COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

SINGULAR

A melhor maneira de elogiar Rivaldo é falar sobre seu estilo, tentando utilizar outros grandes jogadores para ilustrar a conversa. É permitido ampliar o campo de exemplos para todas as épocas e ultrapassar as fronteiras do futebol brasileiro para encontrar semelhanças. Imagine-se explicando, a quem não o viu, como Rivaldo jogava.

Só há duas opções. A primeira é um trabalho de montagem. Construir na mente do interlocutor um jogador fictício, alguém que reúne qualidades específicas de futebolistas que ele conheça. Porque Rivaldo tinha o domínio, o passe, o drible, o chute, a força, a velocidade, o cabeceio… comparáveis aos melhores em cada um desses atributos. Rivaldo era vários craques em um. Era um craque como nenhum.

A segunda e última opção é desistir de buscar argumentos e simplesmente recorrer à prova de vídeo. Abrir o YouTube e escrever “Rivaldo” no campo de busca. As imagens são insuperáveis na tarefa de exibir um jogador. Transfira o problema para a tela de um computador e deixe que a pessoa se encarregue de formar a própria opinião, de acordo com o que viu. Ela finalmente perceberá como é difícil descrever Rivaldo mencionando outros nomes. Concluirá, como você, que ele não foi a segunda versão de um grande do passado. E que não existe, no futebol de hoje, um jogador que seja a segunda versão dele.

Em outros esportes, os jogadores únicos são aqueles que extrapolam suas características físicas de forma a se transformarem em problemas insolúveis para os oponentes. No basquete, por exemplo, é o ala que tem tamanho de pivô e habilidade de armador. Rivaldo não se enquadra nesse tipo de anormalidade. Ele não era muito alto para ser tão móvel ou muito franzino para chutar tão forte. Apenas, ou melhor, “apenas”, dominava os fundamentos de um jogador ofensivo como ninguém.

A análise não deveria ser influenciada pela personalidade introspectiva de Rivaldo, pois dela independem os fatos. Melhor jogador do mundo, campeão do mundo, provavelmente o melhor jogador de uma Copa do Mundo. As credenciais de um esportista “sem marketing” devem ser aplaudidas justamente por não serem embelezadas pelos anabolizantes da percepção pública. Rivaldo não teria sido mais craque se estrelasse campanhas de roupa íntima ou se andasse rodeado de mulheres. Só teria ganhado mais dinheiro.

A carreira de Rivaldo terminou no fim de semana, mas o futebol de Rivaldo já o havia deixado há algum tempo. Ele esteve próximo de parecer, especialmente para quem o conheceu nos anos finais de sua trajetória, um desses jogadores incapazes de ir para casa. Não poderia responsabilizar ninguém pelo prejuízo de imagem, mas coisas assim jamais o preocuparam. O que ele sempre soube fazer foi jogar futebol.

No futuro, quando se falar sobre os grandes jogadores que tivemos, o nome de Rivaldo deverá ser citado. E quando se falar sobre Rivaldo, não haverá outro nome na conversa. Ele foi excepcionalmente singular.

FEIO

A inutilidade dos campeonatos estaduais não pode ser argumento para vexames de times grandes, como aconteceu com Corinthians e Botafogo, eliminados precocemente. A não ser que descartem tais torneios e os disputem com suas categorias de base, como já se ameaçou fazer em São Paulo e no Rio de Janeiro mas nunca se fez, chegar às fases finais é uma obrigação. Por tradição, orçamento e uma camisa a zelar. Sim, a eliminação pode trazer benefícios como dedicação exclusiva a outra competição ou uma preparação melhor para o Campeonato Brasileiro. Mas eles não justificam o constrangimento nos moribundos estaduais, que não satisfazem quem ganha mas prejudicam quem perde. Prejudicam mais ainda quem não consegue se colocar em situação de ganhar ou perder. No caso do Corinthians, o passado recente de conquistas não alivia o fracasso. Ao contrário.



  • Renan

    É incrível como pessoas da minha geração (tenho 25 anos), mesmo tendo acompanhado praticamente toda a carreira do Rivaldo, tem como seus grandes ídolos nomes mais badalados, porém não necessariamente com mais futebol que ele.
    Ajuda muito, e provavelmente será “pior” ainda daqui pra frente, a grande parcela da mídia que atribui a Copa de 2002 à teimosia do Felipão, e a recuperação milagrosa do Fenômeno. Esquecendo do “carregador de piano” que foi o Rivaldo.
    Eu mesmo confesso que só o reconheci como ídolo após “crescer” é procurar as coisas por mim mesmo, a imprensa brasileira, infelizmente, faz um trabalho de desconstrução incrível com grandes craques que são mais introspectivos.

