COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

CONVITE

Um curto recado escrito no quadro de avisos do vestiário, um grande drible no preconceito. Um gesto de respeito e inclusão que questiona ideias preconcebidas, desafia comportamentos primitivos. Cortesia de Landon Donovan, jogador do LA Galaxy e da seleção americana de futebol.

A mensagem era um convite para uma reunião na noite deste sábado. Encontro apenas para jogadores, uma dessas oportunidades para “unir o grupo”. Líder do time, Donovan escreveu: “Sábado após o jogo, noitada obrigatória… apenas para jogadores (sem mulheres, namoradas, namorados, acompanhantes)”. A palavra “namorados” – em uma comunicação endereçada a um grupo formado integralmente por homens – não foi uma provocação homofóbica a um companheiro “diferente”. Ao contrário, foi a extensão do convite a um jogador homossexual.

Robbie Rogers, meia do Galaxy, assumiu sua homossexualidade em fevereiro do ano passado, tornando-se o primeiro atleta publicamente gay entre as ligas esportivas mais importantes dos Estados Unidos. A gentileza de Donovan deve ter marcado a primeira ocasião em que Rogers ficou feliz por não poder levar seu namorado, um produtor de televisão, a um evento. Em seu perfil no twitter, Rogers publicou uma foto do recado acompanhada de um agradecimento: “obrigado por me incluir”.

A atitude de Donovan, repleta de significado em sua simplicidade, revela o que acontece em ambientes inclusivos, principalmente depois que alguém se expõe como Rogers fez. Também desmente uma “verdade” amplamente difundida no mundo do futebol: a de que não há espaço para um jogador gay em um vestiário profissional. Nada como a liderança exercida da forma correta.

A noitada organizada por Donovan é um movimento de construção de grupo, crucial para o sucesso em esportes coletivos. Não faria sentido algum excluir um jogador de uma atividade à qual ele pertence, mas Donovan não precisava ser tão explícito na restrição do convite. Ao elaborar, propositalmente, ele disse ao grupo que Rogers é um deles, e disse a Rogers que ele é benvindo. E há quem pense que as relações que se formam entre companheiros não permitem que um atleta gay seja aceito. Ou que a publicidade gera problemas com os quais jogadores de futebol não são capazes de lidar.

Não há um jogador abertamente gay no futebol brasileiro por um motivo: medo. Não por parte de quem terá a própria privacidade exposta por um gesto libertário, mas por parte de quem terá de conviver com isso. Dirigentes, técnicos, companheiros e, especialmente, torcedores. Reféns do medo de que o time fique rotulado, do medo de não saber como se portar, do medo de ser responsabilizado por um estigma. Essas são as pessoas que estão, de fato, dentro de um enorme armário de insegurança.

É lúdicro imaginar que só há jogadores heterossexuais nos maiores clubes do Brasil. É bem provável que haja um ou dois gays em seu time. Não lamente, não deveria fazer a menor diferença. Se quiser lamentar, faça-o por um jogador que seu time não tem: alguém como Landon Donovan.

EXPRESSÃO

Oswaldo de Oliveira parece estar mudando seu comportamento à beira do campo e diante do microfone. Mais expansivo, até explosivo para seus padrões. Se for por recomendações médicas, por estar convencido de que não é saudável represar sentimentos negativos, excelente. Se for pela pressão dos que querem moldar as personalidades alheias, mas se recusam a olhar para as próprias, nem tanto. Somos o que somos, como somos. De qualquer forma, é ótimo saber que algo permanece absolutamente igual em relação ao trabalho de Oswaldo: a postura dos times que ele dirige. São equipes que vão a campo para jogar, como o Santos tem feito neste início de temporada. Como o Botafogo fez no ano passado. Se é verdade que técnicos de futebol se expressam por intermédio de seus times, Oswaldo se mantém o mesmo. Tomara que não mude nunca.



  • Eddie The Head

    Embora a palavra exista,não seria lúdico ao invés de lúdicro? Procurei no Google e vi que,embora a palavra exista,o significado dela não é específico.

