COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

LICENÇA PARA OFENDER

Por uma lógica perversa que não resiste a poucos segundos de argumentação, há quem acredite que estádios de futebol são ambientes em que normas de comportamento não são necessárias. Em que o direito à emoção e a extravasá-la se sobrepõe a qualquer outro, de quaisquer outros. O jogador adversário, o torcedor adversário, o árbitro, seja quem for, estão todos sujeitos a um tipo de tratamento que não se tolera em outras partes, porque o futebol produz essa “catarse com foro privilegiado”.

A cada pai que leva o filho pequeno ao futebol e o autoriza a ofender gratuitamente quem ele nem conhece, porque “aqui pode, mas só aqui”, fica mais fácil entender a origem do que aconteceu há dez dias com o brasileiro Marcelo, lateral do Real Madrid, e com o filho dele. A falta de educação é a mãe de todos os preconceitos.

Após um clássico no Santiago Bernabéu, Marcelo sofreu abusos racistas de torcedores do Atlético de Madrid. Enzo, de apenas quatro anos, não só presenciou as ofensas como ouviu os ignorantes gritarem “Marcelo não é seu pai”. Para os iluminados fãs do Atlético envolvidos no episódio, o crime do brasileiro é ser um negro que se veste de branco. A necessidade de puni-lo não deve poupar nem mesmo uma criança.

A resistência a respeitar semelhantes se baseia em toda sorte de explicações. É a retórica de quem carece de princípios. Tão errado está quem os tem, ou pensa ter, mas perpetua a mensagem de que há situações em que eles não se aplicam. Ou entende que existe um sistema de castas que dá alguns, e recusa a outros, licença para ser preconceituoso.

O drama que Tinga viveu nesta semana em um estádio peruano expôs, por aqui, a dificuldade de discernir certo e errado. Brasileiros indignados com a violência racista sofrida pelo volante do Cruzeiro foram às redes antissociais para bradar que “índios não têm moral para ofender negros” e variantes igualmente cretinas. Provavelmente compreenderiam se o mesmo comportamento fosse verificado em um estádio alemão.

Não faltam pretextos para disseminar a imbecilidade. No futebol brasileiro, ofende-se quem é de outra cidade, de outro estado, de outro país, de outra cor. E a cor não precisa ser a da pele, basta que seja a da camisa. Se for de ambas, como se viu com Marcelo na Espanha, melhor ainda. Tudo se aceita pelo alvará dos sentimentos que afloram quando nosso time está em campo, porque no campo de futebol é permitido escolher com quem se quer conviver. A felicidade que transborda com um gol foi corrompida pela autorização para agredir.

No que diz respeito ao racismo, enquanto os jogos prosseguirem normalmente e as multas forem simbólicas, o filho de Tinga correrá o risco de chorar a cada vez que seu pai jogar. É preciso deixar de apenas falar em combater o preconceito racial e agir, mas a questão é mais profunda. Um amigo costuma dizer que estádio é formação de caráter. Só se for pela exposição a comportamentos desrespeitosos que devem ser condenados.

JUNTOS

Não foi boa a ideia da entrevista coletiva conjunta entre Paulo Nobre, Mário Gobbi, Gilson Kleina e Mano Menezes. Foi muito boa. Seria melhor ainda se os técnicos estivessem sentados ao lado dos dirigentes dos clubes adversários, mas isso é detalhe. E é claro que, apesar da importância de passar a mensagem de que o lugar de rivalidade é apenas no campo, uma iniciativa como essa precisa se transformar em algo maior do que o discurso. Mas já é um início. Se clubes tivessem a capacidade de se agrupar, o futebol brasileiro seria melhor.

GOL

E por falar em ideia boa, a do uniforme rubro-negro da seleção alemã ganhou a semana. Agradou aos europeus, pelo potencial de simpatia nos estádios brasileiros. E agradou aos rubro-negros, pela evidente homenagem.

$$$!!!

Chegou a hora do “gaste quanto for necessário” para finalizar os estádios da Copa. Será um sucesso.



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