    – Estaduais

    Não vejo nada demais no Corinthians ser desclassificado do campeonato estadual de maneira precoce, mesmo não sendo corinthiano, nem torcedor de algum clube de São Paulo.
    Há alguns já que venho acompanhando meu time do coração, o Atlético Paranaense, colocando a disputa em segundo plano e estando não tão preocupado em vencer tal competição. Nos dois últimos anos isso ficou mais escancarado com a colocação do time sub23 em campo, mas vem de tempos o descaso com o campeonato.
    Não que isso seja uma atenuante, o time do Corinthians, esse ano, consegue ser pior e demonstrar menos vontade que o do ano passado.
    Uma pena que a CBF não acorde e reviva os Regionais.

    • Nilton

      Renan, em relação a comparação Corinthians X Atlético PR, para o Atlético não tem problema de cair pois todos sabem que é o time sub-23, já para o Timão é complicado pois este é o Time A, e se em um campeonato que tem apenas 4 time grande e não conseguir ficar entre os 8 é preocupante para o Brasileirão, e o pior é que a torcida adversário não perdoa – o Tolima será eterno tanto como os 7X1.
      Com relação aos Regionais, eles estão voltando, no Nordeste tem a Copa do Nordeste em seu segundo ano seguido, e este ano começou a Copa Verde com os times do Norte, Centro Oeste (exceto Goiais) e o Espirito Santo, sendo transmitidos em rede nacional de TV. o Único problema que vejo é que estas Copas ficaram “amarrada aos Estaduais” e não em um calendário Anual ou que atendesse os interesses dos times que estão fora das Series A, B, C e D.

      • Renan

        Concordo com você, como eu disse, a não importância do campeonato não é atenuante para um clube com a grandeza do Corinthians ser desclassificado na primeira fase.
        Mas isso, de certa forma, acaba sendo benéfico para o clube, pois já identifica no começo do ano a incapacidade do elenco montado. Isso já era visto desde o ano passado, mas escolheram fechar os olhos, e o resultado está aí. Melhor para o Corinthians perceber no começo do ano as deficiências e poder se reforçar visando o campeonato brasileiro do que perceber quando “a vaca já tiver ido pro brejo”. Aqui no Paraná temos o Coritiba que há anos disputa o estadual “sozinho”, acha que tem um elenco nível Barcelona porque é campeão e já vem, desde 2012 (voltaram pra serie A em 2011), se salvando da série B na última hora.
        Se houver vontade da diretoria o Corinthians tem capacidade de se reforçar decentemente e ter um time competitivo no CB.
        O CAP também sofreu do mesmo problema, não identificou suas deficiências no começo e como resultado, após alguns anos brigando pra não cair, em 2011 fomos rebaixados.
        Se eu fosse corinthiano, com certeza ficaria chateado, mas com a certeza que algo de bom pode vir disso tudo.

  • Guilherme Nunes

    Tenho 28 anos, e Rivaldo e Zidane foram os jogadores mais completos que já vi. Notas 9 e 10 em todos os fundamentos

  • Emanuel

    André, bela coluna (de novo)! Depois de chegar ao fim, eu resolvi fazer um exercício de contrariedade e tentar comparar Rivaldo com os grandes da história, procurando paralelos. Iniesta? Não… Zidane? Talvez. Zico ou Sócrates? Me parecem boas opções. Mas de fato, é difícil achar alguém comparável ao que foi Rivaldo. No fim, não consegui te contrariar. E olha que tentar gente do quilate de Zico e Zidane já significa que a barra é bem alta. Abraço.

    • Antonio Paulo Silva

      Seu comentário é bom. Só discordo quando coloca Sócrates ou Zico na comparação. Os dois foram grandes(monstros) nos seus clubes. Na seleção apenas 2 bons jogadores. Zico em especial, jogou 3 copas do mundo, e não conseguiu ser nem o melhor do time do Brasil, quanto mais protagonista de Copa do Mundo. Nunca ganhou nem uma copinha América. O que da Status mundial de jogador de futebol é Copa do Mundo e Rivaldo foi o máximo.

      AK: Zico jogou muito em 82, assim como Sócrates. E se “status mundial” resultasse de desempenho em Copa do Mundo, Messi e Cristiano Ronaldo não seriam o que são. Um abraço.