    Se quase execraram o Richarlyson por acharem que ele era gay,imagine se algum corajoso assumisse? Acho que esse medo que você citou não é só do que ele vai ouvir das arquibancadas,mas será que nossos dirigentes contratariam um jogador assumidamente gay? É uma questão mais de costume do que de cultura.

    Lembra do Michel,do vôlei?

    AK: Lúdicro: ridículo.

  • Emerson Cruz

    Grande atitude de Donovan. Espero um dia viver num mundo em que a condição/orientação sexual de alguém não cause polêmica alguma.
    Quanto aos jogadores homossexuais no Brasil e ao redor do mundo, é perfeitamente compreensível que estes prefiram se manter “no armário” devido ao medo existente, como apontado nesta coluna. Entretanto, creio que uma saída para isso é que dirigentes e jogadores resolvam encarar o problema de frente com clubes dando respaldo aos profissionais que se assumirem publicamente. Num primeiro momento haveria alguma polêmica e problemas de aceitação por parte de alguns (lamentavelmente vivemos numa sociedade cheia de Bolsonaros), mas acho que com o passar do tempo atletas homossexuais acabariam por ser mais aceitos. Claro que tal atitude não iria acabar com a homofobia, mas talvez este preconceito no futebol fosse um pouco atenuado.
    É possível que esta seja uma visão equivocada da minha parte, também não exijo que ninguém seja herói ou mártir. Mas penso assim devido ao paralelo que pode ser feito em relação ao histórico do preconceito racial no futebol. Longe de ter acabado com o racismo (que o digam Tinga e tantos outros) hoje há uma maior aceitação de negros praticando este esporte.Talvez este seja o caminho.

  • Leandro Azevedo

    Creio que o problema não seria aceitação no vestiário mas sim dos torcedores – nos EUA a torcida não tem o fanatismo que existe no futebol pelo mundo, o que facilita que os jogadores talvez se sintam mais tranquilos em assumir a sexualidade como vem acontecendo com mais frequência.

    Charles Barkley em algumas entrevistas recentes, e uma opinião que parece ser semelhante a de muitos outros, sempre disse que o vestiário e o lugar mais fácil dessas pessoas terem um convívio normal – os atletas não estão preocupados com isso, mas com o fato do atleta ser bom o suficiente para ajuda-los em quadra/campo. Piadas sobre sexualidade/raça vão sempre existir, faz parte da cultura, e cabe aos lideres do vestiário (como o Donovan) adequar o ambiente para ser receptivo e não agressivo com as minorias.

  • Teobaldo

    Prezado AK, muito oportuno esse post e, principalmente, a excelente abordagem feita por você. Entranto, com um pouco de abstração, fui na direção contrária e fiquei a imaginar uma outra questão: Porque todo aquele que, de uma forma ou de outra (criação, ignorância, medo do “diferente”…), seja contrário ao homossexualismo é taxado de preconceituoso, retrógrado? Não sei se você concorda, mas essa “não aceitaçao” do homossexualismo passa por questões culturais, muitas vezes de difícil compreensão. Na minha ótica, tal questão somente vai ser desmistificada se o homossexualismo for tratado com outro enfoque e não somente como uma questão de opção sexual. A minha opinião, obviamente desprovida de nenhum tipo de estudo ou algo que o valha, é que esse comportamento (sem preconceito com o “esse comportamento”, mas não achei expressão melhor) esteja mais ligado a uma questão genética. Por outro lado fico imaginando um cientista qualquer desvendando esse mistério (se é que ele exista realmente). Teria ele coragem para divulgar, defender, argumentar? Acho que teríamos uma volta à inquisição. Enfim…

    Em relação ao Oswaldo de Oliveira, acho que essa atitude dele esteja mais ligada ao padrão de comportamento dos treinadores de futebol no Brasil, que “exige técnicos mal educados”. Treinadores bem educados, cordatos (Marcelo Oliverira, Oswaldo de Oliveira, Nei Franco, Paulo Autuori, etc), por possuirem tais características (ou, pelo menos, deixarem transparecer essas características) ainda são casos raríssimos de profissionais respeitados no mundo da bola.

    Desculpe o “alongado” da prosa, mas os temas abordados por você são muito bons.

    Um abraço!

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