COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

DUPLA FACE

“Em outras palavras, existem dois ‘Brasis’. Enquanto o mês de junho se aproxima novamente, como esses dois vão interagir será tão fascinante quanto o que acontecer dentro de um campo de futebol”.

Assim termina a reportagem de autoria do jornalista Grant Wahl, publicada na última edição da revista Sports Illustrated, provavelmente a mais importante do mundo do esporte. Oito páginas dedicadas às questões em discussão na sociedade brasileira sobre a preparação para a Copa do Mundo. As impressões de quem veio de longe, andou nas ruas e ouviu pessoas. Com genuíno interesse e nenhuma agenda escondida, Wahl captou a tensão que a Copa impõe na medida em que se aproxima. Preocupação exacerbada pelos atrasos, pelas mentiras, pelo contraste entre os estádios de primeiro mundo e a voz ruidosa das manifestações.

É natural que a caracterização de nossos problemas, feita por um jornalista estrangeiro, tenda a nos causar incômodo. Desperta um sentimento automático de legítima defesa em antecipação a um ataque preconceituoso. Tem também a ver com prerrogativas. Como um desetendimento entre marido e mulher por causa de um comentário sobre a família “do outro”. De nossa família, falamos nós. Os outros que falem das deles. Não é o caso aqui. O artigo de Wahl tem o indiscutível mérito de transpirar admiração pelo país que define como “a casa espiritual do futebol”, sem se afastar do dever crítico que o ofício exige.

A descrição da reação das pessoas no momento em que viram a Brazuca pela primeira vez evoca a relação genética entre brasileiros e objetos esféricos. A menção à execução do hino nacional nos estádios da Copa das Confederações traduz fielmente o fenômeno que marcou o torneio. As declarações de ativistas contrários à Copa do Mundo deixam poucas dúvidas sobre o ambiente que se instalará nas sedes durante o Mundial. “Como reconciliar os dois ‘Brasis’?”, pergunta Wahl.

Ele mesmo responde que talvez não seja possível, com razão. Os problemas que deram origem aos protestos do ano passado permanecem escancarados. A garantia de repercussão local e externa faz da Copa do Mundo o prato principal e alimenta as manifestações. A possibilidade de níveis elevados de violência, tanto de ativistas quanto da polícia, sugere cenas ainda mais perturbadoras.

“Do que nos lembraremos melhor da Copa de 2014?”, questiona Wahl. “Um fantástico gol decisivo de Neymar, Lionel Messi ou Cristiano Ronaldo? Uma festa sem fim na terra que nos deu o ‘jogo bonito’? Ou outra onda de protestos em massa de habitantes incontroláveis? As manifestações de junho passado mostraram ao mundo que o Brasil é um lugar mais complexo do que muitos de nós imaginamos”, escreve.

Parece mais provável que nos lembremos de tudo. Não são aspectos excludentes, podem coabitar o mesmo espaço ao mesmo tempo, e compõem um retrato mais coerente em relação ao que o Brasil é. Os dois “Brasis” terão de conviver durante a Copa do Mundo. Seria saudável se pudessem ter uma conversa honesta.

HIPERESPAÇO

A reportagem da Sports Illustrated (disponível gratuitamente no site da revista) ouviu as opiniões de cada Brasil sobre a Copa. Em quase todas as questões, são posições antagônicas. Mas há um ponto em que ambos os lados estão de acordo: a Copa do Mundo será um momento sublime para alguns políticos brasileiros. Principalmente aqueles que parecem habitar outra galáxia, como o ministro do esporte, Aldo Rebelo. Certas declarações do ministro são interessantes obras de ficção.

GOLAÇO

Não permita que o Carnaval o impeça de apreciar um dos grandes gols do ano. Aconteça o que acontecer, não deixe de ver o gol de Yaya Touré, o primeiro do Manchester City na final da Copa da Liga Inglesa, contra o Sunderland. O City perdia por 1 x 0, Touré mudou tudo com um chute de fora da área, de primeira, de curva, no ângulo. Simplesmente magnífico.



  • Emerson Cruz

    A convivência dos dois Brasis, promete não ser nada amistosa.