      • Emanuel

        Posso discordar concordando? Na época de Sócrates e Zico a copa do mundo era parâmetro de excelência e, mesmo sem ganhá-la, eles se destacaram como jogadores sensacionais. Hoje, a Copa do mundo perdeu importância frente a competições como a Champions League ou os campeonatos nacionais europeus mais fortes e por isso Messi e Cristiano Ronaldo são os montros que são, independente de qualquer copa do mundo. Mas eu não estava comparando feitos, apenas tentando contrariar a coluna (um exercício mental) tentando definir Rivaldo baseado nos antecessores e não consegui. Comparar a “monstruosidade” deles, eu acho, é um pouco mais fácil. Lá em cima, numa zona nebulosa e cinza há Pelé, Garrincha, Maradona e Messi. Abaixo deles há esses aí que aparecem nos vários comentários desta coluna: Rivaldo, Zidane, Zico, Sócrates, Ronaldo, Cristiano Ronaldo, Iniesta, Gérson, etc, etc. Quem é melhor que quem, não me arrisco a dizer, vai muito do gosto. O Futebol é muito pouco exato pra fazer dessa lista algo rígido. 🙂 Abraço.

      • Perfeito André, Zico jogou demais no período que antecedeu a copa de 1982. Toda a seleção brasileira. Infelizmente, não foram premiados com títulos, mas o futebol que praticavam tinha nome: “verdadeiro futebol arte”.
        Não sou nenhum “expert”, mas aquela seleção não encantou somente brasileiros, foi amada e admirada por muitos. Zico, Sócrates, Falcão, jogaram demais, e estão entre os grandes do futebol.
        E sua observação sobre Messi e CR7 foi ótima. Nenhum dos dois brilhou em copa do mundo, ao menos até agora.
        Abraço.

        • Lucas

          Recentemente vi, pela primeira vez desde 82 aquele jogo contra a Italia. Cheguei a algumas conclusoes. A Selecao tinha falhas claras no sistema defensivo. Os 3 gols da Italia foram simplesmente ridiculos. Os 3!! Faltava um cao de guarda para jogar ao lado do Falcao que era um craque fora de serie. Faltavam jogadas pelas pontas ( o ze da galera estava certo). Ambos os laterias afunilavam para o meio e isso dava certo no Flamengo mas la tinha o Lico. Alguns jogadores foram muito mal nesse fatidico jogo, especialmente Cerezo e Leandro. O Serginho nao tinha nem como treinar junto com aquele time, destoava.
          Hoje, adulto, acho que o Tele cometeu varios erros e que uma geracao brilhante foi desperdicada.

  • Anna

    Rivaldo é craque. Deixará saudades!! Não vejo como vexame a situação do Botafogo. Talvez um pouco a do Corinthians, que só se dedicava a esse torneio e investe alto. A prioridade do Bota é a Libertadores que não ia há dezoito anos. O Bota tem que pensar grande. Vexame mesmo foi o Mauricio Assumpção ter apoiado o Rubens Lopes. Mas isso cabe em outra discussão. Boa terça a todos, Anna.

  • carlos rodrigues

    bom dia ilustre colunista,

    peço desculpas por fugir do tema proposto, mas considero que a confusão ao final do brasileirão 2013 (portuguesa, flamengo e fluminense) não pode ser esquecida.

    isto posto, solicito sua consideração acerca da manifestação do Jornalista da tv Bandeirantes, Felipe Andreoli, o qual afirmou, no programa Jogo Aberto, da mesma emissora, na última segunda-feira que houve “armação” entre Flamengo e Portuguesa no caso Héverton. O profissional de comunicação, que é torcedor da Lusa, confirmou o que já se suspeitava: O Rubro-Negro e o clube do Canindé tramaram a escalação do meia Héverton para livrar o Fla do rebaixamento.

    Atenciosamente

  • Dos grandes do futebol.

    Lembro que perguntaram ao Marcos, depois da final de 2002, se o Oliver Kahn tinha falhado na bola em que ele soltou e o Ronaldo completou pro gol. O Marcos respondeu “Você viu quem chutou? Foi o Rivaldo. Ele coloca muita pressão na bola. Quem tá de fora não tem noção da dificuldade que é defender uma bola dele. Não foi falha do Kahn não”.

    Ah, sem contar a bicicletaria que o Rivaldo abriu ao longo de sua carreira…

    Belo texto, André!

    Abs!

  • Alex

    “provavelmente o melhor jogador de uma Copa do Mundo”, mudaria para 2 Copas do Mundo, o único problema, e já me contradizendo, é que quem fez dois gols nas finais foram Zidane e Ronaldo e é difícil ignorar isto.

