COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

DON ANDRÉS

Na vépera do amistoso entre Espanha e Itália, Cesare Prandelli falou com o diário Marca. O conteúdo da conversa do técnico da seleção italiana com o jornal espanhol era protocolar até a sétima resposta, momento em que Prandelli se referiu a Andrés Iniesta como o melhor jogador do mundo. Exatamente isso.

Reproduzimos a declaração de Prandelli da maneira como foi publicada: “Iniesta é, sem dúvida, o melhor jogador do mundo. Tem tudo: qualidade, visão de jogo, personalidade, precisão… em qualquer zona de jogo que se encontre, ainda que apareça rodeado de vários rivais, é como se estivesse em sua casa”.

Prandelli tem prestado um valioso serviço ao futebol, dentro e fora da Itália. Sua passagem pela seleção será lembrada pelo resgate do jogo, no sentido da manutenção da posse como ferramenta e da elaboração de jogadas. A Itália de Prandelli gosta de jogar e já provou que pode ser competitiva assim, ainda que não tenha fartura de pé de obra – só há um Andrea Pirlo… – à disposição. Que o exemplo ao menos sirva para constranger especuladores mundo afora.

Considerando a maneira como Prandelli entende o esporte ao qual dedicou a vida, fica mais fácil compreender a ode a Iniesta. Ele não está comparando o meia do Barcelona aos fenômenos que monopolizam o debate sobre o “melhor do mundo”, porque tal comparação não faz sentido. Não está dizendo que Iniesta é melhor do que Messi ou Ronaldo. O raciocínio é distinto.

Prandelli está dizendo que nenhum outro jogador neste planeta faz o que Iniesta faz. E que o que Iniesta faz é mais difícil e mais importante. A opinião remete ao que Román Riquelme disse há alguns anos: “Quem melhor joga este jogo é Iniesta”. Outra frase que vale uma Bola de Ouro, para quem, claro, entende que a virtude está em saber jogar. São poucos, muito poucos, os que sabem.

Andrés Iniesta é um gestor. Maneja os tempos, decide entre a velocidade e a pausa, tem a capacidade de acelerar o jogo com um passe lento. Atua em todas as regiões do campo, detecta espaços ou os cria onde não existem. Sabe quando carregar para provocar caos, e quando tocar e sair para infligir desespero. Joga como se estivesse dizendo: isto que se move enquanto você corre é a bola.

No dia seguinte à entrevista ao Marca, Prandelli viu Iniesta controlar o amistoso no Vicente Calderón, conduzindo a Espanha a quase 68% de posse de bola, subjugando uma Itália desfalcada e cansada. O jogo espanhol passou pelos pés dele como se seu carimbo fosse obrigatório, como um selo de garantia de origem. Substituído aos vinte minutos do segundo tempo, Iniesta foi para o banco ouvindo a voz do estádio: Iniêêêêêsta! Iniêêêêêsta!

Mesmo aos olhos de quem enxerga sua magia, Iniesta tem imperfeições. É frágil, como são os virtuosos. Lesiona-se com frequência e se deprime quando não pode atuar. Não se pode ter tudo. Os infelizes que apontam defeitos em seu jogo lhe cobram gols. Disparate que deve fazer Cesare Prandelli sorrir. Existem muitos jogadores que fazem gols.

ANIMAIS

O recente episódio de racismo contra Tinga, no Peru, ainda está quente na memória de todos. Mas não serviu para evitar que um árbitro encontrasse bananas sobre seu carro, após um jogo do Campeonato Gaúcho, em Bento Gonçalves. O que tampouco serviu para impedir que Arouca ouvisse ofensas raciais na noite de anteontem, em Mogi Mirim, enquanto dava uma entrevista no gramado. Há pessoas, e pelo jeito não são poucas, que não se satisfazem em viver na miséria de princípios. Desejam ver todos sujos pela mesma lama. Não é mais uma questão de evolução, infelizmente.

CINZAS

O Flamengo jogou para um público ridículo na Quarta-feira de Cinzas. Há salas de cinema em que cabem mais de 375 pessoas. Defensores dos moribundos campeonatos estaduais dizem que eles têm “charme”. Pode ser, há gosto para tudo. Os estaduais só não têm gente interessada neles.



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