  • Matheus Brito

    Um dado interessante sobre os “Brasis” que temos aqui. O Secretário da Fifa falou acho que ao próprio Lancenet que os investimentos em estádios chegaram a 8 bilhões, enquanto que os investimentos em educação e Saúde desde 2007 chegaram a 700 bilhões. difícil acreditar que um país tão deficiente nessas duas áreas tenha investido tanto assim. Esses números não estão errados, mas da maneira como são colocados parecem uma falácia. Em 2014 por exemplo, os gastos com educação serão de R$ 42,2 bilhões e com a saúde outros R$ 82,5 bilhões. Acontece que na saúde menos de 10% serão para investimento e sim para pagamento das despesas que já existem, como salários e etc. com a Educação o Investimento não chegará a 5%. Números precisam ser interpretados para que não sejamos ludibriados. E é exatamente por informações assim que a convivência entre os dois “Brasis” promete fortes emoções durante a copa.
    Sobre o gol do Yaya Touré, a exata noção que ele teve do posicionamento do goleiro foi impressionante, mas ainda a forma como ele bate na bola. Muita gente que não acompanha o futebol inglês ou que só acompanha os grandes jogadores pelo PS ficarão maravilhados com esse Marfinense na copa. Um volante mais que moderno, pois além da elegância e habilidade, também possui uma obediência tática e porte físico que os adoradores de volantes cabeças de bagre adoram, ou seja, ele jogaria com qualquer treinador.

  • RENATO77

    Impossível não cair na política…
    Um terceiro mandato de um governo que tem conseguido índices sociais e econômicos absolutamente positivos. Tudo isso seguindo uma cartilha não exatamente como mandavam os economistas ortodoxos, que durante décadas ditaram a direção de nossa economia na base do “é preciso crescer o bolo para depois dividi-lo”. Desta vez a massa foi sendo dividida em vários fornos, país afora. Aprovação maciça, batendo os 80%, faltando menos de 2 anos para a próxima eleição. Ou seja, o quarto mandato praticamente uma realidade.
    Era preciso impedir isso, pelo menos era o que pensavam aqueles que querem destituir o atual governo. E esses detêm a grande mídia. Com ela mostrando 24 horas por dia o “lado vazio do copo” durante dez anos, finalmente consegue criar o segundo “brasil” e fazer com que ele saia da sala para as ruas.
    Nesse contexto, um evento como a copa do mundo caiu como uma luva. Especialistas que são em demonizar pessoas e entidades…demonizar um evento foi relativamente fácil com a ajuda voluntariosa do próprio governo com sua histórica incompetência e corrupção.

    A questão não é e nunca foi o saldo dos cofres públicos.
    Com a carga tributária que temos, é difícil acreditar que os cofres públicos estarão mais vazios depois do que antes da copa. Mesmo com todo o “barulho” que já aconteceu e que certamente irá reduzir o impacto positivo na economia, a “banca” sempre ganha. Da cerveja que será aberta em frente da TV às cartolinas usadas nas manifestações, o governo sempre dá a sua mordida. Quase impossível não lucrar quando a mordida chega aos 50% de todo o movimentado na economia. Caberia aos cidadãos cobrar onde serão investidos os lucros obtidos com o evento e não serem contra o próprio.
    Bem que poderiam criar o movimento “não vai ter olimpíada”, pra esse ainda dá tempo…mas como pode ser que este evento ocorra durante a gestão da atual oposição, é melhor aguardar o resultado das urnas e só depois demonizar mais esse evento.
    Até que dê certo, depor o governo que vem mudando o formato da “pirâmide” social deste país, viveremos com na Venezuela dos últimos meses. E não será por culpa da situação e sim da oposição. É preciso saber perder, se essa for a resposta das urnas.
    O instrumento de mudança na democracia é a urna e não coquetel molotov.

    Mas que vai dar m… não tenho dúvidas, principalmente nas ruas.

    Se conseguirão virar o jogo das eleições em outubro/novembro, porque é esse o intento, só Deus sabe.
    Abraço!

MaisRecentes

No banco



Continue Lendo

É do Carille



Continue Lendo

Campeão de novo



Continue Lendo