  • RENATO77

    Cara, fora do assunto mas…a justificativa do juiz que liberou os invasores do CT do SCCP foi bizarra. Esse é o nosso judiciário. Mais uma vez percebo “clubismo” numa sentença. O cara só faltou dizer abertamente: “…já que o clube se vangloria tanto dos seus fieis torcedores, que os aguente…”
    Obviamente o cara NÃO é Corinthiano e quanto mais “fieis fora da lei” nas ruas e nos estádios, prontos a prejudicar o clube, melhor pros rivais.

    Outro ponto, a morte do garoto boliviano em Oruro ainda é assunto, enquanto a morte por espancamento de um torcedor do SFC atacado por torcedores do SPFC não…não sei nem o nome da vitima santista, tão pouco tempo essa tragédia foi noticiada. Essa não deu IBOPE.
    Talvez pensem que morte por espancamento possa ter sido acidental…já a morte por tiro de sinalizador a mais de cem metros da vítima foi doloso.

    A policia encontra grande quantidade de drogas em duas sedes de torcidas organizadas, uma do SCCP e outra da SEP. Pouco ou nada se fala dessas apreensões, fato gravíssimo e se houvesse a repercussão merecida, talvez ajudaria no fechamento dessas pragas que são as organizadas.

    Depois disso tudo, ler a sentença do juiz, soltando invasores de propriedade privada, que agrediram pessoas e intimidaram vários trabalhadores, foi de doer.

    A abordagem sobre a desclassificação do SCCP, mais uma pérola do jornalismo da polêmica pela polêmica. Ví pelo menos 5 entrevistas pós jogo de domingo. Apenas uma, Romarinho, fez menção ao jogo do morumbi. Foi e será essa, por muito tempo, que será reprisada à exaustão. Só aumentando o clima bélico já existente entre as torcidas.
    A declaração de MM, mais uma “cutucada” do que uma acusação, foi superdimensionada afim, mais uma vez, de não faltar assunto durante a semana.

    A imprensa conseguindo piorar a cada dia.
    A busca por audiência acima da busca pela verdade, a busca pela audiência acima da utilidade da notícia. Completa falta de noção do seu papel na sociedade.

    Enfim, tá osso! Como tudo de ruim hoje em dia nesse país, a culpa deve ser do PT…
    Desculpe ocupar seu espaço, mais uma vez, pra descer a lenha na sua “categoria”, mas é onde ainda sinto que há um espírito de boa vontade naquilo que se propõe o trabalho de um jornalista.

    Abraço. Fique com Deus!

    AK: Esse juiz legitimou a impunidade. Um abraço.

    • Teobaldo

      “Esse juiz legitimou a impunidade”. Certíssimo, mas com base numa espécie de “súmula vinculante” oriunda as últimas decisões do STF. Aliás, curiosamente, as decisões do Supremo deixaram de ser supremas. Fazer o que? Um abraço!

  • Três coisas sobre o Rivaldo.

    É um grande craque, gênio da bola, tudo que você disse está muito correto.
    Jogou demais em 1998 e 2002, pela seleção.
    O Corinthians fez seu pior negócio ao não comprar o Rivaldo e deixar ele ira para o “Parmera”.

    Abraço e felicidades ao “aposentado” Rivaldo.

  • Fabio Hideki

    O Rivaldo me faz lembrar Pete Sampras.
    Pouco marketing e muito resultado.

  • Juliano

    “No basquete, por exemplo, é o ala que tem tamanho de pivô e habilidade de armador.”
    Estamos falando de Lebron, certo? De fato, ele possui uma tremenda vantagem física, e sua genialidade está em saber explorar isso. Ninguém pede pra nascer com determinada estatura. Força física não significa talento, mas claro que ajuda. Agora, seu mérito está em sua habilidade de armador. Esqueçamos a parte física: craques são chamados assim por possuírem uma inteligência acima da média – por isso Rivaldo é RIVALDO, e Denílson foi… Denílson. Por isso Lebron nunca será MJ.

    Excelente coluna, tanto quanto ter visto Rivaldo em campo.

    Abraço!

  • Fabio

    Para mim a melhor definição do Rivaldo foi dada pelo Tostão (sempre ele) anos atrás: ele contraria a máxima de que o bom jogador vê e o craque antevê.
    Rivaldo parecia não antecipar movimentos e nem saber o que ia fazer com a bola antes de ela chegar como faziam quase todos os citados acima, mas tinha um posicionamento e fundamentos muito acima da média que faziam com que lidasse com os problemas em campo de maneira única

  • Marcos Nowosad

    O Rivaldo sempre fez o “feijão-com-arroz” que não brilha, mas é eficiente.

    Isso é na verdade um grande elogio. Repare como os jogadores atuais não conseguem fazer nem o “arroz”, mas tem fama de craques.

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