

Interessante entrevista de José Luiz Meiszner, secretário-geral da Conmebol, ao jornalista Martín Fernandez. O material está no blog “Bastidores FC”, hospedado no globoesporte.com. Quem conferir a conversa sem qualquer informação prévia sobre a entidade que comanda o futebol na América do Sul, ou, mais importante, sobre as pessoas que lá estão, chegará esperançoso ao fim da leitura.

O dirigente argentino mostra-se um homem culto. Fala dos problemas do futebol nesta região do mundo sem se afastar das relações sociais que obrigatoriamente devem ser feitas para compreendê-los. Enxerga a violência como a doença mais grave das sociedades sul-americanas, um mal que se reflete nos estádios. “Pertencemos a uma sociedade que precisa percorrer muitos anos de civilização”, afirma, em um comentário que sintetiza suas opiniões.

Cuidado. A eloquência e o conhecimento podem construir um formidável disfarce. Ao diagnosticar os dramas que acompanhamos temporada após temporada em nossos campeonatos e, com maior destaque internacional, na Copa Libertadores, Meiszner soa como o treinador que analisa os defeitos de seu time com notável precisão, mas pretende que as pessoas ignorem que trabalhar para solucioná-los é sua obrigação. Como secretário-geral da Conmebol, ele se senta à mesa em que decisões são tomadas. Está longe de ser um observador.

Meiszner é o mesmo dirigente que declarou à Folha de S. Paulo que “um moreno peruano imitando macaco para um brasileiro um pouco mais escuro do que ele não é uma discriminação racial. É, sim, uma provocação mal-educada”, acrescentando que aos povos sul-americanos “falta até mesmo cultura para, filosoficamente falando, provocarmos discriminação racial”. A categorização da ofensa e a carência de pedigree não devem ofuscar a evidente intenção de diminuir uma pessoa por causa da cor de sua pele, o que jamais pode ser aceito ou relativizado.

Martín Fernandez perguntou a Meiszner sobre a colossal distância que se percebe entre um jogo da Liga dos Campeões da Uefa e uma partida da Copa Libertadores. O dirigente argentino lhe respondeu dizendo que sua “convicção” era que “isso tem a ver com o nível cultural médio dos espectadores desses espetáculos”. Exemplo de escapismo, uma vez que os estádios sucateados e os gramados de fazenda evidenciam a diferença entre os dois torneios, problemas que não dependem de muitos anos de civilização para ser resolvidos. Isto sem falar na maneira como as questões disciplinares são tratadas por aqui.

Está claro que a violência é uma desgraça que afeta o futebol. A solução, se algum dia a encontrarmos, não começará pelos estádios. Mas o futebol sul-americano não pode simplesmente aguardar pela evolução das sociedades. Além de diagnósticos e observações filosóficas, há trabalho a ser feito por pessoas como Meiszner, cuja capacidade oratória precisa estar acompanhada de ações. Não lhes faltam recursos.

DESPREZO

A entrevista de José Luiz Meiszner traz uma revelação: em torneios sul-americanos há casos de times que perderam uma final e não foram buscar medalhas ou prêmios, considerados símbolos do fracasso. Ele não revelou quais são.

PERIGO

Mais uma semana, mais uma rodada da Libertadores, e agora dois clubes brasileiros estão em sérias dificuldades em seus grupos. Pelo nível dos adversários, a situação do Cruzeiro e do Flamengo é ainda mais preocupante.

CORAGEM

Admirável a posição de Paulo Nobre em relação a vândalos disfarçados de torcedores do Palmeiras, como se viu mais uma vez nesta semana. Essa é uma das áreas mais sensíveis da atuação de um presidente de clube, e Nobre não tem titubeado entre a firmeza e o populismo. Outros dirigentes tiveram oportunidades semelhantes de fazer o certo. Paulo Nobre deveria ter mais companhia.



  • joe LHP

    Esperança???Com esses pelegos?? Com essa gente no poder da Conmebol, CBF, AFA e outros não vejo evolução no futebol nem em 50 anos, muito capaz do futebol por aqui ficar minimizado e vermos um domínio europeu e outra se esse senhor não sabe há muita violência na Europa, existe xenofobia, racismo e um monte de coisa que não presta ,só que lá tratam o assunto seriamente, na Europa se aprende com os erros, já por aqui é essa demagogia e pouca atitude.

  • Anna

    A violência tem que ser banida dos estádios ou vai acabar com o nosso futebol. Boa semana, Anna.

  • Saíram as sentenças: absolvição no valor de US$ 12 mil aos peruanos. Isso deve ter a ver com o “nível cultural médio” dos ORGANIZADORES desses “espetáculos”. Já o Mogi Mirim paga o dobro, R$ 50 mil.
    Ah, sim, claro: é provável que esses “torcedores” estivessem apenas expressando sua paixão pelo clube, em prol de um futebol melhor…

    BTW, excelente coluna, André, como sempre!
    Um abraço.

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